O que não tem preço para você?
Passagem para a Tailândia: US$ 2.500
Diária de hotel: 7.000 bahts
Táxi para o prédio da ONU: 200 bahts
Encontrar no corredor um dos principais negociadores de clima de George W. Bush, perguntar-lhe o que ele achou do Nobel para Barack Obama e ouvir como resposta um: "Sem comentários": não tem preço.
Escrito por Claudio Angelo às 07h40
Adote um negociador
Uma das poucas boas novidades da reunião do clima de Bancoc foram os carrapatos.
"Carrapato" é o jargão jornalístico para repórter que "gruda" em uma pessoa, geralmente um político em campanha. Aqui em Bancoc, um grupo de jovens e entusiasmados (com o perdão da redundância) ambientalistas resolveu bancar o carrapato -- e grudar nos diplomatas que negociam o acordo do clima. Eles fazem parte da campanha Adopt a Negotiator (Adote Um Negociador), e ficam a reunião inteira seguindo os chefes de delegação de seus respectivos países - entre outras coisas, para não deixá-los sair da linha.
Os meninos mantêm blogs onde relatam as sessões e o progresso (ou falta dele) da negociação de clima. Eles estão em ação, na verdade, desde a reunião anterior, a rodada informal de Bonn, em agosto, e devem permanecer grudados nos diplomatas de seus países até Flopenha..., digo, Copenhague.
A "tracker" brasileira é a Juliana Russar, que com uma paciência zen-budista acompanhou as conversas em Bancoc desde o começo, em 28 de setembro. A indiana é Leela Raina, que neste post dá às mocinhas dez motivos hilários para não namorar um cara do Anexo 1. O texto está em inglês, mas dois dos motivos principais são: ele nunca quer COMPROMISSO, nem está disposto a FINANCIAR os jantares.
Escrito por Claudio Angelo às 23h37
Cuspindo com estilo
Muitos répteis são capazes de levar até o cabra mais macho a fazer xixi nas calças, mas seguramente as najas-cuspideiras estão entre os piores. E, para tornar esse terror ainda mais justificado, adicione uma pitada de precisão: os bichos são capazes de usar uma sintonia fina na hora de direcionar seu spray de veneno.
Spray de veneno? Sim, pois, como o nome popular indica, as najas-cuspideiras, além de perfeitamente capazes de inocular sua peçonha mordendo as vítimas, também escarram as substâncias tóxicas em seus inimigos quando se sentem ameaçadas.
"Movimentos circulares da cabeça garantem que o veneno fique distribuído pelo rosto do agressor", escrevem Ruben Andrés Berthé e seus colegas da Universidade de Bonn, na Alemanha, em artigo na revista científica "Journal of Comparative Physiology A".
Mas Berthé e companhia queriam mais detalhes (gulp!). E, corajosos, induziram najas-cuspideiras de duas espécies diferentes, criadas em cativeiro, a cuspirem na própria cara deles -- devidamente protegida por óculos especiais.
Os pesquisadores também usaram telas de plástico, e filmaram o comportamento, para determinar exatamente como a cuspida dos bichos acontece. E verificaram que a duração do movimento de cabeça é precisamente calculada de acordo com o tamanho do alvo, de forma a maximizar a quantidade de veneno e a chance de atingir os olhos da vítima. Dumal.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 19h59
Abriram a porteira
O acordo do governo brasileiro com o Vaticano foi aprovado ontem, e vem aí a Lei Geral das Religiões, que abrirá caminho para interesses dos evangélicos começarem a infiltrar o Estado.
Sob uma argumentação pífia de que esse marco legislativo visa garantir liberdade religiosa aos fiéis dessas duas igrejas (a Constituição já garante isso), deputados e senadores do lobby eclesiástico tentam instituir um ensino religioso supostamente "facultativo" em escolas públicas.
Me parece difícil, porém, acreditar que adolescentes e crianças de pré-primário realmente poderão optar pelo laicismo diante de professores e pedagogos que quiserem impor o ensino confessional localmente. E também não está claro se os contribuintes não-cristãos poderão optar por não bancar os "professores" de religião nas escolas públicas. Não vou ficar surpreso se, dentro de alguns anos, os criacionistas conseguirem finalmente contrabandear o design inteligente para dentro da sala de aula, equiparando-o à biologia com status de ciência.
