Gol de quem?
Claudia Marcelloni/Cern
Quem vê a imagem acima pode achar que esse grupo estava assistindo à penúltima rodada do Campeonato Brasileiro quando foi fotografado. Quase.
Escrito por Rafael Garcia às 23h13
Blogando "A Origem", parte 6: enfim, seleção natural
Ufa. O quarto capítulo de "A Origem", que recebe o singelo título de "Seleção Natural", é por enquanto o mais parrudo da obra, e o mais denso em informação e até conteúdo matemático (o qual, calma, não farei vocês deglutirem). Trata-se da conclusão lógica dos dados sobre variação no estado doméstico e na natureza: se o homem é capaz de criar raças tão bizarras quanto um pug ou um greyhound a partir de um lobo, o que a natureza não é capaz de criar ao longo dos milhões de anos do tempo geológico.
Nas palavras de Charles Robert:
"O homem só pode agir sobre os caracteres externos e visíveis; a natureza pouco se importa com aparências, exceto até o ponto em que elas possam ser úteis para qualquer ser. Ele pode agir sobre todo órgão interno, em cada sombra de diferença de constituição, na maquinaria completa da vida. O homem seleciona apenas para seu próprio bem; a Natureza apenas para o bem do ser que do qual ela cuida. Cada caracter selecionado é totalmente exercitado por ela; e o ser é colocado sob condições adequadas de vida".
Ahn??? Será que você leu direito? Pois lhe asseguro, gentil leitor, que é isso o que o texto diz. Talvez por um ranço metafísico do século 19 que o levava a atribuir sabedoria à natureza, Darwin não tinha o menor problema em usar linguagem finalista (ou seja, ligada à ideia de propósito) para descrever como a seleção natural funcionava. Outro exemplo:
"Pode-se dizer que a seleção natural está, todo dia e toda hora, fazendo o escrutínio, no mundo todo, de cada variação, mesmo a mais leve; rejeitando o que é ruim, preservando e adicionando o que é bom; silenciosa e insensivelmente trabalhando, quando e onde houver oportunidade, no melhoramento de cada ser orgânico em relação às suas condições orgânicas e inorgânicas de vida".
Repare também nas imagens de precisão metódica, continuidade: para Darwin, a chave é que todo esse processo é extremamente gradual.
Outro aspecto extremamente curioso do capítulo é comparar a compreensão original que Darwin tinha do que batizou de seleção sexual com o que se conhece sobre o tema hoje. Digamos:
"E isto me leva a dizer algumas palavras sobre o que chamo de Seleção Sexual. Ela depende, não de uma luta pela existência, mas de uma luta entre os machos pela posse das fêmeas (...) Em muitos casos, a vitória não dependerá do vigor geral, mas de ter armas especiais, confinadas ao sexo masculino. Um cervo sem galhada ou um galo sem esporas teriam pouca chance de deixar descendentes (...) Os machos dos animais carnívoros já estão bem armados; embora para eles e para outros meios especiais de defesa possam seer dados por meio da seleção sexual, como a juba do leão, o ombro acolchoado do javali e a mandíbula em gancho do salmão macho; pois o escudo pode ser tão importante para a vitória quanto a espada ou a lança".
Hmmmm, OK. Deixando de lado a óbvia fixação vitoriana com machos -- como se as fêmeas não pudessem se envolver na seleção sexual também --, repare que Darwin coloca grande ênfase no combate, embora mais tarde ele mencione disputas pacíficas, como a exibição dos pavões. Esse, na verdade, parece ser um dos grandes abismos teóricos entre o naturalista e os biólogos modernos.
Há fortes indícios de que a seleção sexual -- a exibição exagerada de características de um sexo, como as caudas de pavão -- representa a sinalização de qualidades genéticas "de primeira", pode ser totalmente arbitrária (qualquer traço pode ser exagerado) e opera até de maneira contra o senso comum. Por exemplo, a cauda de pavão seria, se visto por outro prisma, uma espécie de problema genético, já que atrapalha o bicho e o torna mais suscetível a ser caçado. No entanto, ele sobrevive mesmo assim -- um "sinal custoso" de sua qualidade genética para as fêmeas.
