Cuecas, travesseiros e a estação espacial
| Nasa | |
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| Koichi Wakata, que testou a supercueca |
Hoje, lendo notícia sobre a decisão da Nasa de prolongar o vacilante programa da ISS (Estação Espacial Internacional), lembrei-me de uma conversa que tive com Gilberto Câmara, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Ao comentar o custo-benefício de viagens tripuladas ao espaço, Câmara me explicou por que não acredita que hoje elas sejam mais tão proveitosas quanto no tempo da corrida espacial que levou o homem à Lua, 40 anos atrás.
Devemos à Nasa os filtros d'água portáteis com carvão ativo, as lentes de óculos que não riscam, boa parte do avanço das telecomunicações e muitas outras coisas. Elas são herança do modelo de desenvolvimento de um país que durante uma década gastou 4% do seu PIB anual com o objetivo único de mandar uma dúzia de caras passearem na Lua. Como surpreendente retorno dessa iniciativa temerária, a economia se aqueceu, a ciência se beneficiou e o inimigo soviético se sentiu intimidado.
Mas, como nem tudo o que é bom dura para sempre, chegou a hora em que a empreitada cósmica esgotou seu repertório de demandas. O efeito colateral benéfico da exploração espacial sobre a economia, então, deixou de ser tão evidente.
"Viagens espaciais não são mais motor de inovação", resumiu Câmara, com uma argumentação convincente. Investir centenas de bilhões de dólares numa coisa como a Estação Espacial Internacional não faz mais tanto sentido. Não estamos mais em Guerra Fria, vivemos numa economia de serviços e temos demandas tecnológicas diferentes, como arranjar um meio barato de produzir energia limpa.
Não questiono a importância atual de satélites e sondas robóticas, mas a exploração espacial tripulada deve mesmo rumar a um fim melancólico se a Nasa decidir que ir para Marte não vale a pena. Os US$ 150 bilhões investidos na ISS, convenhamos, não fizeram grande coisa pela ciência.
O fim será tragicômico, aliás, se depender de notícias como a do astronauta japonês Koichi Wakata, que teve como uma das missões testar uma supercueca, que pode ser usada ininterruptamente durante um mês. Foi preciso coragem, e aparentemente deu certo. Mas algo me diz que, na Terra, o produto não terá tanto sucesso comercial quanto o filtro d'água.
Isso tudo me fez lembrar do primeiro e único astronauta brasileiro, Marcos Pontes, que depois de se aposentar começou a fazer bico como garoto-propaganda de uma marca de travesseiro. O produto é feito de uma espuma mole, inventada na época da corrida espacial.
Meu ortopedista, Dr. Godoy, uma vez me disse: "Nunca compre aquele travesseiro da Nasa. É péssimo para a coluna. Travesseiro tem que ser macio, mas firme. Aquele de astronauta não serve para nada".
Ir para a Lua foi uma coisa legal, sem dúvida, e é defensável dizer que só pelo espírito de aventura já valeu a pena. Se daqui a 50 anos o vai-e-vem de astronautas da ISS deixar alguma saudade, talvez nós saberemos se ela serviu para alguma coisa.
PS. Para quem ainda não tinha visto, está aí abaixo a propaganda com o ex-astronauta Marcos Pontes:
Escrito por Rafael Garcia às 01h06
Isto é Kátia Abreu
Quem pensa que já ouviu de tudo no debate entre "ambientalistas" e "ruralistas" sobre a proteção à Amazônia faria bem em ler a reportagem de Annie Gasnier no Le Monde da última segunda-feira. A repórter ouviu da senadora Demo e presidente da CNA, Kátia Abreu, a seguinte frase: "Não é crime produzir para exportar, porque nós não destruímos e sim substituímos a cobertura vegetal por alimentos".
Afinal, é tudo planta, não é?
Escrito por Claudio Angelo às 16h07
EUA: remende tubos e poupe 1 Brasil em energia
Um relatório da consultoria McKinsey repercutido hoje pelo jornal The New York Times dá uma ideia do tamanho do buraco energético americano. Segundo a McKinsey, se o país investir US$ 530 bilhões em cortar seu desperdício de energia (medidas como trocar lâmpadas e eletrodomésticos e fechar vazamentos em tubos de calefação e ar-condicionado, por exemplo), poupará em 2020 US$ 1,2 trilhão (mais ou menos o PIB do Brasil) na conta de luz. A economia de energia resultante será de 23% - "mais do que o consumo total de energia do Canadá", disse ao "Times" Ken Ostrowski, da McKinsey.
Pare para pensar um pouco. Os EUA, com 5% da população mundial, jogam fora o mesmo que o Canadá consome de energia. Repito, o Canadá! Não é Dinamarca, nem Luxemburgo. Agora me diga se esse povo está em condições de exigir da China e à Índia que aceitem metas obrigatórias de redução de emissões em Copenhague.
