Biopirata ficava a sua avó
Reproduzo comunicado de imprensa que acaba de chegar do CNPq:
Os Ministros de Estado da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende e do Meio Ambiente, Carlos Minc assinam Portaria Interministerial para credenciar o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) a autorizar o acesso de instituições que exerçam atividades de pesquisa e desenvolvimento ao patrimônio genético nacional.
O Presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), Marco Antonio Zago, tem a satisfação de convidar para a cerimônia de assinatura da Portaria Interministerial MCT/MMA, que credencia o CNPq a autorizar o acesso e remessa de amostras de componentes do patrimônio genético para fins de pesquisa científica. O evento será realizado no dia 15 de setembro de 2009, às 10 horas, no edifício sede do CNPq, SEPN 507 Bloco B, 4º andar, sala Álvaro Alberto.
Parece que será cumprida, finalmente, a promessa do governo Lula de desburocratizar a pesquisa com biodiversidade, que já rendeu multas pesadas a cientistas brasileiros e tem travado a exploração científica e - quem sabe um dia - tecnológica da fauna, flora e microbiota nacionais.
O anúncio do acordo entre os ministros Carlos Minc e Sergio Rezende foi feito pelo próprio Rezende em julho, na reunião anual da SBPC em Manaus. Na ocasião, assessores de Minc correram para desmentir a declaração. Pelo visto era para valer - sorte da ciência nacional.
Escrito por Claudio Angelo às 19h33
O vento e a muralha
Poucos anos atrás, falar em energia eólica como alternativa è queima de combustíveis fósseis para conter o avanço do efeito estufa soava meio como ingenuidade nos ouvidos de físicos e engenheiros. O potencial de mitigação das turbinas eólicas, diziam, não se compara àquilo que podemos fazer para mitigar o aquecimento global com biocombustíveis ou simplesmente melhorando a eficiência energética de termelétricas já existentes.
"Você acha que alguém vai convencer os chineses a trocar todas as usinas a carvão por um monte de cataventos?", perguntaria um cético.
Um estudo que sai na edição desta sexta-feira da revista "Science", porém, mostra um potencial espantoso da energia eólica justamente na China. Só com o vento que sopra no Império do Centro seria possível dar conta de toda a sua demanda futura de energia até 2030, que será aproximadamente o dobro. Hoje a China já é responsável por cerca de 20% das emissões mundiais de CO2.
A transição, claro, tem seu preço: US$ 4,6 trilhões em 20 anos, na conta do climatólogo/engenheiro Michael McElroy, da Universidade Harvard, autor principal do estudo. Pode-se discutir se isso é caro ou barato, mas o debate maior é mesmo sobre quem deve pagar a conta. A China possivelmente se beneficiará de um mecanismo de auxílio do primeiro mundo para bancar energia limpa nos países subdesenvolvidos. Isso, claro, se algum mecanismo de compensação for criado dentro do próximo tratado mundial do clima, a ser negociado dezembro em Copenhague.
Numa conversa hoje com McElroy, porém, fui convencido de que o maior gargalo para a energia eólica pode ser outro: fazer a China aceitar que empresas estrangeiras possam disputar concessões de usinas dentro do país.
"A indústria da China é internacionalmente competitiva hoje na produção de turbinas eólicas pequenas, mas não é competitiva nas grandes, que são as mais eficientes. Pode ser que ela não atinja esse grau de qualidade", diz o cientista. "Imagino que os negociadores chineses em Copenhague argumentem em favor de transferência de tecnologia para permitir isso acontecer, mas também imagino que as empresas que detêm essa tecnologia não queiram simplesmente doá-la. É difícil prever o que vai acontecer."
Como sinal, talvez seja bom lembrar que o inverso acontece com a energia solar. A terceira maior fabricante mundial de células fotovoltaicas é chinesa, e o Partido Comunista acaba de abrir a uma empresa americana a concessão da maior fazenda fotovoltaica do mundo. Se o vento vai atravessar a muralha, porém, é outra história.
Escrito por Rafael Garcia às 20h09
Peguei um ITA pro... fóssil?
