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Suely e o plágio

Caros leitores, algum de vocês pode achar que é uma coisa óbvia, mas acho importante falar: não dá para engolir a defesa que a reitora da USP, Suely Vilela, apresenta para as acusações de plágio que pairam sobre seu grupo de pesquisa, relatadas ontem em reportagem de Eduardo Geraque.

Ao que parece, a história em que a magnífica se envolveu é um daqueles casos clássicos em que um pesquisador júnior apronta uma molecagem, copiando trechos de outros trabalhos, e os cientistas seniores coautores do estudo acusado acabam sofrendo as consequências por tabela, depois que a travessura é descoberta. Pode ser verdade, mas seria uma injustiça tão grande condenar Suely?

Qualquer cientista sabe que, em um estudo com número muito grande de autores, poucos são aqueles que escreveram mesmo algo ou atuaram efetivamente na pesquisa que originou ou trabalho. Muitos nomes entram por razões bem paroquiais e pouco “autorais”, como empréstimo de material para experimentação, cessão de dados etc.

É comum até mesmo o etéreo “empréstimo de prestígio”, quando se trata de um cientista mais conhecido. Um nome de fama no meio acadêmico abre muitas portas --sobretudo portas de revistas científicas cujos artigos são revisados por outros cientistas. E um cientista, como qualquer outro ser humano, é um animal político. Em troca de emprestar seu nome, o figurão engorda seus números de produtividade de artigos sem ter muito trabalho. Alguns cientistas acham isso errado, outros acham que faz parte do jogo. Tanto faz.

O problema é que essas particularidades do sistema de publicações científicas nunca são debatidas quando o que está em evidência é o mérito de um trabalho, e não sua desgraça. Se o plágio do referido estudo nunca tivesse sido descoberto, provavelmente o artigo serviria apenas para entrar na conta do cientista sênior, engordar os valores de suas bolsas de estudo e somar pontos em avaliações acadêmicas.

Não é possível dizer de antemão, claro, que isso é o que aconteceu no caso da reitora da USP. Abrir uma sindicância para investigar tudo foi a decisão correta. Se foi assim, porém, dá para entender por que Suely Vilela se esforçou tanto para tentar abafar outra denúncia de plágio, aquela contra o diretor do Instituto de Física, Alejandro Szanto de Toledo, episódio com algumas semelhanças. Talvez a reitora tenha tido algum tipo de empatia ao saber do caso. Talvez ela tenha pensado que para nós, pobres leigos financiadores da universidade pública, seria difícil entender que às vezes é preciso sujar um pouco as mãos para conseguir publicar um artigo.

É. Seria mesmo.

Escrito por Rafael Garcia às 16h00

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Vigarice florestal

A Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados (curiosamente, de maioria ruralista) se preparava para votar hoje o projeto de lei de autoria do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) que prevê mudanças no Código Florestal. A votação, por enquanto, foi adiada. Apelidada de "Floresta Zero" pelos ambientalistas, a peça legislativa prevê, entre outras coisas:

- Anistia total para quem tenha desmatado além do permitido entre 1996 e 2006;

- Redução da reserva legal na Amazônia de 80% para 50%;

- Possibilidade de reposição de até 30% da área desmatada com uma monocultura exótica, o dendê.

A chamada "bancada da motosserra" tem pressa. No dia 11 de dezembro expira o prazo dado pelo presidente Lula aos produtores rurais que desmataram ilegalmente (na Amazônia, virtualmente todos) para regularizarem suas propriedades antes de começarem a ser multados. Pelo Código Florestal, uma lei de 1965 alterada por Medida Provisória em 2001, os proprietários são obrigados a preservar do corte raso (é permitida a exploração de madeira) 80% da área de suas propriedades na Amazônia. O setor rural nunca cumpriu a lei, esperando que a MP fosse ser derrubada um dia.

