Blog de Ciência

Laboratório

 

O casamento da ciência com a educação

A posse coincidentemente conjunta dos novos ministros de Ciência, Marco Antonio Raupp, e de Educação, Aloizio Mercadante, nesta terça-feira em Brasília acabou promovendo um casamento de duas áreas correlatas que seguem em pastas distintas no governo federal.

 

Sabe-se que não se faz pesquisa sem ensino e vice-versa. A ciência precisa da formação de pesquisadores -- o que acontece nas universidades. E a própria ciência, especialmente no contexto brasileiro, também acontece nas universidades. O docente da universidade é cobrado e avaliado por suas pesquisas. Os dois assuntos estão completamente ligados.

 

Mas ao colocar ciência e educação em caixinhas separadas, o governo deixa universidades e Capes, instituição que as avalia, no guarda-chuva da MEC e agências de fomento à ciência, como o CNPq, sob a aba do MCTI (Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação).

 

O próprio Mercadante sabe que essa divisão é complicada. No final de 2011, ainda ministro de Ciência, ele tentou puxar universidades e Capes para o MCTI. Ao ficar sabendo que iria para a pasta de educação, claro, desistiu da ideia.

 

Raupp, sucessor de Mercadante no Ministério de Ciência, parece não estar disposto a tirar do colega de governo (e padrinho) a parte do MEC que mais dá certo: o ensino superior.

 

“O casamento entre ciência e educação ficou ainda mais claro agora que darei continuidade às políticas do atual ministro de Educação na pasta de Ciência”, disse Raupp na sua posse em Brasília, sob olhar orgulhoso de Mercadante (que tomava posse no mesmo dia).

 

A própria presidente Dilma Rousseff falou sobre o casamento na cerimônia que deu posse aos dois novos ministros -- e que contou até com a presença do ex-presidente Lula. “Ciência e educação são assuntos inseparáveis”, disse a madrinha Dilma, que escolheu os dois nomes.

 

Agora é a vez das testemunhas do casório acompanharem quanto tempo vai durar a união -- e se a união será efetiva -- depois dessa doce lua-de-mel.

 

Escrito por Sabine Righetti às 11h26

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Criacionista, diz-me com quem andas


Dupla criacionista distribui material de campanha num congresso político em Washington

Caros leitores. Vou confessar uma coisa. Estou preocupado com o criacionismo. De verdade. Até pouco tempo, eu costumava considerar esse movimento ideológico como um fenômeno anglo-americano com poucos reflexos no Brasil. Achava que, sobretudo, era algo que não representava ameaça à educação científica no país. Talvez eu esteja errado.

Confesso, me surpreendi com um "tuitaço" que conseguiu colocar a etiqueta #criacionismo entre os tópicos líderes no Twitter nesta sexta-feira. Não acho que o Ministério da Educação jamais será louco o suficiente para a incluir pregação religiosa nas aulas de ciência por causa disso. O sucesso do criacionismo em se disseminar no Brasil, porém, é um sintoma do fracasso das escolas em ensinar biologia adequadamente. A propaganda criacionista brasileira, reconheçamos, soube aproveitar uma brecha para seduzir boa fatia do público com uma idéia errada.

Quem acha que eu vou usar esse espaço para escrever um libelo ateu, porém, está enganado. O que os criacionistas sempre tentam esconder, na verdade, é uma constatação filosófica que torna suas idéias incoerentes: a teoria da evolução de Darwin é, sim, compatível com a hipótese da existência de Deus.

Aquilo que Darwin abalou foi uma interpretação literal das narrativas da Bíblia. Alguns teólogos, mesmo antes do século 18, já vinham lendo as escrituras sagradas de maneira diferente, realçando o valor mítico e metafórico dos textos, sem tentar convencer a todos que os dinossauros se extinguiram porque não cabiam na Arca de Noé. Uma leitura mais inteligente e aberta da Bíblia permite hoje que muitos teístas tenham uma visão de Deus que não requer o descarte de uma das teorias mais sólidas e comprovadas da história da ciência, a origem das espécies por meio da seleção natural.

