Células-tronco e os cientistas que nos salvaram
Resolvi fazer minha estreia neste blog relatando um episódio interessante que aconteceu na nossa redação na última sexta-feira (30). Estávamos com a edição de sábado fechada e revisada, às 18h45, quando recebemos a informação de que a FDA americana havia aprovado a realização da primeira pesquisa clínica utilizando células-tronco embrionárias em humanos. Uau!
A notícia – quem acompanha o assunto sabe – é um importante passo no caminho dessas polêmicas pesquisas. Teríamos de falar sobre a aprovação dos testes em humanos já na edição de sábado. E não só isso: teríamos de tratar da informação na nossa página inteira da editoria de Ciência e destacá-la na capa do jornal (o que chamamos de “manchetar”). E tínhamos pouco tempo pra conseguir toda essa proeza (a edição nacional do jornal fecha no máximo às 20h30).
Rapidamente, nossa pequena equipe de ciência começou a se movimentar. Contamos com um apoio significativo dos profissionais de foto e da arte do jornal que, entendendo nossa urgência e a importância da informação, priorizaram nosso atendimento e correram junto com a gente. Sim, foi uma corrida contra o tempo.
Mas o que quero destacar neste post, caro leitor, não é a eficiência da nossa equipe e das equipes de arte e foto do jornal. Nós estávamos fazendo a nossa obrigação diária. Quero falar do quão importante foi o apoio que tivemos de três cientistas que nos atenderam em plena sexta-feira à noite pra falar com a gente sobre o assunto.
Em cerca de 20 minutos, falamos com Mayana Zatz (USP), Stevens Rehen (UFRJ) e Antonio Campos de Carvalho (Instituto Nacional de Cardiologia). Todos foram extremamente atenciosos. Os dois primeiros acabaram escrevendo, em poucos minutos, um pequeno texto de análise da aprovação dos testes em humanos para o jornal de sábado. Eles correram junto com a gente, tiraram nossas dúvidas ao telefone, ficaram de prontidão.
Escrevo isso como uma espécie de agradecimento a esses três cientistas. Não é comum nós, da imprensa, sermos atendidos assim pela comunidade científica – tanto que a relação cientistas e jornalistas é tema da minha pesquisa de doutorado sobre comunicação da ciência.
Em geral, cientistas não entendem a nossa eventual “pressa” para conseguir as informações – como no caso da última sexta-feira. E alguns não gostam de analisar fatos ou comentar pesquisas alheias e só falam com a imprensa se for para tratar de suas próprias pesquisas. E isso é um grandessíssimo problema, já que em geral precisamos de ajuda dos cientistas para entender uma série de termos científicos e técnicos para o desenvolvimento das matérias jornalísticas.
Se cientistas e jornalistas trabalhassem juntos por uma melhor divulgação da ciência, pensando que é por meio da imprensa que a sociedade tem acesso às informações científicas e cria condições de participar ativamente de discussões sobre ciência – que, no Brasil, é em grande parte realizada com dinheiro público - todo mundo sairia ganhando.
Fica aqui a minha sugestão. Ou, se preferirem, o meu pedido. (SABINE RIGHETTI)
Escrito por Equipe do Laboratório às 10h22