A sociedade civil laica pode até tentar se organizar para barrar isso, inclusive usando seu poder de voto, mas em ano de eleição vai ser difícil deter a influência que Deus exerce sobre as urnas.
Escrito por Rafael Garcia às 09h47
Pelo planeta? Não, eles querem é trabalho

O trânsito já impraticável de Bancoc estava ainda pior ontem de manhã nas imediações do Unescap, o centro da ONU para a Ásia e o Pacífico, onde acontece a reunião da Convenção do Clima. Barreiras policiais cercavam a praça em frente ao centro de convenções. Barulho de tambores na avvenida ao lado. Manifestação, é claro.
Desci do táxi com a câmera na mão, esperando encontrar mais um protesto na linha do "salve o planeta, é agora ou agora" ou qualquer coisa do gênero. Mas aquela manifestação estava cheia demais para ser coisa de ambientalista, ainda mais num dia de chuva (aqui chove quase todo dia). E de fato não era. Num carro de som, alguém discursava em tailandês, com tradução quase simultânea para o inglês. Depois, em meio a slogans gritados em várias línguas, ouço distintamente um "a luta continua!", em português mesmo. Não era o Greenpeace; era a CUT.
Mais precisamente, a Campanha Trabalhista Tailandesa, uma espécie de CUT local. A manifestação em frente ao prédio das Nações Unidas era para exigir que o governo tailandês ratificasse as convenções ILO 97 e 98, que preveem o direito de livre associação para os trabalhadores.
"Na Tailândia somos 25 milhões de trabalhadores, e menos de 500 mil são membros de sindicatos", explica Junya Yimpraset, uma das coordenadoras da manifestação. Ela diz que a lei tailandesa tem um caráter anti-sindicato, que obriga trabalhadores sindicalizados a se registrarem de forma que fica fácil para os patrões demitir os sindicalizados. Não garantias para os sindicalizados, como há no Brasil (não pude deixar de imaginar qual não seria a popularidade do presidente Lula entre os trabalhadores tailandeses). As convenções internacionais tornariam possível a associação. E é claro que o governo local não quer saber disso: a Tailândia, como a China, é uma das fábricas do planeta, graças em grande parte à sua mão-de-obra barata.
Perguntei a Yimpraset qual era a opinião daquele pessoal sobre a mudança do clima. Ela apontou para um grupo de trabalhadores de uma indústria automotiva bem na nossa frente.
"Aquelas pessoas ali perderam o emprego. Foram 2.000 demitidos na fábrica com a crise. Esse pessoal não tem tempo de estudar essas coisas. A luta deles é pela própria sobrevivência."
Saí do protesto e voltei ao ar-condicionado do centro de convenções com a certeza de que as duas mil pessoas lá dentro que discutem como será o mundo em 2100 são muito previdentes - ou muito estúpidas.
Escrito por Claudio Angelo às 23h23
O colapso do Protocolo de Kyoto
O que começou aqui na segunda-feira retrasada como um sussurro virou um grito nesta semana: o Protocolo de Kyoto vai acabar. Seu funeral está marcado para a semana de 7 de dezembro, na Dinamarca. Como diria Caymmi, é doce morrer na Dinamarca.
Negociadores dos países ricos reunidos aqui em Bancoc para tentar produzir o texto do novo acordo do clima vocalizaram ontem de maneira muito explícita o desejo da morte de Kyoto. O "Earth Negotiationa Bulletin", uma newsletter que tem acesso aos lugares aonde jornalistas não vão nas reuniões diplomáticas, citou os EUA como dizendo que não é certo "qual será a configuração de Copenhague em relação ao destino do Protocolo de Kyoto". Em bom diplomatês, isso significa: "vamos acabar com esse negócio".
Mas espere um momento, você dirá: Kyoto não ia acabar de qualquer maneira em 2012 - e é por isso que estamos negociando Copenhague, para começo de conversa?
Bem, não exatamente. Sim, o primeiro período de compromisso de Kyoto de fato acaba em 2012. Mas as negociações de clima hoje estão seguindo em dois trilhos, um para os países em desenvolvimento + os EUA (o AWG-LCA) e outro para os membros de Kyoto (o AWG-KP; KP de "Kyoto Protocol"). A proposta dos países ricos é que o pessoal embarcado no trem de Kyoto (UE, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Canadá e Leste Europeu + Rússia) pule para a outra linha.