Hoje, quem está aderindo ao criacionismo por motivo de fé religiosa possivelmente não leva em conta que esse movimento não é invenção dos apóstolos de Jesus, mas sim de um ultraconservadorismo político puritano tentando agregar poder nos EUA e na Inglaterra. Demarcar território nas escolas fazendo lavagem cerebral com crianças em idade de aprender biologia básica foi uma das formas que esse grupo encontrou para espalhar sua palavra em meados do século 20.

É difícil enxergar esse contexto no Brasil, um país onde o criacionismo chegou como chiclete com banana, uma idéia meio fora de lugar. Na década de 1990, o ateísmo militante é quem começou a pronunciar o nome do problema. Na época, ao insistir na exibição de provas para a "inexistência" de Deus, autores como Richard Dawkins perderam o respeito de filósofos e, suspeito, contribuíram mais para disseminar o criacionismo em terras sulamericanas do que para erradicá-lo.

Aqui nos EUA, porém, o programa ideológico criacionista ainda é bem claro, e não deixa lugar para dúvidas. Recentemente testemunhei isso de maneira viva, e consigo até perdoar Dawkins por ter tanto ódio no coração.

Alguns meses atrás, a sorte do ofício me levou a um evento patrocinado por simpatizantes do Partido Republicano americano em Washington. Batizado de "Values Voter Summit", o encontro tinha a finalidade de reunir eleitores que buscam candidatos em sintonia com seus valores morais.

Chegando lá, levei menos de um minuto para descobrir de que se tratava a convenção: um desfile de idéias ultraconservadoras, preconceitos e propostas autoritárias defendidas pela direita da direita dos EUA. Lotando um dos saguões do hotel, diversos expositores distribuíam material de campanha contra o planejamento familiar, pedindo a proibição do casamento gay, defendendo leis anti-imigração, atacando o direito ao aborto, sugerindo mais guerras contra países islâmicos, querendo menos controle para o porte de armas e até criticando o direito de se falar línguas estrangeiras em solo americano.

Não poderiam faltar a uma festa dessas, claro, os criacionistas.

Em uma das mesas expositoras, dois simpáticos senhores abordavam os curiosos que passavam à deriva para pedir contribuições. Estavam arrecadando fundos para sustentar uma "bolsa de estudos" criacionista em Pittsburgh, Pensilvânia, um dos quartéis-generais do movimento. O "Values Voter" era também, claro, uma ótima oportunidade de atrair voluntários que desejassem se tornar "educadores" criacionistas.

Para quem chegasse ao evento com a idéia de que o criacionismo é um movimento espontâneo sem interesses políticos, porém, os expositores já deixavam seu recado. Exibiam broches com o logotipo de campanha de Rick Santorum, pré-candidato a presidente que é o novo queridinho da extrema direita republicana dos EUA.

Não tenho a intenção de discutir aqui se as idéias defendidas em círculos ultra-reacionários americanos estão certas ou erradas. Só queria mostrar que é esse o pacote ideológico onde o criacionismo prosperou e se encontrou. Ele foi moldado para se encaixar ali. Acho justo que os simpatizantes desse movimento exportado para o Brasil saibam o que estão comprando.

Escrito por Rafael Garcia às 23h24

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Pontos, rankings e dinheiro

“Nós não ligamos para os rankings universitários internacionais. Mas queremos subir de posição”, contradisse-se Thimios Zaharopoulos, da Universidade Park, dos EUA, durante o "World Universities Forum" que estou acompanhando em Rodes, na Grécia.

A instituição empresarial fundada no século 19 de fato não aparece na lista das melhores do mundo do THE (Times Higher Education), que tem instituições norte-americanas no topo e a USP entre as 200 primeiras.

“O problema é que os rankings não contemplam as universidades voltadas ao mercado de trabalho”, justifica Zaharopoulos. E ele tem razão: boa parte da nota que uma instituição de ensino superior recebe em um ranking importante como o THE diz respeito à pesquisa científica realizada pela universidade.

Outros rankings internacionais concorrentes ao britânico THE, como o Ranking de Shangai, levam os indicadores de pesquisa ao extremo e pontuam mais quem publica em revistas como “Science” e “Nature”, de altíssimo impacto.

