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Dito e feito

Foi só eu me manifestar que o Claudinho (meu ex-editor Claudio Angelo), nêgo macho, fez uma apaixonada defesa da energia nuclear -- e colocando a consideração climática numa posição apenas terciária. Vale a pena ler abaixo ou clicando aqui.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 11h40

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Nuclear, por que não?

A Segunda Lei da Termodinâmica é implacável, inescapável e nos ensina que energia boa é aquela que a gente não precisa usar. Pode ser que neste exato instante esteja ocorrendo um derretimento de um ou mais reatores na usina de Fukushima e em várias outras no Japão, causando um desastre muito pior do que o de Tchernobil (pelo simples fato de que mora mais gente espremida no Japão do que na Ucrânia) que matará centenas de milhares, adoecerá milhões e jogará a opinião pública mundial, se sobrar alguém vivo na Terra, contra a energia nuclear -- bem no momento em que ela ensaiava um retorno triunfal. Pode ser que o diabo não seja assim tão feio, mas que mesmo assim haja uma grita generalizada após o episódio no Japão que ponha a opção nuclear na berlinda. Se isso acontecer, o remédio pode ser quase tão desastroso quanto o veneno.

Nenhum país do mundo conhece tanto os riscos da fissão nuclear quanto o Japão. Quem levou duas bombas atômicas na cabeça e mesmo assim tem 55 reatores instalados hoje já calculou riscos e benefícios e decidiu que usinas nucleares são, sim, uma opção. Os japoneses não têm reservas abissais de carvão, como a China, nem rios caudalosos, como o Brasil, nem podem invadir um país árabe sempre que precisam garantir suprimento de petróleo, como os EUA. Eles precisam do átomo -- compacto, eficiente e não-poluente da atmosfera -- para gerar energia (30% do total nacional) e ao mesmo tempo evitar aquelas cenas de poluição por particulados em Tóquio que gente da minha idade via na abertura do "Spectroman".

Gerar energia por fissão é uma operação cara, tecnologicamente complicada e exige, como lembrou Haroldo Ceravolo no Twitter, eterna vigilância. Tudo isso são preços que o Japão e outros países que mergulharam de cabeça no átomo, como a França e a Bélgica, podem pagar. Não é, como muito luddita tem dito por aí, uma energia que deva ser banida por ser inerentemente insegura. Quem falhou em Tchernobil não foi um reator, foi a União Soviética. O Japão usa essa tecnologia há mais de 40 anos e foi preciso o quinto maior terremoto da história para causar seu primeiro acidente nuclear. Os EUA, que são beem mais esculhambados, tiveram um acidente em 1979 que fez marola em Hollywood mas, na real, não causou nenhum problema a seres humanos. A França teve zero acidente, o Reino Unido, zero acidente, a Alemanha, zero acidente, a Coreia do Sul e a Índia, idem. E mesmo Tchernobil matou menos gente do que morre-se todos os anos só na China em decorrência da mineração de carvão e da poluição causada pelas termelétricas. Imagine agora se um terremoto de magnitude 8.9 atingisse a região de Foz do Iguaçu e fizesse a barragem de Itaipu colapsar? Alguém diria que a energia hidrelétrica é inerentemente insegura? E, em termos de impactos ambientais e sociais versus energia gerada, você prefere uma Angra 3 ou uma Balbina?

E vejam que eu ainda não falei de mudança climática -- para irritar o Reinaldinho e uns ambientalistas amigos meus. Apesar de o IPCC mostrar que a energia nuclear tem um papel muito menor que as renováveis na mitigação do efeito estufa até 2030 (e é bom que seja assim, já que urânio um dia também acaba e não há o que fazer com os resíduos), é virtualmente impossível fechar a conta dos compromissos já meia-bomba assumidos no Acordo de Copenhague pelos países ricos e pela China sem ampla construção de novas usinas atômicas. A Alemanha, país não-escandinavo mais verde do mundo, se deu conta disso, tanto que meteu na geladeira seus planos de descomissionar suas usinas. Vou me calar aqui sobre o impacto disso para o futuro.

Enquanto escrevia este post, recebi do economista José Eli da Veiga, da USP, uma cópia de reportagem de John Broder no "New York Times" dando conta de que a expansão nuclear proposta por Barack Obama para garantir corte de emissões e aumento da segurança energética do país já está enfrentando resistência de democratas e republicanos no Congresso por causa do "efeito Fukushima".

O pânico, ainda que plenamente justificado, já começou a jogar fora o bebê da tecnologia nuclear junto com a água do tsunami.

Escrito por Claudio Angelo às 20h59

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Perguntar não ofende

Será que, com o pânico gerado pelas usinas nucleares arrasadas pelo tsunami japonês, alguém ainda continuará sendo ouvido quando defender a energia atômica como alternativa para diminuir a queima de combustíveis fósseis e enfrentar as mudanças climáticas?

Escrito por Reinaldo José Lopes às 18h55

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PERFIL

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

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