Pessoalmente, eu não sentiria saudades de Kyoto. O protocolo foi incapaz de engajar os EUA, tem metas pífias e alivia muito para todo mundo, pois permite que grande parte das reduções domésticas seja feita por meio da compra de créditos de carbono, uma espécie de venda de indulgências. Talvez eu esteja influenciado pelo livro "The Collapse of the Kyoto Protocol", do americano David Victor (já elogiado neste blog), que empresta o título a este post. Victor argumenta que Kyoto foi negociado às pressas, com uma arquitetura ruim (exclui, por exemplo, um imposto internacional sobre o carbono, que muita gente acha que seria muito mais eficiente que apenas o "cap-and-trade") e acabou se transformando num pacto de mediocridade, e uma mediocridade difícil de cumprir, o que é pior.
Mas os negociadores dos países em desenvolvimento contra-argumentam, com razão, que Kyoto ao menos fornece um arcabouço no qual reduções compulsórias podem ser feitas pelos países ricos, com metas para toda a economia (e não apenas para alguns setores, como os EUA planejam adotar). E o protocolo, continuam, para usar a linguagem do design inteligente, é um exemplo de "complexidade irredutível": não dá para escolher algumas de suas partes sem que a coisa toda desmorone. Aparentemente, os países ricos estão querendo pular fora de Kyoto para não terem de amargar metas compulsórias ambiciosas para toda a economia.
O perhaps é que os países do G77 (em desenvolvimento) estão interpretando isso como um golpe. Nas palavras de um delegado, o fim de Kyoto "envenena as negociações". A confiança entre países ricos e pobres, que já era pouca, sumiria de vez. E, neste caso, não é só Kyoto que terá seu réquiem tocado em Copenhague. Será a própria negociação do clima.
Escrito por Claudio Angelo às 23h33
Fósseis do dia

Arábia Saudita, Polônia e Nova Zelândia foram eleitos os "fósseis do dia" ontem tea rede de ONGs Climate Action Network. O "prêmio" é dado aos países que mais empatam o progresso nas negociações internacionais de clima.
Os árabes ficaram em primeiro lugar, por dizerem ontem que não era necessário apresentar nenhum número no texto da visão compartilhada, documento que guiará o futuro do combate ao aquecimento global. Os poloneses, por um comentário feito por seu ministro das Finanças sobre financiamento de ações contra a mudança climática em países pobres: "é inaceitável que os países pobres da Europa ajudem os países ricos da Europa a ajudarem os países pobres do resto do mundo".
Os neozelandeses, por proporem que 100% de suas reduções futuras de emissão possam ser compensadas comprando créditos de carbono de outros países, o que significa não fazer absolutamente nada no clima.
Logo a Nova Zelândia, que dia desses declarou que seria o primeiro país "carbono neutro" do mundo.
Escrito por Claudio Angelo às 08h21
Eu vi o futuro (e não gostei)

Prezados leitores, eu lhes escrevo diretamente do futuro.
Num sentido muito tangível, Bancoc é o futuro: aqui já é manhã de 6 de setembro, enquanto em São Paulo é noite do dia 5.
Mas esta cidade de 6 milhões de pessoas, engarrafamento permanente (manhã, tarde ou noite) e consumo desenfreado também é o futuro num sentido mais assuatador do termo: Bancoc, especialmente sua zona central, simboliza o que a explosão do capitalismo na Ásia está fazendo e vai fazer com o consumo de energia no mundo.
Um passeio a pé pela Siam Square, no coração da cidade, mostra como são ridículos os esforços que os diplomatas do mundo todo vêm fazendo a poucos quilômetros daqui para tentar fechar um texto do novo acordo do clima. A Siam Square é um cenário de Blade Runner, com restaurantes tradicionais chineses (daqueles que têm frangos e pedaços de porco pendurados em todo canto) misturados a cafés "wi-fi" (de fato, toda a região é uma zona wi-fi gratuita), lojas e mais lojas e três shopping centers gigantes conectados entre si por passarelas suspensas. A rua corre em dois níveis, no solo e no alto, e ambas tomadas por camelôs que vendem de pen-drives a raquetes de squash. Tudo apinhado de gente. No nível inferior, na rua, a frota de táxis cor-de-rosa (todos, sem exceção, Toyota Corolla) disputa com carros de passeio, ônibus e tuk-tuks (riquixás motorizados) o direito de parar no engarrafamento.