“Eu estive na China há dois meses. Eles estão obcecados pela ideia dos rankings”, disse Zaharopoulos. Sim, mas os EUA também estão. Subir de posições numa listagem de universidades significa mostrar a investidores e doadores que a instituição vale a pena.

Significa também atrair os melhores cérebros para a universidade -- o que também acaba resultando em mais dinheiro.

A perseguição pela melhora nos rankings está claramente permeando as políticas de ensino superior atuais. Sabe-se, por exemplo, que um artigo científico publicado em parceria internacional tem pelo menos o dobro de impacto se comparado a um artigo com cientistas de um único país. Isso porque a quantidade de pessoas -- e de conexões -- que podem acessar o texto aumenta quando a ciência é feita além das fronteiras geográficas.

As universidades grandes estão investindo cada vez mais na internacionalização do seu ensino superior. A Universidade de Chester, no Reinod Unido, por exemplo, aumentou em 100% a presença de alunos estrangeiros nos últimos dez anos. E ainda quer mais. “Estamos estudando políticas para atender melhor esses estudantes”, disse Gautam Rajkhowa, que coordena o programa de MBA em Chester.

Ele próprio é “fruto” da internacionalização. Indiano, acabou ficando no Reino Unido ao concluir a pós-graduação. Hoje, China e índia têm, juntos, quase 4 milhões de estudantes de pós-graduação fora do país. Desses, 400 mil estão no Reino Unido.

 

 

Escrito por Sabine Righetti às 09h09

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

A ética que não se ensina na universidade

Voltei das férias “com a botina”, como se diz em uma das minhas terras. No primeiro dia já viajei para Rodes, na Grécia, onde estou acompanhando a quinta edição do World Universities Forum.

O fato de a conferência acontecer na Grécia, país que está afundando em uma crise econômica nunca vista por aqui, traz um tempero amargo à discussão. A começar pela observação de que há apenas um especialista grego dentre os cerca de 60 experts de todo o mundo que estão por aqui. “Isso é sinal da crise”, disse o reitor da Universidade do Egeu (em grego, pois ele não fala inglês). Bom, mas escreverei sobre a situação do ensino superior da Grécia depois. Aguardem!

O que quero dividir com vocês agora é um debate que tem aparecido em quase todas as sessões da conferência: o ensino de ética aos alunos de graduação e de pós-graduação de universidades públicas e privadas.

Chamo atenção ao debate porque o tema pipocou nos corredores acadêmicos do Brasil no ano passado, especialmente depois de uma série de reportagens feita pela Folha de S.Paulo sobre plágio e fraude científica nas principais universidades do país (veja algumas ao final desse texto).

O assunto chegou às agências de fomento, que lançaram seus respectivos manuais de ética no segundo semestre do ano passado -- primeiro a Fapesp (veja aqui) e depois o CNPq (e aqui).

Glaucius Oliva, presidente do CNPq, chegou a mencionar que “obrigaria” os programas de pós a terem cursos de ética. Seria mais ou menos assim: o programa que não tivesse uma disciplina de ética não receberia bolsas do CNPq. Mas a proposta ainda não saiu do papel, talvez porque as universidades, autônomas, reagiriam mal à obrigatoriedade do ensino. Oliva mexeria em um vespeiro...

Mas, de acordo com Michael Friedman, da Universidade de Michigan, que está aqui na conferência, a ética na pesquisa científica deve ser, sim, ensinada na universidade. Ele é especialista no assunto e falou por mais de uma hora sobre ética na ciência.

RECOMENDAÇÕES

Friedman definiu que ensinar “ética” é passar aos alunos alguns “guidelines” de como a atividade científica deve ser feita. Isso não tem nada a ver com o ensino de moral, que tem base na crença de um conceito (por exemplo, a moral cristã). A formação da moral está diretamente ligadas às influências que a pessoa recebe ao longo da vida, da família, amigos e também da imprensa. Mas ética deve ser ensinada.

“E aprender ética na ciência significa agir de maneira ética?”, perguntei ao Friedman. Não. A simples disciplina de ética não garantiria cientistas que não fazem fraudes nas nossas universidades. Mas evitaria o “eu não sabia que não podia copiar a tese do meu colega” e possibilitaria a criação de sistemas de punição aos fraudadores.

