Blog de Ciência

Laboratório

 

Força estranha

'Big Bang', fotografia de P.S. Huttenberg


"Quando alguns de meus colegas se deparam com um resultado estranho, costumam pensar: está errado. É verdade que a maioria das coisas bizarras em ciência acaba mesmo se provando errada, mas não é uma boa coisa fechar os olhos e os ouvidos para elas completamente. Muitas coisas interessantes hoje, em algum momento, já pareceram ser estranhas."

Ouvi esta declaração ontem, partindo de Adam Riess, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Física de 2011, quando conversava com o cientista por teleconferência junto de outros jornalistas.

Fiquei feliz por sua descoberta "estranha" _a energia escura, que impulsiona a expansão acelerada do universo_ ter sido premiada. Foi uma das poucas grandes reviravoltas científicas que ocorreram no tempo da minha geração, provavelmente a maior delas.

Muitas pessoas questionaram se não é um pouco cedo demais para premiar a descoberta de algo que ainda não se sabe o que é. A energia escura recebeu o apelido que tem justamente porque ainda não há teoria que a explique.

Na minha opinião, Riess, Brian Schmidt e Saul Perlmutter (que são astrônomos e não físicos teóricos) mais do que merecem o prêmio. Suas observações vêm se confirmando com o tempo a medida que mais dados são coletados sobre galáxias distantes, e é certo que vai sair da energia escura algo que será componente da próxima revolução da física. Por mais desconhecida que seja, essa força estranha representa 70% de tudo o que existe no cosmo.

Mas há quem prefira ser conservador. Meu amigo e colega Salvador Nogueira lembra que alguns físicos ainda temem que a energia escura possa se revelar "um artefato teórico irreal, criado apenas para explicar fenômenos pouco compreendidos".

Mesmo que isso aconteça, não será pouca coisa. Se a energia escura não existir, talvez seja preciso fazer correções na teoria da relatividade geral de Einstein, que permanece sólida há 96 anos. Isso, por si só, teria o potencial de colocar toda a física mundial de pernas para o ar. Ninguém quer ver isso, é claro.

O problema é que nenhuma das teorias candidatas a explicar o que é a energia escura tem feito muito progresso. A mais popular delas postula que essa força misteriosa seria uma entidade similar à que Einstein chamou de “constante cosmológica”. (Esta sim era um artefato imaginário, que o célebre cientista usou para evitar uma implicação natural de sua teoria: a de que o Universo está se expandindo.) Se a constante cosmológica existir de verdade, isso implica que até mesmo o vácuo _o “nada”_ possui uma energia própria, e estaria impulsionando a expansão do Universo. A ver.

Perguntei ao próprio Riess o que ele achava dessa teoria, e ele se declarou agnóstico. “Tento evitar ter uma teoria preferida”, disse. “Isso atrapalha o trabalho de fazer observações e relatar aquilo que você vê. Muitas pessoas acabam se casando com teorias, mas quando você é quem tem de coletar dados, o melhor é ter a cabeça completamente aberta.”

O astrônomo afirma que está agora trabalhando em técnicas para aprimorar as medidas sobre distâncias de supernovas, as explosões estelares que servem como "régua" para medir a distância entre galáxias. Isso pode ajudar teóricos a peneirar as melhores hipóteses vigentes para explicar a natureza da energia escura.

“Este é um problema rico e profundo que deve atrair os melhores físicos teoricos, astrofísicos e outros cientistas do mundo”, concluiu Riess. “Quem descobrir isso vai ganhar outro Nobel. Eu daria o meu próprio prêmio para quem conseguir.”

Escrito por Rafael Garcia às 22h55

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Educar para não plagiar

Estive na semana passada em um congresso sobre plágio e má conduta na ciência na UESC, em Ilhéus.

 

O evento foi bastante amplo e abordou a má conduta sobre vários aspectos – inclusive do ponto de vista da cobertura jornalística (assunto sobre o qual eu dei uma palestra).

 

Mas há algumas conclusões interessantes sobre os dois dias de discussões que gostaria de destacar aqui. A primeira, mais óbvia, é que hoje em dia está mais fácil fazer plágio devido ao acesso facilitado de informações científicas que temos na internet.

 

A segunda, aí sim mais filosófica, é que o acesso facilitado às informações científicas não justifica o aumento no número de casos de fraude científica. “Não é porque temos acesso às armas que vamos sair por aí atirando”, exemplificou a organizadora do evento Romari Martinez, da UESC.

 

De acordo com Martinez, muitos estudantes acabam se perdendo em meio a essas informações e copiam trechos sem ter noção de que estão plagiando. Essa, aliás, seria a terceira conclusão do evento: é preciso ensinar os novos pesquisadores a lidar com informações na internet.

 

Justamente por isso o título da palestra de Martinez foi “Eu não plagiei, professora, eu só copiei da internet”. Ela ouviu essa frase de uma aluna da graduação. “E eu senti pela voz dela que ela estava sendo sincera”.

 

PESO NA CONSCIÊNCIA

“Em vários momento do congresso eu me senti uma infratora. Depois me senti injustiçada porque ninguém nunca me ensinou a lidar com as informações científicas na internet”, disse uma doutoranda da UESC na conclusão do evento.

 

Assim como ela, uma plateia lotada de estudantes enchiam os palestrantes de questões. “Agora ninguém mais pode dizer que não sabia que isso é má conduta”, concluiu a doutoranda.

 

Na mesma semana passada, aqui em São Paulo, Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor-científico da Fapesp, lançou um código de boas práticas científicas dizendo que precisamos ensinar os pesquisadores e introduzir o debate sobre ética nas universidades.

 

Mais do que pensar em punições, talvez seja hora de pensarmos em educação para evitar que as punições sejam necessárias...

 

 

Escrito por Sabine Righetti às 20h29

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

SITES RELACIONADOS

RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.