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A cidade faz mal à floresta (não diga)

Um quarteto de pesquisadores de algumas das principais universidades dos EUA usou um métiodo estatístico revolucionário para analisar uma série de dados referentes a 41 países tropicais e concluir: a culpa pelo desmatamento não é da população rural, mas sim da demanda urbana por comida e madeira. Parem as máquinas.

O estudo está na edição on-line da "Nature Geoscience" e é assinado por Ruth DeFries, da Universidade Columbia, provavelmente a maior especialista em sensoriamento remoto em áreas tropicais dos EUA. Ela e seus colegas analisaram uma série de fatores (de PIB per capita a crescimento total da população), cruzando-os com dados de satélite de desmatamento para toda a região de floresta tropical. Descobriram que dois fatores se correlacionam mais fortemente do que todos os outros com o avanço do desmatamento: o crescimento da população urbana e o comércio agrícola internacional do país.

A primeira reação de um leitor brasileiro à pesquisa é: "não diga". Afinal, o Brasil tem visto esse movimento na Amazônia em tempo real. A população urbana supera a rural, a massa de migrantes tem por consequência aumento de renda e passa a comer carne, botando pressão sobre a floresta. O país se torna um grande exportador de commodities agrícolas, produzidas em grandes propriedades e com uso intensivo de tecnologia, e cresce a pressão sobre a floresta. O estudo de DeFries e colegas só vem confirmar a "conexão hambúrguer", nome dado pelo ecólogo Norman Myers a essa ligação visceral entre o crescimento mundial dos mercados de commodities agrícolas e o desmatamento (depois emulada pelo Greenpeace como "conexão Chicken McNuggets", o que veio a resultar na moratória das grandes empresas à soja de novas áreas de floresta, que tem ajudado a reduzir a taxa de desmatamento).

Mas havia ainda algumas dúvidas sobre ser a urbanização o principal motor do desmatamento. Ainda em 2008, um estudo no periódico "PNAS" lamentava o quão complicado era prever tendências de desmatamento tropical. E ainda no ano passado esta mesma bat-editoria publicou uma reportagem mostrando como as metrópoles brasileiras emitem pouco CO2 (o que traz uma questão básica de equidade: a conta das emissões altas por desmatamento acaba sendo pendurada nas costas dos amazônidas, quando na verdade é dos paulistas, cariocas, mineiros etc. Um estudo de Paulo Barreto, do Imazon, por exemplo, mostra que 40% da carne produzida na Amazônia vem para São Paulo).

Enfim, por óbvia que pareça a sua conclusão, o estudo de DeFries tem o mérito de fornecer um fator de predição de tendências de desmatamento. Como não é só o Brasil que tem floresta tropical, pode ser uma ferramenta de gestão importante para os países da bacia do Congo, onde as duas coisas - desmatamento e urbanização - ainda são baixas.

Escrito por Claudio Angelo às 20h18

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A pior consequência do aquecimento global

O site de notícias da revista "Nature" traz hoje uma reportagem de Matt Kaplan que descreve um efeito realmente assustador do aquecimento global: ele pode estar "escondendo o declínio" do xarope de bordo.

Pouco popular no Brasil, essa delícia dourada é amplamente usada na confeitaria canadense e americana. É o adoçante das famosas panquecas e dos waffles servidos na região, além de ser usada em bolos, coberturas diversas, pães e (o melhor, na minha opinião) presuntos defumados. Como é extraído do tronco de uma espécie de bordo apenas em uma época do ano, o maple syrup, como é chamado, custa caro. E muita gente não resiste a dar uma "batizada" no xarope com xarope de milho ou melado de cana, mais baratos.

Os órgãos reguladores, claro, sabem do risco. E desenvolveram uma técnica para avaliar a pureza do xarope de bordo (atenção, lê-se "bôrdo", saudades do acento diferencial), que consiste em contar a taxa de isótopos de carbono-13 na amostra. Árvores como o bordo absorvem menos carbono-13 da atmosfera que gramíneas como o milho e a cana. Uma quantidade mais alta de carbono-13 na amostra significaria adulteração.

