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Um crime delicado

Sabadão, ressaca jornalística pós-reunião do clima. É dia de ir embora de Bancoc, mas, antes, resolvo comer uma coisa que jurei comer há dois anos se voltasse à Tailândia. Não, não é nada do que vocês estão pensando. Trata-se de sopa de barbatana.

Embora barbatana de tubarão não seja exatamente a estrela da gastronomia tailandesa, o país tem uma influência chinesa forte. Em Bancoc há vários restaurantes especializados em pratos com barbatana de tubarão, voltados ao público chinês. Um deles, o Scala Shark Fins (com essa fachada nada sutil da foto acima), fica na Siam Square, coração de Bancoc, do lado do meu hotel. A curiosidade venceu a ética e eu entrei.

É embaraçoso, para um jornalista que cobre temas ambientais, cair de ohashi numa sopa de barbatana. Afinal, o apetite chinês por essa iguaria é um dos maiores responsáveis pelo declínio das populações de tubarão no mundo todo. É o mercado chinês de sopas de barbatana e barbatana grelhada que alimenta a prática do "finning", provavelmente o tipo mais desprezível de pesca comercial, que consiste em capturar o bicho, arrancar-lhe as barbatanas e jogar a carcaça ao mar, sem nem aproveitar a carne.

As espécies favoritas dos caçadores de barbatanas (e dos restaurantes chineses) são o tubarão-azul e o tubarão-martelo, animais pelágicos e notoriamente difíceis de proteger, tanto por seu hábito de migrar através dos oceanos (caso do azul) quanto por sua fama de comedores de gente (os martelos). Entre 1990 e 2003, segundo a organização Shark Alliance, a captura de tubarões-azuis cresceu 50%. Uma reportagem de Eduardo Geraque nesta Folha no ano passado dá conta de que 2 milhões de azuis são capturados por ano no Atlântico Sul. O quilo da barbatana no Brasil chega a R$ 100 no porto. Nos mercados de Taiwan e Hong Kong (o principal entreposto de barbatanas do mundo), um par de barbatanas chega a US$ 700. Nos restaurantes de Bancoc, uma tigela como esta abaixo de sopa de barbatana chega a US$ 30.

 As duas espécies que mencionei acima são as mais visadas, mas neste negócio o proverbial "o que cair na rede é peixe" não poderia se aplicar com mais propriedade. Não há espécie de tubarão a salvo do "finning", até porque a prática não é regulamentada quase em lugar nenhum. As barbatanas dessa sopa que eu criminosamente degustei em Bancoc certamente eram de um bicho muito menor que um tubarão-azul (havia pratos de US$ 100 no cardápio, que eu suponho que viessem de tubarões maiores).

Mas, afinal, qualé a da sopa? Pelo menos vale a pena, gastronomicamente?

Lamento reportar que sim. A barbatana, em si, não tem muita graça - tem um gosto forte de peixe (não diga!) e consistência de fios de gelatina, que é o que ela é (cartilagem). Mas ela acaba ornando muito bem com o resto do prato, uma sopa escura e grossa com molho de soja, broto de feijão, coentro, cebolinha e carne de caranguejo. Confesso que engoli os primeiros bocados com bons goles de Singha, uma espécie de Skol tailandesa. Mas não sou um grande apreciador de frutos do mar. Fãs de pescado e de comida asiática devem amar a iguaria. E amam mesmo, para azar dos tubarões.

Como não é muito sábio remover grandes predadores de qualquer cadeia alimentar, ainda mais a oceânica, sob risco de desequilíbrios incalculáveis, a matança de tubarões precisa de regulações fortes. E o "finning" precisa ser banido, nem que para isso os chineses precisem pagar um bocado mais por sua sopa.

PS: Acabo de ler em agências de notícia que os EUA e a UE propuseram que oito espécies de tubarão, incluindo três de tubarão-martelo, sejam incluídas no Apêndice 2 da Cites, a convenção internacional sobre comércio de espécies ameaçadas. O Apêndice 2, onde está hoje o mogno, é a listagem mais rigorosa da Cites, e prevê uma série de medidas de controle sobre exportação.

Escrito por Claudio Angelo às 13h58

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Procura-se: líder global

Presidente Lula,

O senhor é mesmo "o cara".