Haveria bilhões de coisas mais a falar sobre esse capítulo, mas o mais bonito talvez seja a imagem da Árvore da Vida, explorada aqui de forma poética por Darwin:
"É um fato verdadeiramente maravilhoso -- cuja maravilha tendemos a deixar passar por causa da familiaridade -- que todos os animais e todas as plantas em todo o tempo e espaço sejam aparentados uns aos outros em grupo subordinado a grupo (...) As afinidades de todos os seres da mesma classe foram às vezes representadas por uma grande árvore. Creio que este símile corresponde em grande parte à verdade (...) Conforme brotos dão origem por crescimento a brotos novos, e esses, se vigorosos, ramificam-se e se sobrepõem em todos os lados a muitos galhos mais frágeis, assim a cada geração creio que foi com a grande Árvore da Vida, que enche com seus galhos mortos e fraturados a crosta da Terra, e cobre a superfície com suas ramificações cada vez mais frondosas e belas".
Escrito por Reinaldo José Lopes às 21h05
Lula volta a criticar Obama no clima
SIMONE IGLESIAS
ENVIADA ESPECIAL A GUAMARÉ (RN)
O presidente Lula criticou ontem a meta que os Estados Unidos levarão para a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, em Copenhague, em dezembro.
"O presidente dos Estados Unidos, que é o país que mais polui o mundo, está assumindo o compromisso de fazer uma diminuição da emissão de gases de efeito estufa menor do que estamos propondo só para a Amazônia e são eles que poluem", disse.
Da proposta que será levada pelo Brasil a Copenhague, de redução entre 36,1% a 38,9% da emissão de gases em relação à tendência de crescimento até 2020, o desmatamento na Amazônia será responsável por 20%.
Lula sugeriu que o presidente Barack Obama compre etanol do Brasil em vez dos americanos desenvolverem carro movido a hidrogênio e disse que carros daquele país são "banheiras".
"O Brasil vai fazer a sua parte, mas nós não queremos fazer a nossa parte para impedir o nosso crescimento e eles continuarem crescendo, produzindo carro cada vez maior, [que] parecem mais umas banheiras", disse.
Segundo Lula, os Estados Unidos poderiam comprar etanol e biodiesel do Brasil para reduzir o uso da gasolina e, assim, colaborar na redução de gases de efeito estufa.
"Eles [Estados Unidos] poderiam utilizar carro a álcool. A gente vende o carro e o álcool junto para eles que é muito melhor. Por que eles ficam tentando encontrar aquilo que sabem que não vão encontrar logo que é fazer um carro a hidrogênio?", questionou o presidente, durante assinatura de atos para ampliação da refinaria Clara Camarão, no interior do Rio Grande do Norte.
Escrito por Equipe do Laboratório às 20h42
Blogando "A Origem", parte 5 -- Porrada
O capítulo 3 da primeira edição de "A Origem" se chama "Luta pela Existência", e fica claro que a coisa está esquentando. Acho que dá para dizer isso até do ponto de vista literário: é a primeira fatia do livro em que Darwin se descola um pouco da lista um tanto seca de fatos e se dá ao luxo de ousar com metáforas bem pensadas, num estilo "Dawkins vitoriano", diria eu.
Uma coisa que empolga é o fato de Darwin declarar estar em busca não apenas de explicações para as adaptações de cada ser vivo individualmente, mas principalmente das "coadaptações" -- ou seja, como flores e abelhas se "pactuaram" para trocar néctar e pólen, ou como um pica-pau adaptou seu crânio a, bem, picar o pau. O enfoque, portanto, é profundamente ecológico, buscando entender a teia de relações entre seres-vivos e seu ambiente não-vivo. E, para Darwin, o centro dessa teia é a competição. Porrada pura mesmo. Tipo:
"Contemplamos a face da natureza brilhante de alegria, frequentemente vemos superabundância de comida; não percebemos, ou esquecemos, que os pássaros que estão ociosamente cantando em torno de nós vivem principalmente de insetos ou sementes e, assim, estão constantemente destruindo vida; ou esquecemos em que grande medida esses cantores, ou seus ovos, ou seus filhotes, são destruídos por aves ou feras caçadoras; nem sempre temos em mente que, embora a comida seja agora superabundante, não é assim em todas as estações de cada ano recorrente".
A questão central, diz Darwin, é que vivemos num mundo de recursos finitos. A capacidade de reprodução dos seres vivos, no entanto, embora não beire o infinito, facilmente sai de controle, e o resultado é que muitos mais indivíduos nascem do que os que conseguem sobreviver e gerar mais descendentes. Daí a competição por todo tipo de recurso dentro da mesma espécie e entre uma espécie e outra. Nesse ponto, Darwin reconhece sua dívida com o clérico inglês Malthus, que primeiro formulou esse princípio ao comparar o crescimento da produção agrícola com o da população humana no século 18.