É aqui que entra o aquecimento global. Os americanos William Peck e Stephanie Tubman, da Universidade Colgate, analisaram 236 amostras de maple syrup puro datadas desde os anos 1970 e viram que a razão de carbono-13 para carbono-12 vem caindo naturalmente. A aposta da dupla é que o carbono resultante da queima de combustíveis fósseis, que contém pouco do isótopo pesado, esteja bagunçando a proporção natural de um para outro na atmosfera. Isso deixa "espaço" para produtores mal-intencionados adicionarem Karo ou outro melado vagabundo no xarope e escaparem à detecção.

Diz aí: só isso já seria razão mais do que suficiente para os EUA fazerem alguma coisa a respeito do problema. Mas os republicanos no Senado parecem não gostar de panquecas.

Escrito por Claudio Angelo às 13h29

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Plutão em technicolor

Mais um tento para o velho Hubble. Hoje a Nasa, a falida agência espacial dos EUA, divulgou uma série de imagens em "cor quase real" feitas pelo telescópio espacial da superfície do ex-planeta Plutão. É a vista mais detalhada da superfície de plutão, e revela um mundo muito mais colorido e movimentado que o bloco de gelo uniforme e sem graça que o senso comum imagina que ele seja.

Diz o comunicado da Nasa:

"As imagens feitas pelo Telescópio Espacial Hubble mostram um mundo gélido e de cor de melado que passa por mudanças em sua cor de superfície e em seu brilho. Plutão ficou bem mais avesmelhado, enquanto seu hemisfério nortem iluminado, ficou mais brilhante. Essas mudanças são provavelmente consequência da sublimação do gelo no polo iluminado e de seu recongelamento no outro polo, à medida que o planeta-anão entra na próxima fase de seu ciclo solar de 248 anos. A mudança de cor aparentemente ocorreu em um período de dois anos, entre 2000 e 2002."

O tom geral alaranjado da superfície, segundo a Nasa, se deve à quebra de metano pela radiação ultravioleta do Sol.

A agência adverte os fãs de Plutão a saborearem as imagens: só em 2015 teremos uma visão melhor da superfície do ex-planeta, quando a sonda New Horizons estiver a seis meses de sua aproximação máxima do astro.

Escrito por Claudio Angelo às 20h52

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As "metas" do Brasil

Está no site da Convenção do Clima das Nações Unidas uma "nota verbal" do governo brasileiro detalhando as Ações Nacionalmente Apropriadas de Mitigação que o país adotará no Acordo de Flopenhague, digo, Copenhague. Recapitulando: o documento final da COP-15 deixou uma página em branco para os países preencherem com suas metas de corte de emissões até 31 de janeiro. O Brasil mandou as suas. E consolidou um lençol do Itamaraty em cima do Ministério do Meio Ambiente.

Apesar de Lula ter chamado os objetivos brasileiros de "metas" em seu discurso em Copenhague no 18 de dezembro, o comunicado oficial do Brasil ao secretário-executivo da Convenção, Yvo de Boer, afirma: "por favor, note que as ações domésticas em vista são voluntárias em sua natureza" e serão implementadas de acordo com provisões de uma série de artigos da convenção. Gente experiente do ramo que leu o comunicado diz que trata-se de uma tradução em diplomatês para "vamos nos comprometer com as ações, não com os resultados".

Ou seja, o Brasil não poderá ser cobrado caso não reduza, por exemplo, as 564 milhões de toneladas de CO2 que diz que reduzirá pelo desmatamento na Amazônia. Era a posição histórica do Itamaraty, contrária à do Meio Ambiente e agora sacramentada em comunicado à UNFCCC.

Parece maluquice isso, especialmente quando a maneira de verificar se uma ação está sendo implementada a contento é justamente ver se ela está reduzindo o carbono que deveria. Mas é assim que o Ministério das Relações Exteriores acha que deve ser. Carlos Minc fez um carnaval com as metas, o Brasil ficou bem na fita, Lula foi aplaudido em Copenhague. OK, agora vamos voltar a falar sério, e na nossa língua: sem metas para o Brasil.

A questão é: como fica a história das medidas "mensuráveis, reportáveis e verificáveis" de corte de CO2? O que será medido, reportado e verificado, se não são toneladas de carbono?

Escrito por Claudio Angelo às 19h20

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IPCC em questão

É duro, amigos, mas estou de volta das férias. Passei boa parte delas avaliando o nível do mar no litoral norte da Bahia (sem alterações visíveis), e alguns dias em São Paulo, amargando os efeitos da mudança climática sobre uma megalópole que já estaria à beira do colapso mesmo sem eles.