É o presidente mais popular da história deste país. Promoveu crescimento econômico com distribuição de renda, alçando 20 milhões de brasileiros à classe média. Achou petróleo. Fez o Brasil sair rapidinho da crise econômica, levou uma Copa do Mundo e acaba de tirar os Jogos Olímpicos da bela e estruturada Chicago bem na cara de Barack Obama. O que mais alguém pode querer no currículo? Bom, se me desculpa a ousadia, eu tenho uma pequena sugestão: salvar o planeta.

Os instrumentos para isso lhe foram dados ontem pelo ministro Carlos Minc e por sua equipe técnica. Eles elaboraram cenários de redução de emissões do Brasil que podem constituir, se forem executados, desvios significativos da nossa trajetória de gases de efeito estufa. Assumindo um crescimento econômico de 4% ao ano, podemos chegar a 2020 com até 40% de corte de emissões - o equivalente às nossas emissões de 1990. A bem da verdade, presidente, isso é pouco, já que em 1990 nós emitíamos mais de 1 bilhão de toneladas de CO2 por ano. Mas são números consistentes, produzidos com sofisticação. Teriam um efeito enorme sobre a negociação do novo tratado de proteção ao clima, a ser fechado em dezembro em Copenhague.

Minha sugestão é que o sr. pegue os cenários de Minc, amplie-os para diferentes taxas de crescimento (como pediu ontem a ministra Dilma) e para diferentes setores da economia e convoque uma grande entrevista coletiva para apresentá-los, ANTES da reunião de Copenhague. Por exemplo, em Barcelona no mês que vem, quando ocorre a última rodada de negociação pré-conferência do clima. Se quiser fazer mesmo um estardalhaço, apresente os números em Brasília o sr. mesmo e faça seus negociadores apresentarem-no simultaneamente na Espanha.

Eu sei que o pessoal do Itamaraty vai dizer que isso é uma burrice tática. Que estamos numa negociação, e numa negociação, como num jogo de pôquer, as pessoas seguram as cartas junto ao peito até o último minuto. Mas, com todo respeito, presidente, não está mais na hora de jogarmos pôquer. Ou bem o Brasil assume que o aquecimento global é um problema de negociação internacional como qualquer outro, ou bem assume que se trata de uma emergência planetária sem precedentes. Na segunda hipótese, é preciso agir politicamente.

E ação política, presidente, tem faltado nesta seara.

Eu acabo de chegar de Bancoc, onde passei uma semana acompanhando as negociações do acordo de Copenhague. E Bancoc, presidente, foi um desastre. Prevaleceu ali o interesse nacional mais tacanho, e em vez de avançar, a negociação retrocedeu, com os países ricos ameaçando implodirem o Protocolo de Kyoto e o pobres ameaçando abandonarem a mesa. Nem parecia que os diplomatas sentados ali pertenciam aos mesmos governos que na semana anterior, na ONU, prometeram ação e liderança para resolver o problema. A julgar pelos resultados de Bancoc, a capital da Dinamarca teria de mudar seu nome de Copenhague para Flopenhague. A Noruega bem que tentou salvar o dia apresentando sua meta de 40% de corte até 2020 em relação a 1990. Mas a Noruega, como o sr. sabe, tem 5 milhões de habitantes. Não é, assim, um Brasil. O Brasil, sim, é um Brasil.

E como o Brasil se portou em Bancoc? Lamento reportar que timidamente. Há que se reconhecer, por um lado, que o Itamaraty não obstrui mais o progresso das conversas, como fazia três, quatro anos atrás. Por isso, ouvi elogios à delegação brasileira de partes insuspeitas como Papua-Nova Guiné, até dia desses às turras com os nossos negociadores.

Por outro lado, presidente, o país parece abdicar a liderança que seu tamanho naturalmente lhe daria. Deixou para a África do Sul os louros da apresentação de uma proposta construtiva sobre as Namas (sigla que designa as ações dos países em desenvolvimento). E nem sequer foi a público denunciar a ameaça a Kyoto - deixou esse papel para a China, que já havia assumido a liderança do mundo em desenvolvimento em setembro na ONU, quando apresentou suas propostas (um tanto vagas) de redução de emissões. 

Por isso a reunião de Barcelona é oportunidade ideal para o país botar uma proposta ousada na mesa. Fazendo isso, o Brasil poderia ajudar a curar a ferida política aberta em Bancoc e, ao mesmo tempo, fornecer o momento necessário ao processo de Copenhague.

