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Laboratório

 

John Ellis, físico de primeira e dramaturgo de quinta


Ellis em sala do departamento de física teórica do Cern (Foto: Claudia Marcelloni/Cern)

Com ajuda de infiltrados, descobri como foi a última festa de Natal no departamento de teoria do Cern, o laboratório que abriga o superacelerador de partículas LHC. Todo ano, o evento é marcado pela apresentação de uma peça de teatro escrita pelo físico John Ellis, que desta vez tinha motivos de sobra para fazer piada.

A obra do cientista-dramaturgo estava recheada de referências a problemas atuais de física teórica, apresentados em meio a tiradas maliciosas de duplo sentido, bem no estilo "A Praça É Nossa". Em alguns momentos os próprios atores ficaram constrangidos em palco. "Teatro amador" é um termo gentil para descrever a produção de 2011, na qual quase todo o elenco (cientistas e engenheiros de férias) entrou em cena com o texto nas mãos por não ter podido decorá-lo. Os personagens eram parodiados da série de histórias em quadrinhos "As Aventuras de Tintin". Na falta de um bom figurino, todos carregavam cartazes de identificação.

Uma das principais piadas do espetáculo de 2011 foi sobre a "quase-descoberta" do bóson de Higgs, partícula que segundo os teóricos explica a origem da massa. Ellis brinca com o fato de que, em dezembro, quando todos esperavam um anúncio positivo, físicos mostraram gráficos lineares onde duas curvas apenas "sugeriam" sem prova definitiva que a partícula estava sendo produzida no acelerador.

Na peça de teatro, o evento foi retratado por Fabiola Fabulosa (versão satírica da cientista Fabiola Gianotti, uma das chefes do Cern) apresentando o gráfico. "Tenho aqui duas protuberâncias para mostrar", diz. Logo depois, um físico teórico retruca olhando para os seios da moça: "Mas são muito pequenas!".

Outro trecho satirizava o laboratório italiano do monte Gran Sasso, onde partículas chamadas neutrinos, emitidas da Suíça pelo Cern, foram detectadas viajando acima da velocidade da luz —"descoberta" na qual nenhum teórico acredita. A piada foi apresentada por uma pesquisadora interpretando a ministra italiana da ciência, Mariastella Gelmini, que na vida real cometera a gafe de dizer que o governo construiu um túnel do meio da Itália até Genebra para realizar o experimento. (Neutrinos atravessam a matéria; não precisam de um túnel de 750 km para trafegar.)

Na peça, Mariastella ajuda um cientista a medir o Gran Sasso —Gran "Cazzo" no texto de Ellis— para saber se ele tem "o tamanho adequado" para o experimento.

Algumas piadas eram incompreensíveis para quem não era físico. Outras são impróprias para reproduzir neste blog, ou simplesmente não fizeram ninguém rir. Mas, mesmo constatando que Ellis é um dramaturgo de quinta categoria, não consigo deixar de admirar sua capacidade de ironia ao satirizar o esforço para detectar o bóson de Higgs, uma empreitada levada adiante por insistência dele próprio e de outros físicos.

Para quem quiser se aventurar, está aqui abaixo o link do vídeo peça, em inglês.

Neutrino Tintin na Terra do Gran C*zz*
Com John Ellis (de capacete verde, no centro) e grande elenco

Escrito por Rafael Garcia às 12h22

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PERFIL

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

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