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Dê preferência, veículo leve

Da mesma forma como os paulistas são obcecados por carros, os groenlandeses são apaixonados por cachorros. E não dá para imaginar o quanto antes de dar uma circulada pelas ruas de Ilulissat, a terceira maior cidade do país (população 4.500).

É virtualmente impossível andar sem esbarrar com cães de trenó, fofíssimos, ganindo no meio da neve. Os cachorros dão relativamente pouco trabalho para manter (e carne é mais barata e abundante que gasolina por aqui); ao contrário das motos de neve, não dão defeito mecânico, e mesmo que o seu trenó quebre você não precisa esperar um navio da Dinamarca com peças de reposição. Muita gente, especialmente na periferia, usa os trenós rotineiramente para circular e para pescar no pedaço do fiorde vizinho à cidade que ainda fica congelado no inverno.

O país é tão cioso de seus cães que impôs uma proibição à vinda de cachorros de fora, para evitar cruzamento com a raça local, robusta e dócil.

Em dezembro deste ano, os cães groenlandeses comemoram um de seus maiores feitos: a conquista do polo Sul, realizada por eles com a ajuda do explorador norueguês Roald Amundsen em 1911. Foi graças aos cachorros desta ilha do Ártico, e aos trenós usados pelos inuítes (e, claro, às roupas de pele inuítes também), que Amundsen bateu Robert Falcon Scott, o britânico que preferiu se vestir à europeia e usar pôneis (fala sério) para tentar chegar ao polo. Scott, sabemos, morreu, assim como os cachorros de Amundsen, sacrificados para alimentar os próprios companheiros e, depois, o grupo de exploradores.

Como várias coisas na Groenlândia, porém, os cães de trenó atravessam um momento difícil. A falta de gelo no inverno tem limitado os lugares por onde eles podem circular, e o resultado é que a cachorrada passa o dia e a noite presa, chorando (durma-se com esse barulho). “Muita gente se desfez dos cães, porque, se você só usa seu trenó um mês por ano, para que ter um?”, diz Jens Ole Thomassen, barqueiro de Ilulissat. Mais uma cachorrada do aquecimento global.

Escrito por Equipe do Laboratório às 09h04

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PERFIL

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

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