Hoje há no Brasil cientistas fraudadores que passam em concursos públicos com artigos plagiados e que não perdem o posto mesmo depois dos trabalhos serem retratados. E quando se fala sobre isso, a academia tende a se enfurecer. “Por que vocês não escrevem sobre o que a ciência tem de bom?”, perguntaram-me uma vez. Talvez porque a ciência não tenha apenas coisas boas...

 

Químico da Unicamp é acusado de fraudar 11 estudos científicos

http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/896418-quimico-da-unicamp-e-acusado-de-fraudar-11-estudos-cientificos.shtml

 

Aranha com nome de juiz (o formato da história em quadrinhos não pode ser visualizado na versão online)

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1109201101.htm

 

Entidade faz curso com condenado por plágio

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2008201102.htm

 

 

Escrito por Sabine Righetti às 11h59

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

John Ellis, físico de primeira e dramaturgo de quinta


Ellis em sala do departamento de física teórica do Cern (Foto: Claudia Marcelloni/Cern)

Com ajuda de infiltrados, descobri como foi a última festa de Natal no departamento de teoria do Cern, o laboratório que abriga o superacelerador de partículas LHC. Todo ano, o evento é marcado pela apresentação de uma peça de teatro escrita pelo físico John Ellis, que desta vez tinha motivos de sobra para fazer piada.

A obra do cientista-dramaturgo estava recheada de referências a problemas atuais de física teórica, apresentados em meio a tiradas maliciosas de duplo sentido, bem no estilo "A Praça É Nossa". Em alguns momentos os próprios atores ficaram constrangidos em palco. "Teatro amador" é um termo gentil para descrever a produção de 2011, na qual quase todo o elenco (cientistas e engenheiros de férias) entrou em cena com o texto nas mãos por não ter podido decorá-lo. Os personagens eram parodiados da série de histórias em quadrinhos "As Aventuras de Tintin". Na falta de um bom figurino, todos carregavam cartazes de identificação.

Uma das principais piadas do espetáculo de 2011 foi sobre a "quase-descoberta" do bóson de Higgs, partícula que segundo os teóricos explica a origem da massa. Ellis brinca com o fato de que, em dezembro, quando todos esperavam um anúncio positivo, físicos mostraram gráficos lineares onde duas curvas apenas "sugeriam" sem prova definitiva que a partícula estava sendo produzida no acelerador.

Na peça de teatro, o evento foi retratado por Fabiola Fabulosa (versão satírica da cientista Fabiola Gianotti, uma das chefes do Cern) apresentando o gráfico. "Tenho aqui duas protuberâncias para mostrar", diz. Logo depois, um físico teórico retruca olhando para os seios da moça: "Mas são muito pequenas!".

Outro trecho satirizava o laboratório italiano do monte Gran Sasso, onde partículas chamadas neutrinos, emitidas da Suíça pelo Cern, foram detectadas viajando acima da velocidade da luz —"descoberta" na qual nenhum teórico acredita. A piada foi apresentada por uma pesquisadora interpretando a ministra italiana da ciência, Mariastella Gelmini, que na vida real cometera a gafe de dizer que o governo construiu um túnel do meio da Itália até Genebra para realizar o experimento. (Neutrinos atravessam a matéria; não precisam de um túnel de 750 km para trafegar.)

Na peça, Mariastella ajuda um cientista a medir o Gran Sasso —Gran "Cazzo" no texto de Ellis— para saber se ele tem "o tamanho adequado" para o experimento.

Algumas piadas eram incompreensíveis para quem não era físico. Outras são impróprias para reproduzir neste blog, ou simplesmente não fizeram ninguém rir. Mas, mesmo constatando que Ellis é um dramaturgo de quinta categoria, não consigo deixar de admirar sua capacidade de ironia ao satirizar o esforço para detectar o bóson de Higgs, uma empreitada levada adiante por insistência dele próprio e de outros físicos.

Para quem quiser se aventurar, está aqui abaixo o link do vídeo peça, em inglês.