A necessidade de garantir descendência faz com que diferentes espécies adotem diferentes estratégias de "história de vida", lembra Darwin -- ou seja, quantos descendentes produzir em que espaço de tempo e que grau de cuidado dedicar a eles, de peixes que produzem milhares de ovas jogadas oceano afora a humanos que investem todo o seu carinho e recursos num casal de filhos.
Surge aqui uma espiadinha do Darwin experimentador:
"Num pedaço de chão com três pés de comprimento por dois de largura, revolvido e capinado, e onde não havia intervenção de outras plantas, marquei todas as mudas das nossas ervas nativas conforme elas brotavam, e de 357 nada menos que 295 foram destruídas, principalmente por lesmas e insetos".
O naturalista invoca essa competição ferrenha como causa da extinção, e critica os que enxergam "cataclismas que despovoam o mundo" como fonte do sumiço de espécies. De novo, é a visão gradualista que ele tinha da natureza: hoje sabemos que as grandes viradas da história da vida parecem ter sim sido causadas por cataclismas, tendo pouca relação com a competição entre espécies - com a exceção da chegada do homem aos vários continentes, claro.
Darwin volta ao tema das relações ecológicas ao falar da interdependência entre um tipo de abelha europeia e certas flores. Essas abelhas têm suas colmeias destruídas por ratos-do-campo, os quais, por sua vez, são caçados por gatos. "Portanto, é bastante crível que a presença de um animal felino [adorei essa] em grandes números num distrito possa determinar, através da intervenção primeiro de ratos e depois de abelhas, a frequência de certas flores naquele distrito!"
A competição, portanto, é poderosíssima como mecanismo evolutivo, embora o exemplo das abelhas também indique que a cooperação é crucial às vezes. Darwin termina tentando tucanar um pouco suas conclusões mais sombrias:
"Quando refletimos sobre essa luta, podemos nos consolar com a total crença de que a guerra da natureza não é incessante, que nenhum medo é sentido, que a morte é geralmente expedita, e que os vigorosos, os saudáveis e os afortunados sobrevivem e se multiplicam".
"Nenhum medo é sentido" foi meio demais.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 20h22
Blogando "A Origem", parte 4 -- Traçando fronteiras
OK, alcançamos o segundo capítulo de "A Origem das Espécies", espertamente batizado de "Variação sob a Natureza" para fazer parzinho com o capítulo anterior, que versava sobre espécies domesticadas, como vocês devem se lembrar.
Trata-se de um trecho um tanto chocho do livro, mas Darwin começa bem:
"Nem hei de discutir aqui as várias definições que foram dadas para o termo espécie. Nenhuma satisfação ainda satisfez todos os naturalistas; mas qualquer naturalista sabe vagamente o que ele quer dizer quando fala de uma espécie. Geralmente o termo inclui o elemento desconhecido de um ato distinto de criação".
Taí um ponto no qual "A Origem" ainda é atualíssimo (menos a parte do "ato distinto de criação", claro). As maneiras de definir uma espécie continuam a provocar certo grau de pancadaria na comunidade científica, embora gradualmente o que pareça estar se impondo é o conceito evolutivo de espécie -- ou seja, o de uma população que tenha uma história evolutiva única, ainda que possa produzir híbridos férteis ocasionais com outra população igualmente distinta.
E é nessa trilha que o nosso vovô-naturalista está caminhando. Darwin nota tanto a presença de variabilidade individual quanto de populações de uma mesma espécie na natureza:
"Essas diferenças individuais são altamente importantes para nós, uma vez que proporcionam materiais para a seleção natural acumular, da mesma maneira que o homem pode acumular em qualquer direção dada as diferenças individuais em suas produções domesticadas".
E aqui temos um argumento crucial para o gradualismo evolutivo de Darwin: a fronteira entre variedades de uma espécie e espécies realmente distintas é frequentemente tênue -- tão tênue que é relativamente fácil conceber o acúmulo de diferenças transformando variedades em espécies "de verdade":
"Muitos anos atrás, ao comparar, e ver outros compararem, as aves das diferentes ilhas do arquipélago das Galápagos, tanto os de umas com as outras quanto com os do continente americano, fiquei muito impressionado com como inteiramente vaga e arbitrária é a distinção entre espécies e variedades".
