Blog de Ciência

Laboratório

 

Humor com método

Uma das coisas mais impressionantes da estrutura por trás do prêmio Ig Nobel, a sátira do Nobel que elege as pesquisas mais absurdas, é que cientistas tendem a fazer tudo sistematicamente mesmo quando se trata de humor. Os prêmios deste ano foram entregues agora à noite no teatro Sanders, na Universidade Harvard, e o programa da cerimônia seguiu um protocolo rígido, à sua maneira. (Veja a lista de ganhadores.)

Tinha hora certa para tudo. O público só podia atirar aviões de papel no palco nos momentos em que o anfitrião autorizava, e era preciso gritar cada vez que alguém no palco pronunciava a palavra “bactéria”, tema do espetáculo deste ano.

O evento, que está ficando cada vez mais elaborado, teve neste ano encenação de uma pequena ópera em quatro atos em que as letras das canções narravam a vida de um grupo de bactérias. Uma lâmina de vidro com micróbios foi levada ao palco em filmada ao vivo por um microscópio, assegurando sua participação no evento. A dupla de gêmeas Evelyn Evelyn, interpretada por um casal de atores, também entou uma canção sobre o tema, tocando um acordeão.

Apesar das novidades, o idealizador do prêmio, Marc Abrahams, anfitrião da cerimônia, tem mantido várias piadas fixas, que se repetem a cada ano como bordões.

Uma delas é aplicada quando o discurso de agradecimento de algum dos laureados ultrapassa a duração de um minuto. Imediatamente, uma menina de oito anos de idade que fica no palco se aproxima do orador e começa a berrar: “Paaare, por favor! Estou entediada”.

Uma das coisas mais engraçadas do evento é ver como os prêmios Nobel (sim, ganhadores do prêmio Nobel de verdade) participam da festa de forma engajada. Neste ano, os seis deles que estavam presentes vestiram chapéus com adereços bacterianos para atuar como figurantes da ópera e ajudaram a varrer o palco no final.

Neste ano, a comemoração celebrou o primeiro licenciamento comercial de um invento ganhador do Ig Nobel. Elena Bodnar, inventora do sutiã que se transforma em máscara contra gases, levou vários exemplares do produto para vender, e os sóbrios cientistas todos vestiram o adereço.

A festa acaba quando Abrahams recita mais um bordão: "Desejo boa sorte no próximo ano para vocês que não ganharam o Ig Nobel, mas sobretudo para vocês que ganharam".

(Associated Press/Charles Krupa)

Os prêmios Nobel Roy Glauber, Sheldon Glashow e James
Muller tentam vestir o sutiã-máscara na noite de ontem

Escrito por Rafael Garcia às 02h22

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Yes, nós temos Big Science

Nas últimas semanas, publicamos algumas reportagens sobre mega investimentos (ou promessas de mega investimentos) em ciência. Em Campinas, no interior de São Paulo, um acelerador de partículas vai permitir ver o interior de um ovo de dinossauro ao custo de US$ 200 milhões (Acelerador nacional de luz síncrotron será mais potente).

 

Em São Paulo, um novo reator nuclear, que deve ficar pronto no mesmo ano do acelerador (2016) custará mais ou menos o dobro: cerca de US$ 500 milhões (Brasil pode ter megarreator nuclear para fins médicos e científicos em 2016).

 

Guardadas as devidas proporções de valores, também falamos, no jornal de hoje, de um novo centro de genômica da USP de Piracicaba que deve custar entre R$ 4 e R$ 5 milhões (USP de Piracicaba vai construir centro para estudar genes - link só para assinantes).

 

O que aceleradores, reatores e genoma têm em comum? São todos exemplos de Big Science: grandes investimentos em um determinado assunto científico.

 

Desde o projeto genoma, que neste ano completa 10 anos e que teve o Brasil como um dos pioneiros, parece que o país estufou o peito, ergueu os ombros e assumiu outra postura em relação à atividade científica. Yes, nós podemos fazer Big Science. Yes, nós podemos ser pioneiros. Yes, nós podemos receber estudantes de países desenvolvidos interessados em aprender por aqui. 

 

Trago essa discussão ao blog porque alguns cientistas são contra a Big Science tupiniquim. Para eles, pesquisas caríssimas deveriam ficar por conta dos países ricos. Isso porque temos um deficit social muito grande e deveríamos investir todos os nossos esforços nisso.

 

O raciocínio faz sentido. Mas ouso dizer que fazer Big Science não impede a resolução de problemas sociais, e vice-versa. Mas só não podemos esquecer dos nossos problemas sociais.

 

Escrito por Sabine Righetti às 19h50

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Fluente em burocratês

Recebo do grande Stevens Rehen, excelente sujeito, um dos principais especialistas em células-tronco do país e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), uma convocação para participar de nova pesquisa sobre o labirinto das importações científicas no Brasil.

Não é segredo para ninguém que os responsáveis pela importação de insumos científicos no Brasil parecem ter feito pós-graduação em Bizâncio. (De brincadeira, chegamos a apelidar o programa Importa Fácil, do governo federal, de Importa Difícil, tamanha a contradição inerente ao termo.) Rehen e seu colega Mauro Rebelo, também da UFRJ, têm mapeado periodicamente o problema entrevistando pesquisadores, com dados obtidos em 2004 e 2007. (Você pode conferir os resultados anteriores clicando aqui, aqui e aqui.) Em resumo, o que se vê são meses e meses de espera, custos estapafúrdios e, com alguma frequência, perda de material devido à demora. Muita gente acaba recorrendo ao jeitinho brasileiro -- do tipo enfiar reagentes no bolso do paletó e rezar -- por pura falta de opção.

Quem estiver interessado pode responder à nova versão do questionário neste link. É claro que nós vamos acompanhar e noticiar a coisa, até para saber se há alguma melhora a respeito do tema.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 19h26

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PERFIL

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

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