Laboratório
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Para o alto e avante

Nasa/Associated Press

O alívio na redação foi unânime quando vimos a bela foto acima: meuDeusdocéu, não é um ônibus espacial sendo preparado para lançamento pela primeira vez desde quando? O Cambriano?

O bichinho em questão é o foguete Ares I-X, que vai ser testado pela primeira vez nesta terça, dia 27, a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. O objetivo é prepará-lo para carregar as naves Orion, do programa Constellation, que deve substituir os ônibus espaciais e, quem sabe, carregar a humanidade de volta à Lua.

Com dinheiro curto e outras preocupações aqui na Terra, o caminho vai ser tortuoso. Seja como for, vai aqui nosso Godspeed para o Ares.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 18h13

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A importância de ser daltônico

ResearchBlogging.orgQuem acompanha o Laboratório talvez se lembre de que a editoria de Ciência desta Folha foi invadida por um repórter daltônico, o glorioso Ricardo Mioto. Pois uma nova pesquisa acaba de mostrar como a seleção natural poderia favorecer o estilo Mioto de visão: no escuro, pode ser uma boa não enxergar algumas cores quando você está procurando comida.

O simpático resultado foi obtido com saguis da espécie Callithrix geoffroyi. Assim como a maioria das espécies de macacos do Novo Mundo, esses bichos possuem uma variação interessante de dicromatas (mais ou menos equivalentes aos nossos daltônicos) e tricromatas (com visão equivalente à dos humanos normais) na população. A distinção é de origem genética e não some via seleção natural, o que fez os pesquisadores imaginarem que alguma vantagem os daltônicos da população têm -- só não se sabe qual é. (A vantagem dos tricromatas é mais clara: enxergar a faixa vermelha do espectro luminoso, o que ajuda na hora de achar frutinhas na mata.)

Pra resolver o dilema, a equipe liderada por Nicholas Mundy, da Universidade de Cambridge, bolou o experimento em que saguis "daltônicos" e "normais" tinham de procurar comida em condições variadas, com diferentes intensidades de luz. Bingo: os saguis dicromatas se deram melhor que os demais quando a comida estava em locais mais escuros (condição que, imagino, imita bem o dossel espesso da mata).

Não dá para dizer com certeza que vantagem os macaquinhos daltônicos ganham para chegar a esse resultado, mas uma possibilidade é que eles conseguem prestar mais atenção em padrões visuais que não dependem de cores do que seus companheiros tricromatas. De qualquer maneira, o intrépido Mioto já pode se sentir vingado.

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Caine NG, Osorio D, & Mundy NI (2009). A foraging advantage for dichromatic marmosets (Callithrix geoffroyi) at low light intensity. Biology letters PMID: 19740895

Escrito por Reinaldo José Lopes às 19h24

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Elementar, meu caro Mainardi

Diogo Mainardi, em sua coluna no site da revista "Veja", proclama: "O planeta que se dane", argumentando como o aquecimento global virou o "Gulag" de um novo stalinismo, a saber, o movimento ambientalista. Mainardi está no seu direito ao mandar a Terra para onde bem entender, mas podia ao menos usar um argumento melhorzinho. Diz o colunista: "O aquecimento global nem existe. O pico do calor foi em 1998. De lá para cá, a Terra está esfriando. E deve permanecer assim por mais duas décadas".

Esse argumento é uma linha já clássica dos chamados "céticos" do clima para negar o aquecimento global. Mainardi pode ser perdoado por embarcar nessa, er... fria, porque o assunto é mesmo complexo e pessoas sem contato com a ciência climática se confundem facilmente com um monte de dados e gráficos jogados impiedosamente sobre o público leigo e colunistas incautos exatamente com essa intenção - a de confundir. Portanto, aos esclarecimentos.

Para começar, existe uma coisa chamada variabilidade natural do clima. Nos 11 anos entre 1998 e hoje, no qual o esperado, se tudo o mais se mantivesse igual, seria um aumento de 0,2 grau Celsius na temperatura média do planeta, o clima poderia muito bem não ter ficado mais quente, ou mesmo esfriado um pouquinho, devido a fatores naturais que compensam a tendência do aquecimento global antropogênico (gerado pelo homem).

Nessa brincadeira, JÁ HOUVE períodos de oscilação para mais frio (o período 1987-1996 é um desses casos). No entanto, a presença crescente de gases-estufa na atmosfera faz com que, no longo prazo, essa variabilidade não seja suficiente para contrabalançar a tendência de alta. Ou seja, olhar a série de dados de 1998 para cá não informa absolutamente nada sobre tendências de longo prazo. E é de longo prazo que nós estamos falando aqui.

Finalmente, não dá nem para ter certeza de que os 11 anos pós-1998 correspondem mesmo a uma caída no aquecimento global. A desaceleração aparece nos dados do britânico Centro Hadley, mas não nos do Instituto Goddard, da Nasa. Segundo este último conjunto de dados, o aquecimento na última década foi de 0,19 grau Celsius -- justamente o esperado. Aqui é preciso reconhecer que há discordância entre os cientistas - o que não quer dizer que o aquecimento global não exista, veja bem, apenas que há dúvidas sinceras sobre os dados. Faz parte da ciência. Um grupo de climatologistas, os blogueiros do excelente Real Climate (www.realclimate.org), fizeram até uma aposta de que os próximos anos serão mais quentes e não mais frios.

Isso sem falar que 1998, ano de El Niño intenso, foi o mais quente desde que as medições com termômetros começaram, nos anos 1850. Quando se atinge um patamar tão elevado de temperatura, o desvio esperado tende a ser ladeira abaixo, e foi o que aconteceu.

Além disso, climatologistas não são jornalistas; eles tendem a olhar não apenas um indicador, mas um conjunto de evidências. Aqui, mais uma vez, a balança pende para o lado do aquecimento: nos últimos anos, vários recordes climatológicos foram quebrados, como a diminuição recorde do gelo marinho no Ártico em 2007 e o fato de que todos os anos deste  século recém-começado foram mais quentes do que QUALQUER ano do século 20, com exceção de 1998.

Mainardi, portanto, faz muito bem em continuar andando de bicicleta.
 
PS: O repórter Reinaldo José Lopes anda de ônibus.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 19h56

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PERFIL

Claudio Angelo Claudio Angelo, 33, é editor de Ciência da Folha. Jornalista formado pela Universidade de São Paulo, cobre ciência e ambiente desde 1998. É autor de "O Aquecimento Global" (Coleção Folha Explica, Publifolha, 2008).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 34, é repórter de Ciência da Folha. Jornalista formado pela Universidade de São Paulo, cobre ciência desde o ano 2000. Foi repórter da revista "Galileu" e editor-assistente da "Scientific American Brasil".

Eduardo Augusto Geraque Eduardo Augusto Geraque, 36, é jornalista e biólogo. Repórter de Ciência da Folha, é mestre em oceanografia e fez doutorado em jornalismo e ambiente pelo Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo, onde estudou a poluição do ar de São Paulo e do México.

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 30, é repórter de Ciência da Folha, onde começou a cobrir o tema em 2001. É formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa na mesma universidade. Foi editor-assistente da revista "Scientific American Brasil" e repórter e colunista do portal "G1".

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