Durante as férias, fui surpreendido por novos ataques ao IPCC. Aparentemente vários deles têm razão, já que o chair do painel, Rajendra Pachauri, teve de vir a público admitir que havia problemas na pesquisa que previa o degelo do Himalaia em 30 anos. Outros têm surgido (e o IPCC tem admitido), entre eles o de que dados sobre chuvas na Amazônia avaliados pelo painel foram tirados de um documento da ONG WWF (o autor do estudo, o gringo-paraense Daniel Nepstad, já veio a público dizer que o dado está correto, mas um painel que se diz científico deveria ter consultado o estudo original e "peer-reviewed" de Nepstad, não um documento de ONG).

Uma pessoa do IPCC me disse ontem que existe um clamor de "fora, Pachauri" no ar, cada vez mais audível. Aparentemente o indiano deitou-se sobre os louros da mídia, irritando muito cientista sério do painel que pede mais discrição e rigor, especialmente nos EUA, onde os ataques de negacionistas do clima são mais fortes.

É melhor fazerem a troca logo, antes que a turma dos céticos convença a turma dos políticos a parar de olhar pela janela e de sair na rua (no Brasil, a média de temperatura neste verão está 3 graus Celsius mais alta do que o normal) e de que o aquecimento global é uma farsa montada pelo Greenpeace e pelos comunistas.

PS: Um aide-memoire: antes que chamem Pachauri de ongueiro ou comunista, é bom lembrar que ele é oriundo da indústria do carvão e que sua nomeação para a chefia do IPCC, em 2002, foi maquinada por George W. Bush.

Escrito por Claudio Angelo às 12h20

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Uma confusão que caiu do céu

Eu sei que o título acima é totalmente Sessão da Tarde, mas só consigo pensar em algo do gênero mesmo ao ler a histórica maluca de um meteorito que caiu nos EUA e virou pivô de uma disputa jurídica. Quem nos conta a saga é a agência de notícias Associated Press.

Em resumo: no último dia 18 de janeiro, um meteorito do tamanho de uma bola de tênis rasgou os céus da Virgínia e abriu um rombo no teto do consultório médico dividido por Frank Ciampi e Marc Gallini. Após o susto, a dupla resolveu vender o cacareco cósmico, aparentemente oriundo do cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, para a afamada Instituição Smithsonian. Grana cobrada: US$ 5.000.

A questão, contudo, é que o consultório é alugado. E o dono do imóvel, Erol Mutlu, deu a entender que os direitos de venda do asteroide lhe pertenciam. Os dois lados contrataram advogados, e é provável que o quiprocó acaba sendo resolvido apenas pela Justiça americana.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 21h37

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Eu errei

Querendo parecer mais produtivos do que realmente são, alguns cientistas acabam passando dos limites.

Existem maneiras tradicionais de inflar a sua quantidade de publicações em revistas científicas. Uma delas é sentar e trabalhar. Por ser cansativa, pode ser preterida. Outra possibilidade é entrar para o bonde da alegria dos trabalhos com dezenas de autores, mesmo que o cientista não tenha feito muita coisa. Uma terceira, que não aumenta a quantidade de publicações mas eleva o impacto dos estudos, é combinar de trocar citações.

Alguns pesquisadores, mostrando a sua habilidade para descobrir novas soluções para antigos problemas, estão agora inovando. Colocam, nos seus currículos, erratas dos seus estudos como se fossem novas publicações. Imagine quanto não vale uma errata na "Science"! Quem conta o que está acontecendo são alguns físicos que, recentemente, tiveram que analisar os currículos de gente assim, criativa.

"É louvável corrigir um artigo errado. Demonstra seriedade no trato da ciência. Não deveria acontecer, mas acontece. Cálculo errado, experimento falho, conclusão equivocada, revisão do artigo descuidada. Tudo conspira" , diz o físico Wido Schreiner, da Universidade Federal do Paraná, em texto no boletim da Sociedade Brasileira de Física. "Sei que a concorrência é feroz, e que de quando em vez um artigo a mais pode significar muito na vida das pessoas: um projeto aprovado, uma bolsa de pesquisa, um concurso vencido. Mas tudo isso não justifica numerar uma errata como artigo publicado."

