Blog de Ciência

Laboratório

 

País tropical

Difícil é correr atrás da bola

Kathrine Thomassen, uma avó inuíte de sorriso fácil que carrega uma bolsa de pele de foca a tiracolo, me olha com o mesmo fascínio antropológico que eu mesmo dirijo a ela. “Brasil?? Eu achei que você tivesse dito Brussels [Bruxelas]!” E emenda: “Meu filho se chama Pelé”.

Ela explica: seu pai, um caçador tradicional de uma comunidade em Upernavik, a noroeste de Kangerlussuaq, se chamava Pele. “Mas meu marido é fanático por futebol, então ficou a dupla homenagem.”

Há mais coisas entre o Brasil e a Groenlândia do que sonhava minha vã filosofia. A julgar pelas traves semienterradas na neve num parque bem em frente ao meu hotel, o futebol tem mesmo adeptos entre os nativos. Mas as lembranças do patropi vão além disso: funk carioca também toca a 67 graus de latitude norte. Na sexta à noite, estava eu num bar frequentado pelos cientistas, uma aurora boreal espetacular comendo solta lá fora (frio demais para ficar olhando o tempo todo), quando escuto no som do bolicho: “Morro do dendê é ruim de invadir...” Comecei a dar risada sozinho, e os americanos, que já estavam me achando louco pelo simples fato de estar aqui, não entenderam mais nada mesmo.

Mas a prova final de que tá tudo dominado por aqui veio hoje à tarde, numa conversa com um jovem groenlandês. Rikka Møller (pronuncia-se “míler”) é o gerente do Kiss (Kangerlussuaq International Science Support), uma mistura de albergue da juventude e laboratório que abriga todas as equipes de pesquisadores que usam Kanger como base. Só descobre de onde eu sou quando lhe estendo um cartão. E se desmancha: “Sou fã do Paulo Coelho. Li tudo dele”. Para provar, arregaça a manga e mostra uma tatuagem no antebraço -- um círculo dividido que, segundo ele, figura em alguma das obras do mago. “Você o conhece?” Sorrio amarelo, digo que não, mas que ele escrevia no meu jornal. Bom, pelo visto não é só o Obama...

 

Escrito por Claudio Angelo às 17h58

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A três horas do Polo Norte

“Sabe o que é difícil de achar aqui? Gelo.”

Todo mundo na mesa do almoço riu da reclamação de Kyle Krabill, pesquisador da Nasa, sobre seu drama para conseguir tomar um uísque on the rocks no alojamento. Afinal, estamos em Kangerlussuaq, Groenlândia (pronuncia-se “Kangerjussuárh”), acima do Círculo Polar Ártico, a três horas de vôo do polo Norte e a 20 quilômetros do segundo maior manto de gelo da Terra. É primavera, mas só se vê branco por todos os lados. O fiorde que dá nome a esta vila de 600 habitantes (em inuíte, Kangerlussuaq quer dizer “fiorde comprido”) está completamente congelado. Quando meu avião pousou, às 9h50 da manhã de sexta-feira, nevava e fazia 13 graus Celsius negativos. Apenas duas semanas atrás, fazia 30 abaixo de zero.

O inverno de 2011 no Ártico foi extremamente frio – anormalmente frio. E, no ano passado, a região viu seu inverno mais quente em décadas. Apesar das variações brutais de ano a ano, há pelo menos cinco décadas a Groenlândia vem esquentando, na média, mais do que qualquer outra região do planeta. A conseqüência disso é que o manto de gelo derrete, e em ritmo acelerado. Com a água que se perde a cada ano aqui, daria para afogar a Dinamarca com uma camada de água de 5 metros de altura. Ainda é pouco em termos globais, mas existe um risco de toda a capa glacial da ilha colapsar. Se isso acontecesse, o nível do mar subiria 5 metros no mundo inteiro.

Para tentar calcular esse risco – e saber exatamente qual é a parcela de culpa do aquecimento global provocado pelo homem no degelo acelerado da Groenlândia –, cientistas do mundo todo correm para cá todos os anos para fazer medições. Eu vim a Kangerlussuaq acompanhar uma dessas missões, a operação IceBridge (Ponte de Gelo). Não é todo dia, afinal, que a Nasa dá uma carona para a gente.

Os cerca de 30 cientistas que integram a operação, vindos de várias universidades e departamentos diferentes da agência espacial americana, estão usando um avião P-3 modificado para medir as variações na altura do manto de gelo e tentar dizer o quanto ele variou de um ano para o outro. Para isso, o avião carrega um conjunto de radares e um altímetro a laser, que detecta variações menores do que 1 cm na espessura do manto. Decolando de Kangerlussuaq, o grupo fará uma série de sobrevôos do interior do manto e das geleiras que deságuam no oceano, as chamadas “geleiras de descarga”. Esses rios glaciais drenam o interior do manto, e variações em sua altitude indicam o quanto a Groenlândia está perdendo de massa. O mais famoso desses glaciares, Jakobshavn, avançava 10 metros por dia em direção ao mar há 15 anos. Hoje, avança 40 metros por dia, ficando cada vez mais fino na margem.

O objetivo é ter uma série de dados precisa que permita melhorar os modelos climáticos. Isso ajudará, por exemplo, a resolver a controvérsia do quanto o nível do mar tende a subir neste século – se meio metro, como diz o IPCC em seu último relatório, ou um metro e meio, como vários cientistas vêm apostando.

É um trabalho caro, complicado e sujeito a uma série de imprevistos – do tempo notoriamente mau-humorado das regiões polares até falhas mecânicas no avião, como um problema na hélice que fez o P-3 ser despachado de volta à base da Nasa em Wallops, na Virgínia, na sexta-feira e deixou cientistas e jornalistas presos em Kangerlussuaq. A próxima “janela” de vôo só acontece na terça-feira. Será um fim de semana longo. E frio.

Escrito por Claudio Angelo às 17h52

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PERFIL

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

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