O capítulo tenta avançar um pouco também sobre a questão da "evolução da evolução", ou seja, por que algumas espécies e grupos de espécies parecem mais aptos a gerar diversidade do que outros. Mas ficamos nisso. O próximo capítulo é BEM mais suculento.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 20h22
Blogando "A Origem", parte 3 -- Pare o pombo
E, só pra não perder o ritmo, vamos direto pro primeiro capítulo de "A Origem", que leva o título de "Variação sob Domesticação". O que nos leva ao sujeito esquisito aqui do lado, um "pouter pigeon" (alguém sabe o nome da raça em português?). A criatura não se parece com nenhuma espécie de pombos da natureza, mas teve sua estrutura corporal bastante modificada simplesmente por gerações e gerações de cruzamentos dirigidos em cativeiro. E se o mesmo tivesse acontecido com espécies naturais?
Eis o primeiro argumento do nosso amigo Charles Robert para nos direcionar rumo ao entendimento do poder da seleção natural: a seleção artificial. O argumento não podia ser mais simples, mais cristalino: os animais e as plantas domésticos apresentam sempre certo grau de variabilidade; é possível conduzir como essa variabilidade vai se manifestar nas gerações seguintes por meio de cruzamentos selecionados, envolvendo apenas os indivíduos com características desejadas; ao longo do tempo, isso leva ao surgimento de variedades e raças com tais traços cada vez mais exacerbados.
"Nenhum criador duvida de quão forte é a tendência à herança [genética]: o semelhante produz o semelhante é a sua crença fundamental; dúvidas foram lançadas a respeito deste princípio apenas por autores teóricos."
E agora veio a passagem que, sinceramente, me deu peninha do Darwin:
"As leis governando a herança são bastante desconhecidas; ninguém pode dizer por que a mesma peculiaridade em indivíduos diferentes da mesma espécie, e em indivíduos de diferentes espécies, às vezes é herdada e às vezes não é; por que o filho às vezes reverte em certos caracteres para seu avô ou avó ou outro ancestral muito mais remoto; por que uma peculiaridade às vezes é transmitido de um sexo para ambos os sexos, ou para um sexo apenas, mais comumente mas não exclusivamente o mesmo sexo".
Sério. Que dó. Darwin não tinha a mais vaga ideia do que fosse DNA, cromossomos, herança ligada ao sexo (essa coisa maluca que faz a seletividade da manifestação de características em filhos de um sexo e não nos de outro), nem mesmo genes. É impressionante o que o cara conseguiu com tão pouco conhecimento empírico direto da matéria-prima de trabalho dele.
OK, chega de comiseração e voltemos ao que interessa. A analogia entre raças e espécies diferentes aparentadas é clara, diz Darwin:
"Raças domésticas da mesma espécie diferem umas das outras da mesma maneira como, embora na maioria dos casos em menor grau que, espécies proximamente aparentadas do mesmo gênero num estado de natureza".
Darwin também não sabia que a maioria dos nossos bichos domésticos descendem de uma única espécie selvagem -- havia muito debate na época dele sobre isso --, e portanto ele decidiu escolher como estudo de caso o pombo doméstico, bicho que parecia realmente descender de um único tipo de bicho silvestre. O naturalista se deu ao trabalho de se transformar num criador de variedades ornamentais de pombos, observando o resultado de cruzamentos e consultando outros criadores. E é com essa experiência que ele introduz o conceito de adaptação:
"Uma das mais marcantes características das nossas raças domésticas é que nos vemos nelas adaptação, não, de fato, para o bem do próprio animal ou da própria planta, mas para o uso ou devaneio do homem". E: "A chave é o poder de seleção cumulativa do homem: a natureza dá variações sucessivas; o homem as adiciona em certas direções úteis para ele".
Outros pontos importantes para Darwin: a seleção pode acontecer de forma quase imperceptível, levando em conta características graduais; populações grandes trazem mais matéria-prima de variabilidade do que as pequenas. Se o homem consegue produzir formas tão diferentes quanto espécies reais são entre si, será que a natureza não consegue fazer até mais que isso em longas escalas de tempo? Veremos nos próximos capítulos.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 19h25
Blogando "A Origem", parte 2 -- Darwin, jornalista
Qual é a semelhança entre Darwin e um jornalista de ciência? Os dois vivem choramingando por causa da falta de espaço.
Tá, eu sei que parece sacrílego comparar o augusto Charles Robert aos sujeitos que escrevem neste Laboratório, mas a primeira impressão de quem começa a ler "A Origem" é inevitavelmente essa: como esse sujeito chora. A questão é que, acreditem vocês ou não, a obra magna de Darwin é só um "abstract". Isso mesmo: um simples resumo do que ele queria apresentar como seu relato completo em favor da evolução.