"Autores que publicam uma errata não só ganham mais um resultado nas suas listas de publicações, como ainda acrescentam uma citação ao seu artigo original! Aconteceu comigo quando um colaborador japonês publicou um artigo no Chemical Physics Letters e em seguida uma errata de uma linha (a meu ver desnecessária até)", escreve Marcos Avila, da Universidade Federal do ABC, no mesmo boletim.

(RICARDO MIOTO)

Escrito por Equipe do Laboratório às 22h27

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Amigos do tigre

 Tigre siberiano, AP

 

Depois de ficarem um tempo sem receber muita atenção dos líderes mundiais, os tigres selvagens da Ásia acabam de ganhar um novo plano de preservação e estímulo.

 

Reunidos na Tailândia, representantes de 12 países asiáticos e da Rússia assinaram um acordo que pretende dobrar a quantidade desses felinos na natureza até 2020. Atualmente, estima-se que haja no máximo 3.600 tigres selvagens nas florestas da região. No início do século passado, essa população ultrapassava os 100 mil.

 

Apesar de terem definido o acordo como “histórico”, os participantes da reunião não disseram de onde sairá a verba para custear as ações do projeto, que incluem aumento da fiscalização, ações de reflorestamento e criação de conexões entre os santuários naturais da espécie.

 

O único revés, de acordo com alguns representantes, foi a exclusão da parte do texto que condenava definitivamente o comércio de tigres. A alteração foi pedida pelo governo da China, onde há mais de 5 mil desses felinos sendo criados em fazendas. Embora o comércio de órgãos de tigre – muito usados na medicina asiática - esteja proibido no país desde 1993, as fazendas continuam crescendo.

 

Na quinta-feira (28), um dia anteas de o acordo ser assinado, o Banco Mundial pediu aos participantes do encontro que fechassem de vez todas as fazendas de tigre. Como a organização é uma das possíveis financiadoras dos projetos de preservação, alguns analistas temem pelas consequências  de não condenar a prática.

 

O próximo passo depende agora dos chefes de governo. Um novo encontro está marcado para setembro em Vladivostok (Rússia), onde o acordo definitivo será submetido à aprovação dos países.

 

(GIULIANA MIRANDA, com Associated Press)

Escrito por Equipe do Laboratório às 19h28

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Vovô gaúcho

A linhagem que desembocaria nos dinos mais populares do mundo (como o célebre Tyrannosaurus e o ligeirinho Velociraptor), sem falar nas aves, pode ter começado no Rio Grande do Sul. Segundo a análise preliminar conduzida por um grupo de paleontólogos gaúchos, os restos fósseis de dois indivíduos com pouco menos de 230 milhões de anos, oriundos do município de São João do Polêsine (a 280 km de Porto Alegre), estão entre os mais antigos e completos exemplos de celurossauros, como é conhecido esse grande grupo de dinos.

"O ponto principal desse achado é que ele mostra como a diversificação dos grupos de dinossauros é antiga. Ela parece ter acontecido tão logo os dinossauros apareceram", disse-me por telefone Sergio Furtado Cabreira, da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil). Cabreira e seus colegas Lúcio Roberto da Silva (também da Ulbra), Tiago Raugust (da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Sérgio Dias da Silva, Augusto Brodt e Ana Luiza Ramos Ilha (todos da Universidade Federal do Pampa) estão trabalhando na região desde o ano passado. O primeiro exemplar que acharam era um dino ainda filhote, mas neste ano veio à tona o crânio aparentemente completo de um adulto, além de outros detalhes da anatomia do bicho, como o fêmur (osso da coxa).

"Foi muito casual a coisa. O crânio já estava aflorando no nível da erosão da rocha", conta Cabreira. Para o paleontólogo, características como a presença maciça de vasos sanguíneos no maxilar superior do bicho, assim como o grande número de dentes - 28, pelas contas da equipe -, são boas pistas de que se trata de uma forma primitiva de celurossauro. Certamente estamos falando de um carnívoro de tamanho modesto -- 50 cm de altura, 1,3 m de comprimento e menos de 10 kg.

A equipe deve demorar cerca de um ano para chegar a uma descrição final do bicho, que provavelmente representa uma nova espécie. Se a proposta atual dos pesquisadores estiver correta, o fóssil indica a ocorrência de dezenas de milhões de anos de evolução "fantasma" do mais importante grupo de dinossauros carnívoros. Isso porque, até agora, os registros seguros mais antigos de celurossauros são dos EUA e contam "apenas" 150 milhões de anos de idade, contra os quase 230 milhões dos exemplares gaúchos.