Os parlamentares ruralistas armam a machadada no momento em que é articulado dentro do governo um acordo para ampliar o prazo da regularização sem jogar fora a reserva legal. O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) considera a parada "70% resolvida", mas aparentemente se esqueceu de combinar com os russos no Congresso e no Ministério da Agricultura.

Tão grande é a confiança de Minc de que sua visão prevalecerá que não fez força para barrar o Floresta Zero na Câmara até agora. Na semana passada, enquanto manifestantes do Greenpeace esticavam correntes e tocavam sirenes na votação do projeto, que acabou adiada, assessores de Minc flanavam pela sala da comissão. Mal comparando, em seu tempo de ministra, Marina Silva evitou que a arapuca tucana do Senado passasse na Câmara. 

Desastre ambiental à parte, a aprovação do Floresta Zero vai pegar mal para chuchu para Lula e suas ambições de expor sua candidata Dilma Rousseff no cenário internacional - e logo no campo que Dilma mais abomina, o meio ambiente, mas isso é outra história. Afinal, o governo já decidiu que a redução do desmatamento na Amazônia em 80% até 2020 será a maior e quiçá única bandeira que o país defenderá na conferência do clima de Copenhague, em dezembro. Lula escolheu Dilma para chefiar a delegação brasileira, transformando Copenhague numa espécie de prévia além-mar da eleição. E a überministra vai ter de rebolar para explicar aos gringos como é que o país diz no exterior que pretende reduzir o desmatamento quando aqui dentro deixa o correntão e a motosserra comerem soltos.

É bom ela ter uma explicação na ponta da língua, porque Marina, cuja imagem o governo tem se esforçado tanto para desconstruir nos últimos meses, estará na capital dinamarquesa pronta para denunciar a contradição.

Escrito por Claudio Angelo às 09h15

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Governo adia, de novo, anúncio de meta de emissões

Por falta de consenso, o governo adiou para dia 14 (um sábado) o anúncio da meta brasileira de redução de emissões de gases-estufa. Twitteiros que estão na reunião do clima de Barcelona classificam a flopada de Dilma Rousseff como um "balde de água fria". Um anúncio brasileiro teria tido o poder de criar momento político na negociação em Barcelona, que começou a fazer água já hoje (veja post abaixo).

Mas aparentemente Nosso Guia e seus rapazes brilhantes do quartinho dos fundos, para usar uma expressão de Dr. Seuss (um escritor de histórias absurdas, portanto, referência adequada a esta situação) têm razões muito boas para manter as cartas brasileiras junto ao peito até Flopenhague, digo, Copenhague. O problema vai ser alguém pagar para ver e a meta ser um blefe.

Veja comunicado à imprensa que o Greenpeace acaba de soltar sobre o incidente em Brasília.

Brasília, 3 de novembro de 2009 - A decisão do governo brasileiro de adiar para o dia 14/11 o anúncio da posição e das metas de redução de emissões que o país levará para a Conferência do Clima, em Copenhague, é um passo para trás. O país, há menos de dois meses da reunião na Dinamarca, dá um sinal de falta de transparência diplomática, impedindo que os brasileiros e o resto do mundo tomem conhecimento de sua posição, e perde uma oportunidade importante de voltar a ser uma peça-chave nas negociações internacionais. Passa ainda uma sensação de bagunça e insegurança, como se só agora, em cima do laço, seus burocratas estivessem começando a planejar a resposta brasileira à crise climática.

Declarações do ministro Celso Amorim ao fim da reunião de hoje reforçam essas impressões. Amorim disse que o Brasil vai separar as questões nacionais das internacionais. É uma indicação de que o país pode chegar a Copenhague sem qualquer intenção de se comprometer com metas internacionais e apresentando metas nacionais que o governo não sabe como cumprir e, por isso mesmo, prefere não ver ninguém cobrando.