O jornal O Globo de hoje traz uma reportagem interessante de Henrique Gomes Batista sobre os modelos de exploração do pré-sal que o Brasil pode adotar. Segundo um estudo da consultoria Bain & Company encomendado pelo BNDES, são dois: o norueguês, baseado em pesquisa e desenvolvimento, que gera grana, patentes e prosperidade, ou o indonésio, baseado em nacionalização da tecnologia, mas sem desenvolvimento endógeno. Não preciso dizer qual deu mais certo.
Mas o que mais chama atenção na reportagem é a declaração de Pedro Cordeiro, autor do estudo, de que o Brasil precisa de "um ITA do petróleo". A referência é ao Instituto Tecnológico de Aeronáutica, criado pelo visionário brigadeiro Casimiro Montenegro (que deveria ser elevado a herói nacional número 1 e ter um feriado em sua homenagem, mas que é virtualmente desconhecido dos não-engenheiros e não-militares), de onde saiu a mão-de-obra qualificada que permitiu o surgimento da Embraer, quarta maior fabricante de aviões do mundo.
Ecos do brigadeiro Montenegro soaram nesta semana, com o interesse francês em adquirir o novo avião militar de abastecimento da Embraer. Coisas assim (tecnologia de ponta exportável) fazem um país, e não subsídios a uma pecuária com padrões de produtividade do século 16. Mas isso é outra história.
O que eu quero dizer é que o governo Lula não hesitaria um minuto em botar bilhões de reais na criação de um eventual ITA do petróleo. Mais do que isso, seria uma decisão ACERTADA, que combinada à expansão das universidades vista neste governo poderia, de fato, gerar mão-de-obra qualificada para essa indústria de alta tecnologia que seria o pré-sal no modelo norueguês.
Mas será que o governo estaria disposto a investir em outros ITAs? Em institutos que criassem competência não para explorar um recurso fóssil finito, poluente e fadado a desaparecer numa nova economia mundial de baixo carbono? Será que o governo bancaria a criação DE FATO de uma nova economia tecnológica para o país? Parece pouco provável. Se quisesse, já teria por onde começar. Afinal, em 2008 a Academia Brasileira de Ciências apresentou em Brasília uma proposta de fomento à pesquisa na Amazônia, que transformaria a região num berço de ciência, tecnologia e inovação - e, de quebra, frearia o desmatamento para a agropecuária extensiva e ineficiente? O custo estimado pelos acadêmicos seria de R$ 3 bilhões por ano em dez anos. Parece barato para o que está em jogo.
O documento da ABC foi entregue ao ministro das ideias de Lula, Mangabeira Unger, que não deve ter gostado dele, pois não só não fez nada a respeito como empurrou de volta uma Medida Provisória que entrega a Amazônia aos grileiros. Na pior das hipóteses, Mangaba engavetou a proposta no ministério antes de se picar para Harvard. Na melhor, engavetou-a num móvel chique da Law School, o que não chega a ser uma solução, mas é ao menos um consolo.
Escrito por Claudio Angelo às 11h58
Ministro de Jah
Recebo de Alden Bourscheit, do site O Eco, um vídeo com um discurso-performance impagável do ministro Carlos Minc num show da banda de reggae Tribo de Jah na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Afinado com local e público, Minc manda "um abraço" para "Bob Marley e Chico Mendes", diz que o cerrado é muito importante e que seu ministério começou a monitorá-lo e defende a descriminalização da maconha. "Vamos virar esse jogo, acabar com a hipocrisia!" Arrancou aplausos e assobios efusivos da plateia.
Te cuida, Suplicy.
Escrito por Claudio Angelo às 18h19
"Pactos sem a espada"
Aqui na editoria de Ciência da Folha os próximos meses serão um gigantesco "esquenta" (sem trocadilhos) rumo à conferência da ONU sobre o clima em Copenhague, que acontece em dezembro. Como vocês certamente viram nos posts do nosso chefe e guru Claudio Angelo, a situação não está lá muito interessante. A notória dificuldade de se conseguir um acordo internacional que faça alguma diferença para a situação periclitante do clima continua firme e forte. Muita gente espera uma ação decisiva contra o problema no encontro em Copenhague -- aparentemente em vão, pelo menos do jeito que a coisa caminha. O que inevitavelmente me faz pensar em Thomas Hobbes (1588-1679).