"Nos anos 1980, animais atribuídos ao grupo dos celurossauros, com idade equivalente à dos daqui, foram descritos na Índia, mas há poucos detalhes sobre esses espécimes, que ficaram esquecidos", diz Cabreira.

O paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz ter visto as fotos dos fósseis gaúchos. "É um material muito bom, de fato, mas acho que é cedo para dizer se são mesmo celurossauros", avalia, cauteloso.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 00h47

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Sobre aves e a Mona Lisa

Das 237 áreas importantes para a conservação de aves ameaçadas de extinção no Brasil, apenas 21% estão totalmente protegidas. Cerca de 39% estão parcialmente protegidas e 40%, nada protegidas.

E daí? Problema das aves, certo? Elas até são bonitinhas, carismáticas, algumas ficam cantando o dia inteiro, mas a vida vez ou outra é cruel mesmo, não?

"Isso a gente ouve inclusive de líderes de governo. 'Não vamos fazer uma obra por causa de tal bicho?' As aves são um indicador biológico muito eficiente. Se há uma espécie ameaçada, há algo errado acontecendo. Elas são um bom indicador porque são fáceis de ver, o bicho fica lá cantando, dá para perceber ele desaparecendo. A questão é que junto com ele vão embora espécies vegetais, outras espécies da fauna", diz Pedro Develey, biólogo e diretor de conservação da Sociedade para Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), responsável pelo estudo.

"As pessoas falam ´o que tem de errado em perder meia dúzia de espécies?´. Imagine se pega fogo no Louvre e a Mona Lisa é destruída. Seria uma comoção. Agora, tudo bem perder uma espécie? É uma visão antropocêntrica demais."

Para Develey, o Brasil vem perdendo muitas mona lisas.

"Só 29% das áreas [importantes para a conservação da biodiversidade das aves] estão sobrepostas a unidades de conservação. Se a gente pensar em números absolutos, não é pouco. Mas é em relação ao tamanho do país."

O maior problema é na mata atlântica. Como não sobrou quase nada dela, a situação é crítica. "Especialmente no Nordeste. Você leva os garotos para fazer educação ambiental aqui no Sudeste, aí eles olham para a mata atlântica, aquela floresta toda, e perguntam quem é que disse que ela está ameaçada. A situação no Nordeste é muito pior do que aqui, lá sobrou muito pouco mesmo", diz Develey.

A Sociedade para Conservação das Aves do Brasil é a representante nacional da BirdLife, uma aliança internacional de ONGs de gente que se importa com as aves. O trabalho de mapeamento foi feito por ela em duas partes. A primeira, sobre a mata atlântica, ficou pronta em 2006. A segunda, com Amazônia, cerrado e pantanal, agora. Cada uma virou um livro.

As áreas importantes para as aves somam 11% do total do território do país. "Acho muito viável manter uma quantidade dessas conservada integralmente", diz Develey. "E, com isso, também ter ar saudável, chuva no sudeste, clima regulado, água para beber, evitar desmoronamentos."

Lugares imporantes para a proteção das aves no Brasil

Escrito por Equipe do Laboratório às 00h50

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O macaco tá certo

Não é à toa que o venerável Rafiki, de "O Rei Leão", ilustra o presente post, gentil leitor. O macaco sabido (como eu dizia aos sete aninhos) ilustra um princípio básico das sociedades humanas tradicionais: a sabedoria é um atributo da idade. Eu disse sociedades humanas? Alargue o círculo e mude a frase para "sociedades primatas humanas e não-humanas".

Ao menos é isso o que sugere uma pesquisa liderada por Alban Lemasson, da Universidade de Rennes, na França, na revista científica "Biology Letters". Lemasson e seus colegas estudaram um pequeno grupo de macacos-de-campbell (Cercopithecus campbelli) e verificaram que membros mais jovens do grupo dão mais atenção aos mais velhos.

Parece bom demais pra ser verdade, mas, pelo visto, é exatamente o que acontece. No grupo, composto por um macho adulto, sete fêmeas adultas e uma fêmea adolescente, quem mais emite vocalizações são os jovens. Os mais maduros são circunspectos, como convém à idade -- mas, quando "falam", suas vocalizações geram muito mais respostas, proporcionalmente, nos macacos mais jovens.