Pode ser só viagem de tiete da minha parte, mas vejo um paralelo com Tolkien, meu outro ídolo de fala inglesa -- aquele perfeccionismo procrastinador que não deixa o cara sossegar e mandar o livro para a gráfica nem que a vaca tussa. Para nossa sorte, Darwin superou essa tendência, mas o tempo todo fica dizendo "não dá para entrar em mais detalhes por causa da falta de espaço", "o espaço não permite que eu dê mais exemplos", ad infinitum.
Leia-se: depois de procrastinar por anos e anos, ele não quer enrolar mais ainda e deixar que os louros fiquem com Alfred Wallace, que o acabou forçando a vir a público com suas ideias.
"Minha obra está agora quase terminada; mas como precisarei de mais dois ou três anos para terminá-la, e como minha saúde está longe de ser forte, fui forçado a publicar este Resumo. Fui mais especificamente induzido a fazer isso, uma vez que o sr. Wallace, que agora está estudando a história natural do arquipélago malaio, chegou a quase exatamente as mesmas conclusões gerais que eu sobre a origem das espécies."
Na própria introdução, outro elemento constante: o tom cativante de vovozinho tomando chão. Esse cara é um gentleman de certa idade que não tem a menor vocação para ser bombástico:
"Quando a bordo do H.M.S. Beagle, como naturalista, fiquei muito impressionado com certos fatos da distribuição dos habitantes [ele quer dizer todas as espécies, não só os humanos] da América do Sul, e das relações geológicas dos habitantes presentes com os passados daquele continente. Esses fatos me pareciam lançar alguma luz sobre a origem das espécies -- esse mistério dos mistérios, como foi chamado por um de nossos maiores filósofos."
Alguma luz? Rei da modéstia.
Outro detalhe: "Além disso, estou convencido de que a Seleção Natural tem sido o principal, mas não o exclusivo, meio de modificação". Em linguagem da biologia de hoje: Darwin era evolutivamente pluralista -- um sujeito que admitia múltiplas causas para a mudança evolutiva, embora desse o primeiro lugar para a seleção natural.
E isso é só a introdução, folks.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 18h49
Blogando "A Origem"

"Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural, ou a Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Vida". Ufa. Agora tente falar isso três vezes o mais rápido que conseguir. OK, já deu pra entender que, na era vitoriana, o pessoal não tinha lá muito tino pra títulos grudentos e populares de livro. Provavelmente só perdiam pro povo do Renascimento. Mas não importa: eis um livro que merece ser lido. E, aqui no Laboratório, a gente quer concluir essa saga até o próximo dia 24, data em que a obra hoje mais conhecida simplesmente como "A Origem das Espécies" faz 150 aninhos.
Sim, você entendeu certo -- a gente vai blogar a obra-prima de Darwin. A coisa já foi feita com sucesso tempos atrás pelo ScienceBlogs americanos, o que me levou à temeridade de propor a ideia ao nosso editor e mestre, Claudio Angelo. O Claudio ficou de acompanhar a leitura também, mas está tão enfurnado com a conferência climática de Flopenhague, digo, Copenhague, que talvez não tenha tempo de blogar comigo.
Por enquanto, então, vamos manter a coisa no nível pessoal. É a segunda vez que leio "A Origem", mas a primeira leitura foi em meio a tanta correria e dor de cabeça que achei que valia a pena dar uma olhada docente no material de novo. Para facilitar a tarefa, escolhi um texto ricamente ilustrado (clichezão, eu sei) da primeira edição da obra (houve seis, no total) organizado por David Quammen e publicado no ano passado pela editora Sterling. (Não é preciso dizer que se trata de um texto a ser lido na língua original.)
A intenção aqui é simples. Quero, com meu olhar de leigo apaixonado por biologia evolutiva, e razoavelmente bem (auto)instruído nos grandes temas da área, comparar o que Darwin sabia com o que sabemos, ver como sua obra seminal plantou caminhos, e também onde ela pode nos ter levado para becos sem saída por algum tempo. Desejo, acima de tudo, ter um contato o menos "mediado" possível com o frescor original da teoria da evolução. Não dá para tirar os "óculos" mentais do começo do século 21, claro, mas dá para tentar ler Darwin sem a mediação de mais de cem anos de livros didáticos.
É claro que apreciarei os pitacos de todos os biólogos que passaram por aqui. Numa aventura dessas, preciso de toda a ajuda que conseguir. Vocês me acompanham?
Escrito por Reinaldo José Lopes às 20h45
Mudança climática é física
A APS (Sociedade Americana de Física) rejeitou nesta semana uma petição interna de 160 integrantes que queriam alterar a posição oficial da entidade sobre aquecimento global.