Os números que o sr. tem na mão são um excelente ponto de partida. Eles levam em conta o que a ciência tem de mais recente em termos de contabilidade global de emissões, o chamado "budget" ou "cota" de carbono, que estima a quantidade de CO2 que o mundo ainda pode emitir de modo a ficar abaixo dos 2 graus Celsius de aquecimento (aliás, aqui está um exemplo excelente de como o Itamaraty pode fazer amigos e influenciar pessoas quando quer: de início, a chancelaria brasileira se opunha a essa meta, mas quando ela passou a fazer parte da instrução, seus competentes negociadores convenceram China e Índia a adotá-la) e distribui essa cota entre os países.

O Brasil pode e deve condicionar um aprofundamento de sua meta de corte ao maior aporte de recursos por parte das nações desenvolvidas (até para destravar o debate sobre financiamento, já que os países ricos resolveram esconder o dinheiro que disseram que dariam para combater o aquecimento global nos países pobres). Mas precisa apresentar os futuros possíveis e uma meta incondicional em primeiro lugar. É essa a sinalização política de que o processo precisa.

Por fim, presidente, sei que alguns de seus assessores lhe dirão que tudo isso são demandas de uma "mídia colonizada" ou alguma abobrinha conspitatória do tipo. Releve. Quando nada, por uma razão muito prática: Marina Silva, a quem se pode atribuir grande parte do protagonismo brasileiro na questão do clima, acha esse assunto importante. E ela, a uma altura dessas, já deve estar com passagem comprada e hotel reservado em Copenhague.

Escrito por Claudio Angelo às 06h59

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Hare baba

Agora que a novela "Caminho das Índias" parou de empeste... digo, abrilhantar as telas da TV brasileira, até que dá menos urticária tratar de temas indianos. Um deles tem estatura épica: nada menos que a origem da gigantesca população que hoje habita o subcontinente indiano.

Em artigo recente na revista científica britânica "Nature", a equipe capitaneada por David Reich, da Escola Médica de Harvard (EUA), usou amostras de DNA de 25 diferentes populações da Índia para tentar um retrato genético dessa história. E o resultado parece dar apoio à ideia, postulada há mais de um século por filólogos, de que em algum momento do fim da Idade do Bronze (por volta de 1200 a.C.) a região foi invadida e, em grande parte, conquistada por tribos guerreiras que falavam um idioma indo-europeu.

O tronco linguístico indo-europeu, pra quem não sabe, inclui línguas tão diferentes quanto o latim, o grego, o inglês, o sânscrito -- e os descendentes deste último na Índia moderna. Os pesquisadores verificaram que quase todos os indianos são representados por misturas de dois grandes componentes, que eles batizaram de "indianos ancestrais do norte" (ANI, pra encurtar) e "indianos ancestrais do sul" (ASI). A proporção de ANI varia de 71% a 39% na maioria das populações indianas, e é bem mais alta, adivinhe só, em grupos que falam línguas indo-europeias e pertencem a castas mais elevadas.

Já os ASI provavelmente descendem de gente que está no subcontinente desde a primeira expansão dos seres humanos para fora da África, lá se vão 60 mil anos.

As divisões étnicas e sociais da Índia atual, portanto, parecem espelhar, ao menos em parte, a divisão entre conquistadores e conquistados há mais de 3.000 anos. É a mão pesadíssima da pré-história.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 23h08

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PERFIL

Claudio Angelo Claudio Angelo, 33, é editor de Ciência da Folha. Jornalista formado pela Universidade de São Paulo, cobre ciência e ambiente desde 1998. É autor de "O Aquecimento Global" (Coleção Folha Explica, Publifolha, 2008).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 34, é repórter de Ciência da Folha. Jornalista formado pela Universidade de São Paulo, cobre ciência desde o ano 2000. Foi repórter da revista "Galileu" e editor-assistente da "Scientific American Brasil".

Eduardo Augusto Geraque Eduardo Augusto Geraque, 36, é jornalista e biólogo. Repórter de Ciência da Folha, é mestre em oceanografia e fez doutorado em jornalismo e ambiente pelo Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo, onde estudou a poluição do ar de São Paulo e do México.

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 30, é repórter de Ciência da Folha, onde começou a cobrir o tema em 2001. É formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa na mesma universidade. Foi editor-assistente da revista "Scientific American Brasil" e repórter e colunista do portal "G1".

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