Ah, e os mais novos também esperam a vez para "falar". Isso é que é sociedade à moda antiga.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 00h03

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Gripe suína, os insetos e o tempo

O ritmo aqui da redação nem sempre nos permite aproveitar 100% os recursos jornalísticos pra uma reportagem. Na que fiz para a edição de hoje da Folha, por exemplo, pedi a opinião do biólogo Atila Iamarino, doutorando da USP e autor do ótimo blog Rainha Vermelha, sobre um novo método para a produção de vacinas de gripe, usando células de inseto para cultivar a imunização, mas a resposta dele só me alcançou quando eu já deixara o jornal. Eis o que ele opinou:

"Tá demorando pro pessoal vir com novas técnicas para a produção de vacinas contra a gripe, por mais prático que cultivar o vírus em ovos seja, existem vários probleminhas, como escalabilidade do processo, fornecimento contínuo de ovos limpos, crianças com alergia a ovo e o principal: o desenvolvimento de um vírus híbrido que cresça bem em ovos, que foi um verdadeiro gargalo este ano.

Ouvi falar desse projeto em junho, e acho bem promissor, células de inseto relativamente fáceis de cultivar, tem menos problemas de contaminação do que células de mamíferos (temos menos vírus em comum) e baculovírus é um vetor que induz a expressão de muitas proteínas, então imagino que renda muitas doses. Além do mais, o processo não depende de um vírus híbrido, no momento em que um vírus novo for descoberto e sequenciado, já é possível sintetizar o gene para produção de antígenos sem o problema de mutações ocorrerem no vírus cultivado (em ovos isso precisa ser monitorado constantemente).

Já ouvi falar sobre a produção de vacina de Influenza em células vegetais também, mas não conheço o processo de uso do baculovírus e em célula vegetal o suficiente para poder comparar."

Escrito por Reinaldo José Lopes às 16h06

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Vulcão ameaça macacos em extinção no Congo

Os macacos da República Democrática do Congo não têm mesmo sossego. Além da caça predatória, os animais enfrentam agora a erupção do vulcão Nyamulagira, um dos mais ativos do mundo.  Desde o último sábado (2), ele despeja rios de lava sobre o Parque Nacional de Virunga, na parte oriental do país. A reserva, a  mais antiga da África, é o habitat de espécies ameaçadas, como chimpanzés, okapis e gorilas-das-montanhas.

A situação é especialmente crítica para os chimpanzés do grupo Tonga. Antes mesmo da erupção, restavam menos de 40 exemplares no parque.

Por causa do conflito armado entre milícias e forças do governo, que já dura mais de uma década, não existem dados recentes sobre a população das espécies do parque. "Nós sabemos que os animais estão lá porque conseguimos ouvi-los", afirmou o diretor da reserva de Virunga, Emmanuel de Merode, em declaração ao  jornal "The Independent".

Os seres humanos das redondezas estão com mais sorte. Segundo oficiais do parque, a lava não deve atingir os assentamentos mais próximos. Na penúltima erupção do Nyamulagira, em 2002, a cidade de Goma, ao norte do lago Kivu, ficou encoberta com os sedimentos vulcânicos.

(GIULIANA MIRANDA)

Escrito por Equipe do Laboratório às 18h41

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Você é a ovelha negra da família

O jipe-robô Spirit é uma espécie de Chevette velho espacial. Só dá problema, é impressionante. Mas continua na ativa.

Começou a falhar cedo: poucas semanas depois de pousar no solo marciano em 2004, parou de transmitir informações direito para a Terra. À distância, os engenheiros da Nasa deram um jeito de arrumar.

Depois disso, já encalhou na areia, desencalhou, viu uma das suas rodas parar de funcionar (tem seis), vive tendo amnésia e vez ou outra assusta os cientistas dando reset sozinho.

Agora está encalhado novamente e, dizem os cientistas, talvez não consiga sair do lugar nunca mais. De qualquer forma, Spirit chegou ao seu sexto ano em Marte. Se você pensar que ele foi concebido para uma missão de três meses, já está bom demais, não?