Neutrino Tintin na Terra do Gran C*zz*
Com John Ellis (de capacete verde, no centro) e grande elenco

Escrito por Rafael Garcia às 12h22

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Os acertos de "Planeta dos Macacos - A Origem"

Com muito atraso, finalmente consegui ver o novo "Planeta dos Macacos". (Sabe como é -- filho pequeno em casa não favorece muito as idas ao cinema, apesar das inúmeras alegrias que proporciona.)

Apesar da biotecnologia amalucada que figura proeminentemente no filme, a parte primatológica da ciência me pareceu um golaço. Pelos motivos a saber:

1)A sensação de PODER que o contato com um grande macaco causa nas pessoas. A veterinária interpretada por Freida Pinto diz que adora chimpanzés mas também tem muito medo deles, e é exatamente essa a sensação que o sujeito tem quando desfruta do privilégio de chegar bem perto desses bichos. Chimpanzés adultos, em especial machos, de fato têm algo de sobre-humano no andar, na musculatura, na agilidade e nos acessos de fúria.

2)A transição entre filhote e adulto que vemos no caso de Caesar. De fato, se alguma vez você cogitar ter um chimpanzé como mascote, além das considerações mais nobres de querer arrancar um membro de uma espécie ameaçada da natureza, considere que aquele bebê fofinho vai virar um Maguila com caninos afiados e três vezes a força de um homem adulto.

3)A imensa dificuldade de um macho adulto de se integrar a outro grupo. Nesse caso, aliás, o filme pegou leve: no mundo real, os chimpanzés do santuário de primatas provavelmente teriam matado Caesar. Chimpanzés são patrilocais, o que significa que fêmeas se transferem de um grupo pra outro; machos, nem pensar.

4)O gestual, a hierarquia social, a necessidade de mostrar submissão ou dominância diante de problemas "políticos".

Aliás, oportunamente, hoje os EUA anunciaram possíveis grandes restrições à pesquisa biomédica com chimpas. Boa libertação primata pra todos nós.

Escrito por Reinaldo José Lopes às 20h48

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Higgs, Deus, bóson e outros nomes


Imagem digital mostra colisão de partículas no LHC que pode ter gerado o bóson de Higgs (CMS/Cern)

Nas horas que se seguiram ao anúncio da quase-descoberta do bóson de Higgs, a tão procurada partícula elementar necessária para completar a teoria da física que rege o mundo microscópico, ouvi cientistas reclamando da "intervenção divina" na cobertura do evento.

Muitos não gostam do apelido que a mídia adotou para deixar essa entidade corpuscular mais sexy: a "partícula de Deus". Com razão, querem evitar que as pessoas pensem que a detecção do bóson de Higgs possa ser uma espécie de confirmação da existência do Todo Poderoso. Isso não faz o menor sentido, é claro, e por isso o nome preferido até agora é o oficial _uma referência a Peter Higgs, criador da teoria que descreve a partícula.

O que alguns cientistas não levam em conta é que esse apelido impopular não foi dado por nenhum jornalista impertinente, e sim por Leon Lederman, ganhador do prêmio Nobel de Física de 1988. Ele é autor de "The God Particle", livro que explica a teoria para o público leigo.

A piada que Lederman usa para justificar o nome é a de que foi proibido por seus editores de intitular o livro "The Goddamn Particle" (A Maldita Partícula). Mas a verdadeira inspiração para o título, explica depois, está num exemplo que ele encontrou em "um livro bem mais antigo": a Bíblia. E esse sacrilégio cometido pelo físico guarda uma analogia bem interessante.

O bóson de Higgs é um componente teórico fundamental para entender por que as partículas elementares conhecidas até agora tem massas tão diferentes umas das outras. Um elétron pesa até 200 mil vezes mais que um neutrino, e ninguém entende por quê. Essas partículas porém, devem interagir com o bóson de Higgs, que lhes confere a propriedade da massa. É possível então entender a partir dessa interação por que elétrons, neutrinos, quarks etc. são tão diferentes. Do contrário, seria preciso supor que a natureza conferiu propriedades aleatórias aos seus componentes mais fundamentais.