Explica-se: andei baixando e ouvindo, nos últimos tempos, o excelente podcast do curso de filosofia política da Universidade Yale (que pode ser encontrado, de graça, em Open Yale Courses; os temas são variadíssimos, indo de história a astrofísica). Hobbes e sua visão profundamente desencantada da natureza humana, claro, não poderiam faltar no curso ministrado pelo cientista político Steven Smith. E é da pena dele uma frasezinha que não me sai da cabeça quando penso nas negociações climáticas.
"Covenants without the sword are but words", diz Hobbes; ou "Pactos sem a espada são meras palavras" (embora "pacto" talvez não traga à tona, em português, a ressonância bíblica de "covenant" -- em inglês, a Arca da Aliança é "Ark of the Covenant"). A frase expressa o fato de que raramente as pessoas cumprem o combinado, por mais salutar que ele seja, só porque são boazinhas. É a espada -- ou qualquer outra forma coerciva que ela tome hoje -- que as faz aderir para valer a leis ou contratos.
Problemão número 1: minha impressão é que ninguém ainda teve a macheza de propor uma espada digna do nome para a crise climática. Não estou falando de mera perda de prestígio internacional (como se isso assustasse a China, por exemplo) ou de medo de ficar pra trás na corrida por tecnologias limpas potencialmente lucrativas. Estou falando de coisa séria -- sanções econômicas, ou algo ainda mais severo. Se Hobbes estiver correto, precisamos da espada.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 19h49
Temos o nosso Dawkins?
Essa foi a pergunta que ficou circulando pela minha cachola após assistir à palestra e começar a ler o livro do veterano biólogo Fábio de Melo Sene, da USP de Ribeirão Preto. Se a resposta for "sim", e tendo a me inclinar por essa opção, o Dawkins tupiniquim fala num agradável sotaque caipira de Borborema (SP) e, como sua contraparte britânica, tem um cativante senso de humor ranzinza (cativante, isto é, quando não você não é o alvo dele). É como bater papo com seu avô rabugento, inteligente e de língua afiada sobre um tema fascinante.
Especialista na evolução das mosquinhas Drosophila e pesquisador desde os anos 1960, Sene lançou o livro "Cada Caso, Um Caso... Puro Acaso: Os Processos de Evolução Biológica dos Seres Vivos" (Sociedade Brasileira de Genética, 252 págs., R$ 40,00) no 55. Congresso Brasileiro de Genética, acontecido na semana passada na aprazível Águas de Lindoia (SP), ou Les Eaux de Lindoye, como já devem saber os leitores deste blog.
A fala de Sene foi uma defesa vigorosa e bem-humorada do ramo da ciência fundado por Darwin. Sene disse que os cientistas deveriam até ser gratos aos criacionistas de vez em quando. "Se não houvesse tanta discussão, a teoria da evolução talvez não chegasse tanto ao público. A gente faz palestra, escreve livro... acho superlegal", brincou ele. Como geneticista, ressaltou que "Darwin não sabia genética e, por isso mesmo, não cometeu erros genéticos". Para ele, é possível dizer que o grosso do que Darwin propunha continua sendo uma base sólida da moderna biologia evolutiva.
E quanto ao livro? Apesar de alguns resquícios de linguagem acadêmica, mais parecida com as de livros-texto do que com as obras dedicadas ao público em geral, Sene consegue explicar os pontos mais importantes da biologia evolutiva moderna com clareza, humor e um toque considerável de "pessoalidade". Assim como Dawkins, ele distribui bordoadas aos cientistas, e em especial aos biólogos, que aceitam os resultados científicos da biologia evolutiva e continuam a acreditar em Deus. "É uma postura engraçada, acreditar num 'Criador' mas achar que ele não criou nada", diz ele, para quem essa é uma postura "em cima do muro".
Mesmo eu, um alvo direto dessa retórica, não consigo deixar de achar a rabugice engraçada, e as demais virtudes da obra a compensam com folga. Os interessados podem adquirir o livro aqui.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 19h28