A maior crueldade que se pode fazer com Spirit é compará-lo o seu robô-irmão Opportunity, que chegou a Marte só três semanas depois dele e deu muito menos dor de cabeça. O irmão, aliás, foi o primeiro a enviar para Terra informações de que Marte teve um passado molhado.

Mas isso não quer dizer que Spirit seja a ovelha negra da família, que só dá trabalho e não ajuda em nada. Talvez tenha sido só uma questão de sorte. Opportunity pousou em um lugar para geólogo nenhum botar defeito, uma região cheia de coisas a descobrir. Já Spirit foi cair em um canto mais sem graça do planeta vermelho, fazer o quê?

Para achar algo interessante, Spirit foi obrigado a encarar ladeiras grandes, subir montanhas. Aí não há robô, por mais bem disposto, que aguente.

De qualquer forma, mesmo que fique parado, Spirit poderá continuar enviando informações sobre o local onde está agora, dizem os cientistas. Enguiçou mas não morreu, portanto.

Jipe-robô como o Spirit e o Opportunity (foto de Robyn Beck, da France Presse)

(RICARDO MIOTO, com Associated Press)

Escrito por Equipe do Laboratório às 22h56

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De volta para o passado

Svante Pääbo, o sueco de nome impronunciável que é o czar mundial da arte de obter DNA antigo, aprontou mais uma. Em artigo na revista científica "Current Biology", ele e colegas anunciam ter conseguido amostras de material genético de um dos mais antigos europeus da espécie humana moderna -- um Homo sapiens que viveu há uns 30 mil anos em Kostenki, oeste da Rússia.

À primeira vista, alguém poderia dizer que Pääbo e companhia já fizeram coisas mais impressionantes. Pelo que sabemos, eles estão a ponto de divulgar o genoma COMPLETO dos neandertais, um feito tecnológico que ninguém julgava possível até poucos anos atrás. Do humano moderno de Kostenki eles só conseguiram recuperar o mtDNA, ou DNA mitocondrial, oriundo das mitocôndrias, as usinas de energia das células. E mtDNA é a carne de vaca do DNA antigo -- é relativamente bem mais fácil obtê-lo, porque o bichinho está presente em numerosas cópias em cada célula.

Mas as aparências enganam. A questão é que é tão fácil contaminar uma amostra antiga com DNA dos pesquisadores, ou de visitantes de museu, ou de qualquer outro sujeito atual, que fica quase impossível saber, no caso de um humano anatomicamente moderno, se o DNA é dele ou de pessoas de hoje.

Pääbo e companhia desenvolveram um método que leva em consideração, entre outras coisas, o tamanho dos fragmentos de DNA (grosso modo, quanto menores eles forem, mais antigos serão, já que a molécula vai virando picadinho com a passagem do tempo) e certas alterações químicas sistemáticas nas amostras antigas, que conduzem a trocas nas letras químicas do DNA.

Com isso, eles dizem que o mtDNA que obtiveram é, com razoável grau de certeza, do indivíduo de Kostenki. O mtDNa foi classificado no grupo U2, relativamente raro, mas ainda presente na Europa, na Ásia e no norte da África.

Se a técnica realmente passar a valer e for refinada, vai ser mais fácil tentar desvendar enigmas cabeludos, como a relação sempre controversa entre humanos modernos e neandertais ou a maneira como o povoamento da Europa por agricultores aconteceu.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 23h02

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PERFIL

Claudio Angelo Claudio Angelo, 33, é editor de Ciência da Folha. Jornalista formado pela Universidade de São Paulo, cobre ciência e ambiente desde 1998. É autor de "O Aquecimento Global" (Coleção Folha Explica, Publifolha, 2008).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 34, é repórter de Ciência da Folha. Jornalista formado pela Universidade de São Paulo, cobre ciência desde o ano 2000. Foi repórter da revista "Galileu" e editor-assistente da "Scientific American Brasil".

Eduardo Augusto Geraque Eduardo Augusto Geraque, 36, é jornalista e biólogo. Repórter de Ciência da Folha, é mestre em oceanografia e fez doutorado em jornalismo e ambiente pelo Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo, onde estudou a poluição do ar de São Paulo e do México.

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 30, é repórter de Ciência da Folha, onde começou a cobrir o tema em 2001. É formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa na mesma universidade. Foi editor-assistente da revista "Scientific American Brasil" e repórter e colunista do portal "G1".

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