Argumentando que a mudança climática não seria causada pela emissão de gases do efeito estufa, o grupo pedia a aprovação de uma nova declaração para lançar dúvida sobre a chamada origem antropogênica do fenômeno.
Um comitê que fez uma análise preliminar da petição, porém, rechaçou as alegações segundo as quais o CO2 nada teria a ver com a temperatura da Terra.
A APS —que hoje representa cerca de 47 mil físicos— comunicou por fim na terça que seu conselho rejeitou a proposta, por unanimidade. Foram 31 votos contra os céticos do clima e apenas uma abstenção, sem nenhum voto a favor. Goleada.
Escrito por Rafael Garcia às 20h08
O REDD de Bizarro
Maiores de 30 anos certamente se lembrarão do Bizarro, aquele personagem de desenho animado que era uma versão, bem... bizarra do Super-Homem, todo troncho e que vivia num planeta igualmente distorcido.
Pois bem: o REDD, o mecanismo de redução de emissões por desmatamento e degrafação florestal, acaba de ganhar sua versão bizarra. É a RCEDD, a "Redução Certificada de Emissões do Desmatamento e da Degradação. O projeto, aprovado hoje na Comissão de Agricultura da Câmara, é do deputado Lupércio Ramos, do PMDB do Amazonas. Nas palavras da assessoria do deputado, a RCEDD "garante pagamento ao dono de imóvel que preservar a mata natia, inclusive aquela localizada em área de preservação permanente, de reserva legal e de Reserva Particular do Patrimônio Natural".
Tem mais:
"O valor a ser pago vai depender das características e da extensão da mata nativa de cada propriedade. Quanto maior a quantidade de dióxido de carbono, gás que provoca efeito estufa, retida pelas árvores, maior o valor. Estudos divulgados pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia(Ipam) apontam que cada hectare de floresta retém de 150 a 200 toneladas de carbono.
"O benefício da RCEDD será concedido aos proprietários, pessoas físicas e jurídicas, que apresentarem toda documentação do imóvel e o projeto técnico sobre a quantidade de carbono retida. O proprietário terá que assumir o compromisso de manter a mata nativa por 30 anos, no mínimo."
Agora deixa ver se eu entendi: proprietários de terra, que são obrigados POR LEI a manterem reserva legal e áreas de preservação permanente, poderão GANHAR DINHEIRO, que virá do meu, do seu, do nosso (ou de algum gringo otário) para fazer algo que eles são obrigados a fazer de qualquer forma. Tipo "me dá um trocado e eu não quebro a lanterna do seu carro".
Proposta parecida vem sendo sistematicamente defendida pela Confederação Nacional da Agricultura, sob o título aparentemente prafrentex de "pagamento por serviços ambientais".
Mais uma vigarice ruralista que se arma enquanto Lula não apita sobre o Código Florestal.
Escrito por Claudio Angelo às 19h01
Suely e o plágio
Caros leitores, algum de vocês pode achar que é uma coisa óbvia, mas acho importante falar: não dá para engolir a defesa que a reitora da USP, Suely Vilela, apresenta para as acusações de plágio que pairam sobre seu grupo de pesquisa, relatadas ontem em reportagem de Eduardo Geraque.
Ao que parece, a história em que a magnífica se envolveu é um daqueles casos clássicos em que um pesquisador júnior apronta uma molecagem, copiando trechos de outros trabalhos, e os cientistas seniores coautores do estudo acusado acabam sofrendo as consequências por tabela, depois que a travessura é descoberta. Pode ser verdade, mas seria uma injustiça tão grande condenar Suely?
Qualquer cientista sabe que, em um estudo com número muito grande de autores, poucos são aqueles que escreveram mesmo algo ou atuaram efetivamente na pesquisa que originou ou trabalho. Muitos nomes entram por razões bem paroquiais e pouco “autorais”, como empréstimo de material para experimentação, cessão de dados etc.
É comum até mesmo o etéreo “empréstimo de prestígio”, quando se trata de um cientista mais conhecido. Um nome de fama no meio acadêmico abre muitas portas --sobretudo portas de revistas científicas cujos artigos são revisados por outros cientistas. E um cientista, como qualquer outro ser humano, é um animal político. Em troca de emprestar seu nome, o figurão engorda seus números de produtividade de artigos sem ter muito trabalho. Alguns cientistas acham isso errado, outros acham que faz parte do jogo. Tanto faz.
