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Os acertos de "Planeta dos Macacos - A Origem"

Com muito atraso, finalmente consegui ver o novo "Planeta dos Macacos". (Sabe como é -- filho pequeno em casa não favorece muito as idas ao cinema, apesar das inúmeras alegrias que proporciona.)

Apesar da biotecnologia amalucada que figura proeminentemente no filme, a parte primatológica da ciência me pareceu um golaço. Pelos motivos a saber:

1)A sensação de PODER que o contato com um grande macaco causa nas pessoas. A veterinária interpretada por Freida Pinto diz que adora chimpanzés mas também tem muito medo deles, e é exatamente essa a sensação que o sujeito tem quando desfruta do privilégio de chegar bem perto desses bichos. Chimpanzés adultos, em especial machos, de fato têm algo de sobre-humano no andar, na musculatura, na agilidade e nos acessos de fúria.

2)A transição entre filhote e adulto que vemos no caso de Caesar. De fato, se alguma vez você cogitar ter um chimpanzé como mascote, além das considerações mais nobres de querer arrancar um membro de uma espécie ameaçada da natureza, considere que aquele bebê fofinho vai virar um Maguila com caninos afiados e três vezes a força de um homem adulto.

3)A imensa dificuldade de um macho adulto de se integrar a outro grupo. Nesse caso, aliás, o filme pegou leve: no mundo real, os chimpanzés do santuário de primatas provavelmente teriam matado Caesar. Chimpanzés são patrilocais, o que significa que fêmeas se transferem de um grupo pra outro; machos, nem pensar.

4)O gestual, a hierarquia social, a necessidade de mostrar submissão ou dominância diante de problemas "políticos".

Aliás, oportunamente, hoje os EUA anunciaram possíveis grandes restrições à pesquisa biomédica com chimpas. Boa libertação primata pra todos nós.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 20h48

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Higgs, Deus, bóson e outros nomes


Imagem digital mostra colisão de partículas no LHC que pode ter gerado o bóson de Higgs (CMS/Cern)

Nas horas que se seguiram ao anúncio da quase-descoberta do bóson de Higgs, a tão procurada partícula elementar necessária para completar a teoria da física que rege o mundo microscópico, ouvi cientistas reclamando da "intervenção divina" na cobertura do evento.

Muitos não gostam do apelido que a mídia adotou para deixar essa entidade corpuscular mais sexy: a "partícula de Deus". Com razão, querem evitar que as pessoas pensem que a detecção do bóson de Higgs possa ser uma espécie de confirmação da existência do Todo Poderoso. Isso não faz o menor sentido, é claro, e por isso o nome preferido até agora é o oficial _uma referência a Peter Higgs, criador da teoria que descreve a partícula.

O que alguns cientistas não levam em conta é que esse apelido impopular não foi dado por nenhum jornalista impertinente, e sim por Leon Lederman, ganhador do prêmio Nobel de Física de 1988. Ele é autor de "The God Particle", livro que explica a teoria para o público leigo.

A piada que Lederman usa para justificar o nome é a de que foi proibido por seus editores de intitular o livro "The Goddamn Particle" (A Maldita Partícula). Mas a verdadeira inspiração para o título, explica depois, está num exemplo que ele encontrou em "um livro bem mais antigo": a Bíblia. E esse sacrilégio cometido pelo físico guarda uma analogia bem interessante.

O bóson de Higgs é um componente teórico fundamental para entender por que as partículas elementares conhecidas até agora tem massas tão diferentes umas das outras. Um elétron pesa até 200 mil vezes mais que um neutrino, e ninguém entende por quê. Essas partículas porém, devem interagir com o bóson de Higgs, que lhes confere a propriedade da massa. É possível então entender a partir dessa interação por que elétrons, neutrinos, quarks etc. são tão diferentes. Do contrário, seria preciso supor que a natureza conferiu propriedades aleatórias aos seus componentes mais fundamentais.

Como objetivo da ciência é construir uma descrição da realidade o mais compacta e coerente possível, não faz sentido imaginar que os componentes mais básicos da matéria e da energia sejam um zoológico de entidades totalmente diferentes umas das outras.

