O homem da cobra
Se você entrou na adolescência no começo dos anos 1990 (feito três quartos da editoria de Ciência da Folha), dificilmente deixou de ser afetado pelos solos de guitarra de Slash, ex-instrumentista do Guns N' Roses. Nem todos na faixa dos 30, porém, sabem que o roqueiro é entusiasta das serpentes, dono de vários répteis de estimação e frequentemente é fotografado junto com a bicharada (veja capa da revista especializada à esquerda).
Nessa condição, Slash não poderia deixar de sentir tocado pelo trágico incêndio de sábado no Butantan.
Em sua conta do Twitter, ele mandou bala: "Notícias realmente trágicas sobre o Instituto Butantan em São Paulo, Brasil: 85 mil serpentes mortas."
Chora não, Slash: elas JÁ estavam mortas.
Falando sério, é curioso como a tragédia passou a diminuir de importância para muitas pessoas quando se descobriu que os bichos não estavam vivos. Muita gente tem dificuldade de aceitar a lógica um pouco desapiedada das coleções biológicas, nas quais os cientistas armazenam milhares de exemplares sacrificados para o fim de servir como "tipo", ou termo de comparação para a identificação de novas espécies.
No entanto, a multidão de mortos é um sacrifício essencial. Tais mortes ocorreriam de qualquer maneira na natureza, e o único modo de conhecer e tentar preservar a variedade das formas de vida é ter como catalogá-las. Desse ponto de vista, o aparente cemitério das coleções é um tributo à vida.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 21h28