O problema é que essas particularidades do sistema de publicações científicas nunca são debatidas quando o que está em evidência é o mérito de um trabalho, e não sua desgraça. Se o plágio do referido estudo nunca tivesse sido descoberto, provavelmente o artigo serviria apenas para entrar na conta do cientista sênior, engordar os valores de suas bolsas de estudo e somar pontos em avaliações acadêmicas.
Não é possível dizer de antemão, claro, que isso é o que aconteceu no caso da reitora da USP. Abrir uma sindicância para investigar tudo foi a decisão correta. Se foi assim, porém, dá para entender por que Suely Vilela se esforçou tanto para tentar abafar outra denúncia de plágio, aquela contra o diretor do Instituto de Física, Alejandro Szanto de Toledo, episódio com algumas semelhanças. Talvez a reitora tenha tido algum tipo de empatia ao saber do caso. Talvez ela tenha pensado que para nós, pobres leigos financiadores da universidade pública, seria difícil entender que às vezes é preciso sujar um pouco as mãos para conseguir publicar um artigo.
É. Seria mesmo.
Escrito por Rafael Garcia às 16h00
Vigarice florestal
A Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados (curiosamente, de maioria ruralista) se preparava para votar hoje o projeto de lei de autoria do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) que prevê mudanças no Código Florestal. A votação, por enquanto, foi adiada. Apelidada de "Floresta Zero" pelos ambientalistas, a peça legislativa prevê, entre outras coisas:
- Anistia total para quem tenha desmatado além do permitido entre 1996 e 2006;
- Redução da reserva legal na Amazônia de 80% para 50%;
- Possibilidade de reposição de até 30% da área desmatada com uma monocultura exótica, o dendê.
A chamada "bancada da motosserra" tem pressa. No dia 11 de dezembro expira o prazo dado pelo presidente Lula aos produtores rurais que desmataram ilegalmente (na Amazônia, virtualmente todos) para regularizarem suas propriedades antes de começarem a ser multados. Pelo Código Florestal, uma lei de 1965 alterada por Medida Provisória em 2001, os proprietários são obrigados a preservar do corte raso (é permitida a exploração de madeira) 80% da área de suas propriedades na Amazônia. O setor rural nunca cumpriu a lei, esperando que a MP fosse ser derrubada um dia.
Os parlamentares ruralistas armam a machadada no momento em que é articulado dentro do governo um acordo para ampliar o prazo da regularização sem jogar fora a reserva legal. O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) considera a parada "70% resolvida", mas aparentemente se esqueceu de combinar com os russos no Congresso e no Ministério da Agricultura.
Tão grande é a confiança de Minc de que sua visão prevalecerá que não fez força para barrar o Floresta Zero na Câmara até agora. Na semana passada, enquanto manifestantes do Greenpeace esticavam correntes e tocavam sirenes na votação do projeto, que acabou adiada, assessores de Minc flanavam pela sala da comissão. Mal comparando, em seu tempo de ministra, Marina Silva evitou que a arapuca tucana do Senado passasse na Câmara.
Desastre ambiental à parte, a aprovação do Floresta Zero vai pegar mal para chuchu para Lula e suas ambições de expor sua candidata Dilma Rousseff no cenário internacional - e logo no campo que Dilma mais abomina, o meio ambiente, mas isso é outra história. Afinal, o governo já decidiu que a redução do desmatamento na Amazônia em 80% até 2020 será a maior e quiçá única bandeira que o país defenderá na conferência do clima de Copenhague, em dezembro. Lula escolheu Dilma para chefiar a delegação brasileira, transformando Copenhague numa espécie de prévia além-mar da eleição. E a überministra vai ter de rebolar para explicar aos gringos como é que o país diz no exterior que pretende reduzir o desmatamento quando aqui dentro deixa o correntão e a motosserra comerem soltos.
É bom ela ter uma explicação na ponta da língua, porque Marina, cuja imagem o governo tem se esforçado tanto para desconstruir nos últimos meses, estará na capital dinamarquesa pronta para denunciar a contradição.
Escrito por Claudio Angelo às 09h15
Governo adia, de novo, anúncio de meta de emissões
Por falta de consenso, o governo adiou para dia 14 (um sábado) o anúncio da meta brasileira de redução de emissões de gases-estufa. Twitteiros que estão na reunião do clima de Barcelona classificam a flopada de Dilma Rousseff como um "balde de água fria". Um anúncio brasileiro teria tido o poder de criar momento político na negociação em Barcelona, que começou a fazer água já hoje (veja post abaixo).
