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Entre chimpanzés e vírus

Em reportagem no último domingo, escrevemos sobre um assunto polêmico sem revelar opiniões pessoais. Refletimos sobre a disputa legislativa que vem ocorrendo no último país do mundo a usar chimpanzés como cobaias: os Estados Unidos. No texto, eu e Reinaldo José Lopes, meu amigo/coautor/editor, procuramos escrever sem coagir o leitor a tomar determinada posição sobre o assunto.

Reinaldo se manifestou depois, neste blog. Eu declaro posição agora, mas tomando o lado oposto: sou favorável ao uso de chimpanzés como cobaias, em alguns casos.

Acho que o uso de qualquer cobaia deve ter muitas restrições, sim, e deve sempre ser contrabalanceado com expectativas de benefícios para a sociedade. Também deve ser evitado quando há alternativas, e os animais usados devem ser tratados da melhor forma possível. Contudo, uma proibição total e inegociável de pesquisas médicas com chimpanzés não me parece uma boa decisão.

Sou contra touradas, rodeios e circos. Abomino o uso de animais para testes de cosméticos. Acho zoológicos uma coisa anacrônica e posso levantar uma série de questionamentos válidos contra o consumo de carne. Mas o debate sobre o uso de chimpanzés como cobaias envolve uma escolha muito mais difícil do que qualquer um desses assuntos.

Esses macacos são o único meio viável, por enquanto, de testar vacinas para algumas doenças que podem matar humanos. Por outro lado, chimpanzés têm diversas qualidades mentais semelhantes às dos próprios humanos, têm parentesco evolutivo próximo com nossa espécie e são extremamente vulneráveis a sofrimento físico e psicológico.

Isso nos coloca em um dilema ético que não têm resposta absolutamente certa ou errada. Ele requer que uma sociedade faça uma escolha arbitrária, de maneira consciente, e assuma suas consequências. Para ilustrar como essa decisão é difícil, uso duas questões como exemplo:

a) Devemos usar chimpanzés como cobaias se tivermos garantia de obter em troca a vacina eficaz contra uma infecção sem cura que mata 3 milhões de pessoas por ano?

b) Devemos usar chimpanzés como cobaias se tivermos 50% de chance de obter a vacina contra uma doença crônica, de cura difícil, que mata uma parcela dos infectados?

Quem acredita que vidas humanas devem ser sempre postas em primeiro plano responderá sim à questão a) sem titubear. Mas a questão à qual temos de responder como sociedade, na realidade, se parece mais com b).

Os chimpanzés não se prestam a testes de vacinas contra o HIV. Eles são muito úteis, sim, nas pesquisas de vacinas contra a hepatite C. É uma doença menos grave, mas que afeta 3% da população mundial e pode, em alguns casos, levar à morte por cirrose e complicações.

Ainda assim, estamos pisando em território incerto aqui. Não sabemos se o uso de macacos é um pré-requisito para desenvolver a vacina contra a hepatite C. Testá-la em humanos com segurança talvez seja difícil demais. Também não saberemos se somos capazes de criar tal vacina, com ou sem uso de chimpanzés, até que alguém o faça.

Existem muitos motivos para levar a crer que a proibição do uso dessa espécie como cobaia retardaria e reduziria as chances de os cientistas criarem a vacina. Não sabemos se seria uma redução significativa.

Em meio a tantas incertezas, porém, existe um cenário possível, no qual a proibição do uso de chimpanzés em pesquisas médicas teria um custo alto: um custo em vidas humanas, sobretudo em países pobres.

Por essa última razão, acredito que a permissão do uso de chimpanzés como cobaias seja a decisão correta, por enquanto, no caso das pesquisas com hepatite C. Talvez algumas outras doenças requeiram o mesmo, mas serão poucas. Ninguém se sentiria bem ao tratar um animal com tantas qualidades humanas como se fosse um camundongo.

Conheci vários chimpanzés enquanto estava colhendo informação para a reportagem que publicamos no domingo passado. Cada um deles tem uma personalidade diferente, um rosto próprio, individualidade, consciência, inteligência e empatia. Mas eu não colocaria a vida de nenhum deles diante do drama de um doente hepático na fila para o transplante de fígado. É uma decisão arbitrária, e não há como ser de outra maneira.

Talvez, no futuro, olhemos para trás e vejamos que todo esse drama foi desnecessário, caso se invente uma técnica viável para testar vacinas de hepatite sem usar macacos. Pode ser que não. Talvez terá sido preciso escolher entre vidas humanas e vidas de chimpanzés. Nós, como sociedade, temos de tomar uma decisão agora sem saber exatamente em qual dessas duas situações estamos.

Todos os países que usavam chimpanzés em pesquisa médica séria vetaram a prática de uma década para cá. Os Estados Unidos podem vir a ser os últimos a fazê-lo, mas estão promovendo um debate público com os cientistas que estudam a hepatite C. Tentar isolar os americanos agora como vilões da história enquanto nos beneficiamos das vacinas de hepatite A e B -- testadas em chimpanzés no passado -- é hipocrisia.

Escrito por Rafael Garcia às 00h43

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Saindo de cima do muro

Tá, eu sei, eu sei. As pessoas querem, com razão, jornalismo isento, objetividade, nada de doutrinação quando abrem o jornal.

Entendo e respeito isso, mas tem horas que não dá para ficar em cima do muro. Como no caso dos grandes primatas usados em pesquisas biomédicas, como contamos eu e o Rafael Garcia (muito mais o Rafa do que eu, na verdade) em reportagem da última edição da Ilustríssima, nesta Folha (confira aqui, só para assinantes).

Tem também vídeo no YouTube resumindo rapidamente o debate (com o bônus de vocês poderem ver a minha cara feia, e o Rafa, bem mais gato).

Depois de ver e tocar chimpanzés com problemas mentais sérios (é, eles também os têm) depois da convivência estreita demais com humanos, acho muito, muito difícil defender a prática, ainda mais com benefícios biomédicos cada vez menores ligados a ela.

#prontofalei

Escrito por Reinaldo José Lopes às 21h59

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PERFIL

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

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