Escrito por Claudio Angelo às 15h59

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Países africanos boicotam reunião da ONU sobre clima

Países do Grupo da África armaram um bloqueio coletivo das negociações sobre mudança climática em Barcelona hoje. Todas as reuniões sobre o Protocolo de Kyoto estão suspensas. O bicho está pegando.

Os africanos, com toda razão, dizem que não continuarão discutindo enquanto os países ricos (o chamado Anexo 1) não apresentarem metas de corte de emissões realmente ambiciosas, da ordem de 40% (estão em mais ou menos 16% hoje, com muita boa fé). Mais uma vez, o empata do jogo são os Estados Unidos, que se recusam a botar números na mesa, esperando o Congresso aprovar uma lei de mudanças climáticas que ninguém acha que sai antes da conferência de Copenhague.

A ver como a parada se desenrola.

Escrito por Claudio Angelo às 12h33

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A Sombra e a Escuridão

"Trabalho de detetive" é um qualificativo usado até demais para definir pesquisas científicas, mas esta aqui merece. Uma equipe coordenada por dois biólogos da Universidade da Califórnia em Santa Cruz obteve novas e intrigantes pistas sobre os leões antropófagos de Tsavo, dupla de felinos que tocou o terror no Quênia em 1898 e inspirou o filme que deu nome a este post. Eles conseguiram estimar a proporção de carne de gente na dieta dos bichos durante seus últimos meses de vida.

Mais do que isso: o grupo de Justin Yeakel e Nathaniel Dominy conseguiu mostrar que o menu preferido pelos gatinhos foi mudando, provavelmente porque adotar humanos como prato principal foi uma medida de desespero. É que a região de Tsavo tinha passado por alterações ecológicas profundas no fim do século 19, com a redução da área de pastagens (onde viviam os herbívoros que os leões costumavam comer), epidemias que dizimaram o gado selvagem e doméstico e a chegada maciça de trabalhadores para a construção de uma ferrovia no local.

Pior ainda, a dupla de leões, conforme revela a análise de seus esqueletos, tinham dentes importantes quebrados, e um deles ainda sofria de um sério caso de "mordida errada". Aqui, sem trocadilho, vem o pulo-do-gato: o carbono e o nitrogênio da dieta são incorporados em ritmos diferentes no corpo. Os ossos guardam um registro da alimentação na escala de anos, enquanto o pelo é "feito" pela comida consumida em poucos meses.

Daí a possibilidade de perceber que, enquanto no começo da vida os bichos comiam herbívoros como antílopes, graças a seus ferimentos eles passaram a preferir bife de gente, a julgar pelas diferentes proporções de variantes de carbono e nitrogênio na dieta dos leões. A equipe arrisca até um número de pessoas devoradas: 35, bem menos do que a estimativa de 135 vítimas feita pelo matador dos leões, coronel J. H. Patterson.

O trabalho sairá na revista científica "PNAS".

Escrito por Reinaldo José Lopes às 16h22

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PERFIL

Claudio Angelo Claudio Angelo, 33, é editor de Ciência da Folha. Jornalista formado pela Universidade de São Paulo, cobre ciência e ambiente desde 1998. É autor de "O Aquecimento Global" (Coleção Folha Explica, Publifolha, 2008).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 34, é repórter de Ciência da Folha. Jornalista formado pela Universidade de São Paulo, cobre ciência desde o ano 2000. Foi repórter da revista "Galileu" e editor-assistente da "Scientific American Brasil".

Eduardo Augusto Geraque Eduardo Augusto Geraque, 36, é jornalista e biólogo. Repórter de Ciência da Folha, é mestre em oceanografia e fez doutorado em jornalismo e ambiente pelo Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo, onde estudou a poluição do ar de São Paulo e do México.

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 30, é repórter de Ciência da Folha, onde começou a cobrir o tema em 2001. É formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa na mesma universidade. Foi editor-assistente da revista "Scientific American Brasil" e repórter e colunista do portal "G1".

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