Mas aparentemente Nosso Guia e seus rapazes brilhantes do quartinho dos fundos, para usar uma expressão de Dr. Seuss (um escritor de histórias absurdas, portanto, referência adequada a esta situação) têm razões muito boas para manter as cartas brasileiras junto ao peito até Flopenhague, digo, Copenhague. O problema vai ser alguém pagar para ver e a meta ser um blefe.
Veja comunicado à imprensa que o Greenpeace acaba de soltar sobre o incidente em Brasília.
Brasília, 3 de novembro de 2009 - A decisão do governo brasileiro de adiar para o dia 14/11 o anúncio da posição e das metas de redução de emissões que o país levará para a Conferência do Clima, em Copenhague, é um passo para trás. O país, há menos de dois meses da reunião na Dinamarca, dá um sinal de falta de transparência diplomática, impedindo que os brasileiros e o resto do mundo tomem conhecimento de sua posição, e perde uma oportunidade importante de voltar a ser uma peça-chave nas negociações internacionais. Passa ainda uma sensação de bagunça e insegurança, como se só agora, em cima do laço, seus burocratas estivessem começando a planejar a resposta brasileira à crise climática.
Declarações do ministro Celso Amorim ao fim da reunião de hoje reforçam essas impressões. Amorim disse que o Brasil vai separar as questões nacionais das internacionais. É uma indicação de que o país pode chegar a Copenhague sem qualquer intenção de se comprometer com metas internacionais e apresentando metas nacionais que o governo não sabe como cumprir e, por isso mesmo, prefere não ver ninguém cobrando.
Escrito por Claudio Angelo às 15h59
Países africanos boicotam reunião da ONU sobre clima
Países do Grupo da África armaram um bloqueio coletivo das negociações sobre mudança climática em Barcelona hoje. Todas as reuniões sobre o Protocolo de Kyoto estão suspensas. O bicho está pegando.
Os africanos, com toda razão, dizem que não continuarão discutindo enquanto os países ricos (o chamado Anexo 1) não apresentarem metas de corte de emissões realmente ambiciosas, da ordem de 40% (estão em mais ou menos 16% hoje, com muita boa fé). Mais uma vez, o empata do jogo são os Estados Unidos, que se recusam a botar números na mesa, esperando o Congresso aprovar uma lei de mudanças climáticas que ninguém acha que sai antes da conferência de Copenhague.
A ver como a parada se desenrola.
Escrito por Claudio Angelo às 12h33
A Sombra e a Escuridão
"Trabalho de detetive" é um qualificativo usado até demais para definir pesquisas científicas, mas esta aqui merece. Uma equipe coordenada por dois biólogos da Universidade da Califórnia em Santa Cruz obteve novas e intrigantes pistas sobre os leões antropófagos de Tsavo, dupla de felinos que tocou o terror no Quênia em 1898 e inspirou o filme que deu nome a este post. Eles conseguiram estimar a proporção de carne de gente na dieta dos bichos durante seus últimos meses de vida.
Mais do que isso: o grupo de Justin Yeakel e Nathaniel Dominy conseguiu mostrar que o menu preferido pelos gatinhos foi mudando, provavelmente porque adotar humanos como prato principal foi uma medida de desespero. É que a região de Tsavo tinha passado por alterações ecológicas profundas no fim do século 19, com a redução da área de pastagens (onde viviam os herbívoros que os leões costumavam comer), epidemias que dizimaram o gado selvagem e doméstico e a chegada maciça de trabalhadores para a construção de uma ferrovia no local.
Pior ainda, a dupla de leões, conforme revela a análise de seus esqueletos, tinham dentes importantes quebrados, e um deles ainda sofria de um sério caso de "mordida errada". Aqui, sem trocadilho, vem o pulo-do-gato: o carbono e o nitrogênio da dieta são incorporados em ritmos diferentes no corpo. Os ossos guardam um registro da alimentação na escala de anos, enquanto o pelo é "feito" pela comida consumida em poucos meses.
Daí a possibilidade de perceber que, enquanto no começo da vida os bichos comiam herbívoros como antílopes, graças a seus ferimentos eles passaram a preferir bife de gente, a julgar pelas diferentes proporções de variantes de carbono e nitrogênio na dieta dos leões. A equipe arrisca até um número de pessoas devoradas: 35, bem menos do que a estimativa de 135 vítimas feita pelo matador dos leões, coronel J. H. Patterson.
O trabalho sairá na revista científica "PNAS".
Escrito por Reinaldo José Lopes às 16h22