Mas é nos shopping centers que o futuro mais se revela. Os shoppings de Bancoc são uma espécie de playground para os consumidores japoneses, que não podem bancar o consumo de luxo no próprio país e vêm comprar marcas famosas na Tailândia. Um deles, o Siam Paragon, é especializado em Chanel, Hugo Boss e outras, além de abrigar o maior aquário do Sudeste Asiático. É "posh" além dos sonhos mais loucos dos brasileiros.
O crescimento econômico da Ásia veio, claro, acompanhado de uma explosão nas emissões de gás carbônico. Mesmo com um acordo do clima em vigor, o Protocolo de Kyoto, que em tese tem um dispositivo para impedir o desenvolvimento sujo do Terceiro Mundo, a curva de emissões é acelerada. Tailandeses, malaios, cingaleses e, claro, chineses, querem mais é andar de Toyota Corolla, comprar iPods e comer na praça de alimentação chique do shopping.

É esta a festa que os países ricos querem cortar agora, alegando insustentabilidade - sem, no entanto, mostrarem à Ásia como fazer diferente.
O problema é que, andando em Bancoc (que dirá a China), percebe-se que o dragão do Terceiro Mundo é grande, pesado e está acelerando na ladeira, com crise ou sem crise. É um sistema com uma inércia grande demais para ser parado facilmente.
Escrito por Claudio Angelo às 23h42
Uma passagem para Bancoc
Este blogueiro está em Bancoc, a fascinante capital da Tailândia, distante 20 mil quilômetros e quatro toneladas de carbono de São Paulo. Começa hoje aqui a penúltima semana de negociações diplomáticas antes da hora da verdade, em dezembro, quando 191 nações se reunirão em Copenhague para fechar o próximo acordo de proteção ao clima, no âmbito da Convenção do Clima das Nações Unidas.
Os negociadores reunidos aqui têm diante de si uma tarefa que é de deixar em pânico até o mais experiente editor de jornal: eles precisam editar um texto que pautará a economia mundial, o uso de energia e o desenvolvimento pela próxima década, pelo menos. O que eles precisam fazer em duas semanas (uma aqui em Bancoc e outra em Barcelona no mês que vem) é deixar um texto de 181 páginas com 10 páginas, mais ou menos. É esse o tamanho final que o texto de Copenhague precisa ter para ser “aprovável” e executável pelos governos.
O documento em discussão na ONU em Bancoc é intimidante a começar pelo nome: FCCC/AWGLCA/2009/INF2 (FCCC significa “convenção-quadro sobre Mudança do Clima e AWGLCA significa Grupo de Trabalho As Hoc sobre Ações de Longo Prazo, caso alguém no boteco pergunte). Ele vem sendo considerado a peça diplomática mais complexa já negociada na história das Nações Unidas.
Trata-se de uma espécie de balaio gigante onde os países foram despejando suas visões sobre o que deve ser o futuro acordo do clima, em quatro grandes eixos: mitigação (ou seja, redução de emissões), adaptação (aos efeitos inevitáveis do aquecimento global), transferência de tecnologia e financiamento. E o acordo acaba aqui. Todo o resto do documento é pontilhado de colchetes, ou seja, frases sobre as quais não há consenso. Portanto, não adianta fazer como editores de jornal fazem e cortar o texto pelo pé. É preciso resolver os colchetes.
Um exemplo do que precisa ser decidido é o seguinte parágrafo: [Refletindo] [Por causa de] sua responsabilidade histórica no acúmulo de emissões de gases-estufa na atmosfera, [partes que são países desenvolvidos [e outras partes incluídas no Anexo 1 da Convenção] [devem] [deveriam] [mostrar liderança no esforço global(...).] “Devem” (em inglês, “must”) e “deveriam” (em inglês, “should”) são coisas beeem diferentes. Aos países ricos, obviamente, interessa a formulação mais suave. Outro exemplo de discórdia é quanto às metas de desvio do cenário atual de emissões que devem ser adotadas pelos países em desenvolvimento até 2020: podem ir de 15% a 30% ou não serem estipuladas numericamente, dependendo do colchete que prevaleça. E por aí vai. Há parágrafos inteiros sob colchetes, e outros com quatro ou cinco redações alternativas.
