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Contabilidade criativa

(DURBAN) - No último dia 30, quando a rede de ONGs Climate Action Network desceu o pau no governo brasileiro por defender a reforma no Código Florestal que, no entendimento das ONGs, equivalerá a uma "bomba de carbono" pelo desmatamento que acarretará, uma fonte do governo me ligou para expor um raciocínio insofismável: o código, na verdade, ajudará o Brasil a *cumprir* sua meta de redução de emissões por desmatamento, em vez de impedir o cumprimento da meta, como dizem os ambientalistas.

Heim?

Muito simples, prosseguiu a fonte: a versão do relatório do código que deverá ser votada nesta terça no plenário do Senado prevê a recuperação de parte das áreas de preservação permanente (APPs) e reservas legais desmatadas, coisa que o código atualmente em vigor não faz (porque ninguém cumpre a lei, completo eu). Portanto, teremos milhões de hectares em restauração, o que equivaleria a potenciais bilhões de toneladas de CO2 sequestradas pelas árvores em crescimento e fixadas na biomassa. O governo estaria fazendo as contas.

Na hora enxerguei o erro conceitual e apontei à minha fonte o ato de desonestidade intelectual desse tipo de contabilidade. Afinal, as nossas metas de redução de emissões por desmatamento incidem sobre fluxo, sobre o estoque de florestas em pé, e não sobre passivo ambiental (o Brasil, registre-se, sempre foi absolutamente contra incluir regeneração de florestas no Redd, o mecanismo de redução de emissões por desmatamento negociado pela ONU).

A influência do Código Florestal sobre as nossas metas, portanto e infelizmente, se dá em mão única; mesmo que o texto previsse reflorestar 100% do Brasil, da avenida Paulista ao calçadão de Ipanema, essa regeneração não poderia contar para as nossas metas se de outro lado florestas continuassem desprotegidas e tombando.

É bom lembrar que o código atual tem previsões muito mais rigorosas de recuperação de passivo, que só não foram cumpridas porque os ruralistas resolveram mudar a lei no momento em que o então ministro Carlos Minc baixou um decreto determinando seu cumprimento.

Pois o governo foi adiante na sua contabilidade maluca. Botou de porta-voz da sandice o pobre secretário nacional de Mudança Climática, Eduardo Assad, um cientista brilhante e honesto que jamais cairia sozinho numa esparrela dessas. Na sexta-feira, Assad apareceu nas páginas do "Estado de S. Paulo" cravando em 8 bilhões de toneladas de CO2 o sequestro promovido pelo novo Código Florestal, longa vida a ele. Horas depois, aqui em Durban, o Brasil ganhava seu primeiro troféu Fóssil do Dia em vários anos. Merecido.

Mal comparando, é como dizer que o governo não tem como fiscalizar o tráfico de cocaína, portanto está legalizando a cocaína e dizendo que cocaína faz bem para a saúde porque os impostos que os traficantes *toparam* pagar após uma longa negociação com o governo (veja a inversão de valores aqui) serão em parte aplicados no SUS.

Escrito por Claudio Angelo às 20h09

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Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

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