Escrito por Claudio Angelo às 11h58
BR-319: O que diz o Ibama

Foto: PPbio/Inpa
Alguns posts atrás, este blogueiro foi massacrado pelos manauaras de plantão por criticar a atitude eleitoreira do governador Eduardo Braga de abrir mão de seu projeto de ferrovia para a BR-319 e passar a defender a pavimentação da rodovia - um projeto caro, inútil e ambientalmente irresponsável.
OK, essas eram as minhas opiniões, contra as quais os defensores da estrada podem se revoltar à vontade, quiçá com algum grau de justiça. Mas o que dizem os FATOS? O que diz a ciência sobre o projeto dos sonhos do ministro dos Transportes e pré-candidato a governador Alfredo Nascimento? O que diz o EIA-Rima? E o que diz o parecer recente do Ibama a respeito do EIA-Rima, que motivou o "ecologista de Ipanema" (sic) Carlos Minc a dizer e repetir que a estrada não sai sem condicionantes ambientais?
Bem, como eu sou uma pessoa que anda de ônibus com frequência, tive tempo de ler o catatau de 177 páginas assinado por quatro analistas e um técnico do Ibama. E o órgão ambiental federal diz que a BR-319 é... bem... cara, inútil e ambientalmente irresponsável.
Antes de passarmos às considerações do Ibama, um pequeno grão de sal, derivado de análise de discurso (essas coisas que a faculdade de jornalismo ensina a fazer, mas a de culinária não): o parecer tem um viés claro contra o EIA-Rima. Aqui e ali, há frases que denunciam esse viés: "possível inadequação do projeto", "coleta ridícula" e "confusão de texto", juízos de valor que nada têm de análise objetiva e que transparecem uma tremenda irritação dos pareceristas com o EIA-Rima.
Feita essa ressalva, o parecer do Ibama parece um documento honesto, que aponta inconsistências no projeto de pavimentação e no estudo de impacto ambiental. Vamos a algumas delas, sempre de acordo com o que diz o Ibama (eventuais complementações minhas entre colchetes):
- CUSTO: "Há várias informações contraditórias no EIA. No item 'Valor do Empreendimento' o custo é de R$ 390.140.769. Entretanto, o cronograma físico-financeiro apresenta valores (...)de R$ 190.512.082,50. Além disso, em outras partes do texto há informações contraditótrias sobre o valor final do empreendimento, com dados sobre o custo de R$ 650 milhões ou ainda R$ 697 milhões".
- BENEFÍCIO: "Como benefícios do estabelecimento da rodovia, o EIA equivocadamente cita as medidas de controle tomadas pelo governo federal e estadual para a criação de unidades de conservação e terras indígenas, ou seja, o EIA considerou nas vantagens da rodovia as ações (...) para impedir ou mitigar os impactos ambientais da própria rodovia".
- DEMANDA: [No trecho entre Porto Velho e Humaitá circulam 357 veículos por dia, valor extrapolado para a área central da rodovia, incorretamente, segundo o Ibama, que acha que o volume será menor.]
- ISOLAMENTO: "Como citado no EIA, representantes das indústrias de Manaua têm indicado que, no momento, a rodovia teria baixa importância para o Polo Industrial de Manaus" (...) "Sabe-se também que o escoamento da soja das regiões produtoras de Mato Grosso está consolidado na Hidrovia do Madeira". (...) "A previsão de passageiros que utilizarão a rodovia [5% da população, segundo o EIA] pode estar superestimada".
- DESMATAMENTO: "Em todos os cenários analisados há aumento considerável do desmatamento na região, mesmo com a adoção/aumento de fiscalização dos órgãos ambientais e criação das unidades de conservação. Mesmo com o cenário de 'governança ambiental forte' as áreas desmatadas seriam de 438.500 hectares, e no pior cenário, sem a aplicação de políticas de combate ao desmatamento, a área florestal perdida seria de 8.770.000 hectares".
"Ocorre que os cenários atualmente aplicáveis à área de influência da rodovia são aqueles referenciados como 'ausência de governança ambiental' ou (...) 'governança ambiental fraca'. (...) A citação do Parque Nacional de Yellowstone, e sua comparação com a BR-319 e as unidades de conservação do seu entorno não tem qualquer justificativa e embasamento teórico".
Escrito por Claudio Angelo às 16h03
Botas sem culpa
Acabo de receber um comunicado do Greenpeace (que, espero, entre em breve no site da ONG) dando conta de que a Timberland também resolveu adotar a política da Nike e parar de comprar couro de áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia.
O movimento é relevante por duas razões. Primeiro, porque na semana passada, quando a Nike anunciou seu "compromisso com a Amazônia", a Timberland disse que defendia seus fornecedores. Pelo visto alguém no alto escalão da empresa se deu conta de que tal posição era ruim para os negócios e resolveu mudar de ideia.
Segundo, porque as botas da Timberland são ótimas e duram horrores. Eu já estava ficando deprimido de pensar que teria de excluir a marca americana da minha lista de compras.
Escrito por Claudio Angelo às 11h25