O Velho Testamento possui uma tentativa semelhante de explicar por que os povos falam tantas línguas diferentes e não entendem uns aos outros. Segundo uma passagem do Gênesis, quando os humanos eram um povo só com uma língua única, tentaram construir a Torre de Babel para atingir os céus e irritaram Deus com sua petulância. O que Ele fez então foi espalhar a humanidade pela Terra e fazer com que povos distintos falassem línguas diferentes. Dessa forma, não poderiam criar uma sociedade poderosa a ponto de se equipararem ao poder divino.

Se Deus foi usado como explicação para a humanidade ter línguas diferentes, diz Lederman, o bóson de Higgs seria a explicação para as partículas elementares terem massas diferentes.

Por alguma razão, em língua portuguesa convencionou-se traduzir o apelido do bóson como "partícula de Deus" e não "Partícula Deus", que seria a forma correta. Meu colega jornalista de ciência Igor Zolnerkevic, físico que costuma ler nossas reportagens com olhos afiados, supõe que "seria uma imagem bizarra demais a de um Deus em forma de partícula subatômica; o velhinho de barba é muito mais simpático."

Se a maioria dos cientistas não gosta de incluir Deus nessa história, Peter Higgs já disse que fica incomodado também de ver a partícula batizada apenas com seu nome. Para ele, é preciso fazer jus a outros físicos _François Englert e Robert Brout_ que também deram grandes contribuições à teoria. Me parece pouco prático batizar a partícula como "bóson de Englert-Brout-Higgs", porém.

De todo modo, se os físicos decidirem dar outro nome à partícula, talvez devam esperar um pouco. Mesmo tendo conseguido ver sinais otimistas neste ano no acelerador de partículas LHC, uma confirmação da existência do bóson de Higgs só deve sair em meados do ano que vem, quando o experimento tiver acumulado mais dados. Se por algum azar a partícula continuar se escondendo, toda essa discussão bizantina terá sido sem sentido.


PS. Aos distraídos que estão procurando o livro de Leon Lederman para comprar: ao que parece, ainda não há nenhuma tradução para o português. Cuidado para não adquirir "Partícula de Deus", lançado pela editora All Print. Este, da autoria de Breno Medeiros, é na verdade um livro de poesias com inspiração religiosa. Não sei se o autor é bom poeta, mas me parece que o intuito da obra não é descrever o bóson de Higgs. Melhor ir atrás do original de Lederman em inglês.

 

Escrito por Rafael Garcia às 13h40

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Nasa lança estação de rádio

Para a Nasa, rock e exploração espacial não são temas tão diferentes assim. A agência espacial americana acaba de lançar uma rádio na internet que junta os dois temas.

Batizada de “Third Rock” (Terceira Pedra) --devido à posição da Terra, que é o terceiro planeta rochoso a partir do Sol--, a rádio é transmitida a partir da base da Nasa, em Houston.

Vale lembrar que a música é algo muito presente nas missões espaciais. É com ela que os astronautas geralmente são acordados durante os voos e até em na estadia na ISS (Estação Espacial Internacional). Aliás, até os robozinhos mandados à Marte já usaram canções como despertador.

 

Crédito: Nasa/Divulgação

Além de rock tradicional, indie e alternativo, a estação também tem informações sobre as últimas descobertas da Nasa.

Para seguir o espírito do programa espacial, o repertório é basicamente de novos artistas. Segundo um comunicado da agência, o objetivo é justamente este: “explorar a música” e conhecer novos mundos.

O público-alvo da rádio são os jovens fãs de astronomia e tecnologia. Muito por conta disso, a Nasa já anunciou que será possível encontrar até anúncios de vagas nessas áreas durante a programação.

O projeto estará disponível em breve no aplicativo da Nasa para iPhone e Android, além do iTunes.

Para começar a escutar, é só visitar o endereço: http://www.thirdrockradio.net/

Escrito por Giuliana Miranda às 18h19

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PERFIL

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

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