Blog de Ciência

Laboratório

 

Novas evidências para a existência do pé-grande: falso positivo?

Uma das características mais importantes da ciência é seu poder de autocorreção, ou seja, aprender com os próprios erros.

Fora os erros científicos da esfera da ética na condução da pesquisa e sua publicação, bem expostos pela Sabine, sobre os quais temos muito o que aprender, existem erros mais básicos.

Ao testar uma hipótese, por exemplo sobre a existência de um fenômeno ou processo, podem ser cometidas duas classes de erros, os ditos Erro do Tipo I e do Tipo II. 

O Erro do Tipo I é o falso positivo, o vulgo "achar pelo em ovo". (É claro que se o ovo for de ornitorrinco não se configura erro...). Dar como certo algo que não existe é um dos erros mais comuns que os seres humanos vêm cometendo desde que começamos a nos perguntar sobre as coisas.

Isso deve ocorrer porque normalmente termos critérios muito vagos para confiar numa informação. Demorou muito historicamente para aprendermos que uma rede de evidências congruente é mais confíavel do que uma revelação mágica, uma tradição milenar ou a palavra de uma autoridade, e o processo de aprendizado ainda continua. Nessa categoria entram todas as mitologias, os Ovnis e todo tipo de ficção.
 
O Erro do Tipo II é o falso negativo, o famoso "se fosse uma cobra te picava". (É claro que, se fosse uma sucuri, iria preferir o estrangulamento mesmo). Negar a existência de algo real é um erro menos comum, dado o fato de que o ser humano é facilmente enganável. Essa negação geralmente tem motivações filosóficas subjacentes, como as pessoas que ainda acreditam que o planeta Terra é plano, que o homen nunca foi à Lua, que o aquecimento global não existe ou que o cigarro não faz mal também às pessoas ao redor do fumante.

Pelo fato de termos a tendência a acreditar em tudo de modo infundado, os cientistas em geral preferem "pecar" pelo excesso de ceticismo do que acreditar em tudo, principalmente em algo novo que mude o modo de vermos o mundo.

O ganhador do Prêmio Nobel em Química desse ano sofreu bullying ligado ao erro tipo II por parte dos colegas, entre eles o famoso Linus Pauling, que o acusaram de erro tipo I. No final ele estava certo, e o recebimento foi merecido, "tardou mas não falhou".

Já os ganhadores do Prêmio Nobel em Física foram laureados em menos tempo desde a "descoberta" da energia escura do que a dos quasicristais, e com comprovação bem menos contundente. Por isso, é normal que a enxurrada de ceticismo venha.

É importante perceber que o ceticismo é crucial para separar "o joio do trigo" e por consequência permitir o progresso no entendimento científico da realidade, já que críticas sempre levam a aprimoramentos e novas descobertas. Só se torna um problema quando é exagerado e fechado às evidências. E, dada a tendência universal de acreditar em qualquer coisa, é mais saudável sempre ter um nível de ceticismo mais elevado, até para não se deixar enganar.

A mais nova tentativa de virar o jogo de acusações Tipo I para Tipo II, ou seja de ser acusado de acreditar em algo que não existe para acusar os críticos de negarem a existência de algo real, vem da Rússia. E o assunto da vez é o pé-grande, também conhecido como yeti ou abominável homem das neves.

O administrador da região de Kemerovo, no sul da Sibéria, famosa por suas minas de carvão, afirmou que uma expedição encontrou "provas indiscutíveis" da existência da criatura misteriosa. A expedição, que teve como objetivo caçar pistas do pé-grande, teve participação de pesquisadores americanos, canadenses e de outros países. Eles foram convidados pelo administrador da região russa para compartilharem suas histórias e pesquisas em uma conferência sobre o tema.

Nas montanhas de Shoria, a expedição disse ter encontrado, além de pegadas do abominável homem das neves, um suposto local de repouso e várias marcas que ele deixa para delimitar seu território.

A região, esparsamente povoada, é o centro administrativo da bacia de carvão Kuznetsk, e várias vezes tentou promover o turismo com essa busca ao pé-grande. Como nesta propaganda de estação de esqui canadense que mostra o pé-grande pronto para esquiar.

 

 

Até aí tudo bem, mas eles querem ir além, esperam criar um centro de pesquisa especial para estudar o yeti na universidade regional e ainda criar um revista especializada nesses estudos.

Novamente vemos tentativas de legimitizar a existência científica de criaturas míticas, que a meu ver não perderiam o valor se tratadas como tal, criações humanas curiosas.

O importante é sempre tentarmos manter um balanço entre a mente aberta, que é o antídoto para o erro de Tipo II, e o senso crítico, defesa contra o erro do Tipo I.

(MARCO VARELLA)

Escrito por Equipe do Laboratório às 14h32

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

SITES RELACIONADOS

RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.