A questão que se coloca em Bancoc é se haverá tempo para fazer o corte necessário no documento para que ele possa chegar a Barcelona e receber sua redação final. A reunião começou na semana passada sem muita perspectiva de realizar essa missão, e tendo recebido um impulso político mais fraco do que o que seria desejável das reniões de chefes de Estado na Assembleia Geral da ONU e no G20.
Incrivelmente, porém, os diplomatas estão trabalhando a todo vapor (e vapor é o que não falta por aqui nesta época do ano, com mais de 30ºC e bem uns 110% de umidade do ar) e têm feito progresso em questões técnicas. No entanto, o caldo anda entornando, para variar, com a proposta de metas de redução de emissões para países ricos. Aparentemente, o que foi colocado na mesa hoje foi algo em torno de 11%, até 2020, menos da metade do que seria necessário para começar uma conversa séria sobre cortes. Do jeito que está, os países pobres não vão topar desvios grandes de sua trajetória normal de emissões (e quem chega à Tailândia dos mega-shopping centers e dos engarrafamentos permanentes percebe bem que trajetória é essa e aonde ela nos leva) e tudo fica como está.
Num balanço da primeira semana de reunião divulgado hoje, Kim Carstensen, da ONG WWF, resume o estado de espírito:
WWF would like delegates in Bangkok to continue their good work in the second week of the UNFCCC meeting but with only 10 negotiation days left before Copenhagen, there is urgent need for another high-level summit. Leaders should make it clear that the outcome of Copenhagen must have a legally binding character and include negotiated emissions reduction targets for the rich countries. “Leaders must instruct negotiators that a robust outcome of Copenhagen means clear and agreed reduction targets and financial commitments. A set of voluntary pledges will not do the trick,” Carstensen said. Ou seja: só chefes de Estado podem destravar as conversas. Acompanhe aqui no Laboratório o progresso do encontro de Bancoc.
Escrito por Claudio Angelo às 07h24
Rapidinhas com Xing Xu

Por uma mera questão de fuso horário, tive de fazer uma reportagem sobre um dos achados paleontológicos mais importantes dos últimos tempos sem entrevistar o autor principal da pesquisa, o chinês Xing Xu. O professor Xu só conseguiu responder meu e-mail com algumas perguntas quando o texto sobre o Anchiornis huxleyi, primeiro dinossauro emplumado anterior à mais antiga ave, o Archaeopteryx, já estava na gráfica.
Seria um pecado desperdiçar a oportunidade de apresentar a visão de Xu sobre o fóssil, ainda que no esquema de "rapidinhas". Então, confira a microentrevista abaixo:
Folha - Qual é o significado da presença de superfícies simétricas, e não assimétricas, nas penas do Anchiornis? Suponho que isso elimine a possibilidade de ele voar por suas próprias forças, mas essas penas poderiam ao menos ajudá-lo a planar?
Xu - Sim, você está correto em afirmar que as penas simétricas do Anchiornis não são suficientes para uma capacidade de voo sustentado, mas poderiam ser usadas para fazê-lo planar.
Folha - O sr. tem uma ideia intrigante sobre a origem das penas -- elas teriam aparecido primeiro nas extremidades do corpo dos dinossauros. Se foi isso o que aconteceu, qual seria a função adaptativa original desse tipo de pena?
Xu - Boa pergunta, mas muito difícil de responder. Elas poderiam ter sido usadas para isolar termicamente ovos, e também seria possível o uso como estrutura de ostentação [para fêmeas e rivais].
Folha - Os seus achados significam que agora não há mais desculpas para contestar o modelo da origem das aves como descendentes de dinossauros?
Xu - Sim, esse novo achado traz o que até agora é a evidência mais direta do elo dinossauros-aves, em termos não apenas de morfologia mas também de moldura temporal.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 22h51