Como objetivo da ciência é construir uma descrição da realidade o mais compacta e coerente possível, não faz sentido imaginar que os componentes mais básicos da matéria e da energia sejam um zoológico de entidades totalmente diferentes umas das outras.

O Velho Testamento possui uma tentativa semelhante de explicar por que os povos falam tantas línguas diferentes e não entendem uns aos outros. Segundo uma passagem do Gênesis, quando os humanos eram um povo só com uma língua única, tentaram construir a Torre de Babel para atingir os céus e irritaram Deus com sua petulância. O que Ele fez então foi espalhar a humanidade pela Terra e fazer com que povos distintos falassem línguas diferentes. Dessa forma, não poderiam criar uma sociedade poderosa a ponto de se equipararem ao poder divino.

Se Deus foi usado como explicação para a humanidade ter línguas diferentes, diz Lederman, o bóson de Higgs seria a explicação para as partículas elementares terem massas diferentes.

Por alguma razão, em língua portuguesa convencionou-se traduzir o apelido do bóson como "partícula de Deus" e não "Partícula Deus", que seria a forma correta. Meu colega jornalista de ciência Igor Zolnerkevic, físico que costuma ler nossas reportagens com olhos afiados, supõe que "seria uma imagem bizarra demais a de um Deus em forma de partícula subatômica; o velhinho de barba é muito mais simpático."

Se a maioria dos cientistas não gosta de incluir Deus nessa história, Peter Higgs já disse que fica incomodado também de ver a partícula batizada apenas com seu nome. Para ele, é preciso fazer jus a outros físicos _François Englert e Robert Brout_ que também deram grandes contribuições à teoria. Me parece pouco prático batizar a partícula como "bóson de Englert-Brout-Higgs", porém.

De todo modo, se os físicos decidirem dar outro nome à partícula, talvez devam esperar um pouco. Mesmo tendo conseguido ver sinais otimistas neste ano no acelerador de partículas LHC, uma confirmação da existência do bóson de Higgs só deve sair em meados do ano que vem, quando o experimento tiver acumulado mais dados. Se por algum azar a partícula continuar se escondendo, toda essa discussão bizantina terá sido sem sentido.


PS. Aos distraídos que estão procurando o livro de Leon Lederman para comprar: ao que parece, ainda não há nenhuma tradução para o português. Cuidado para não adquirir "Partícula de Deus", lançado pela editora All Print. Este, da autoria de Breno Medeiros, é na verdade um livro de poesias com inspiração religiosa. Não sei se o autor é bom poeta, mas me parece que o intuito da obra não é descrever o bóson de Higgs. Melhor ir atrás do original de Lederman em inglês.

 

Escrito por Rafael Garcia às 13h40

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Nasa lança estação de rádio

Para a Nasa, rock e exploração espacial não são temas tão diferentes assim. A agência espacial americana acaba de lançar uma rádio na internet que junta os dois temas.

Batizada de “Third Rock” (Terceira Pedra) --devido à posição da Terra, que é o terceiro planeta rochoso a partir do Sol--, a rádio é transmitida a partir da base da Nasa, em Houston.

Vale lembrar que a música é algo muito presente nas missões espaciais. É com ela que os astronautas geralmente são acordados durante os voos e até em na estadia na ISS (Estação Espacial Internacional). Aliás, até os robozinhos mandados à Marte já usaram canções como despertador.

 

Crédito: Nasa/Divulgação

Além de rock tradicional, indie e alternativo, a estação também tem informações sobre as últimas descobertas da Nasa.

Para seguir o espírito do programa espacial, o repertório é basicamente de novos artistas. Segundo um comunicado da agência, o objetivo é justamente este: “explorar a música” e conhecer novos mundos.

O público-alvo da rádio são os jovens fãs de astronomia e tecnologia. Muito por conta disso, a Nasa já anunciou que será possível encontrar até anúncios de vagas nessas áreas durante a programação.

O projeto estará disponível em breve no aplicativo da Nasa para iPhone e Android, além do iTunes.

Para começar a escutar, é só visitar o endereço: http://www.thirdrockradio.net/

Escrito por Giuliana Miranda às 18h19

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Contabilidade criativa

(DURBAN) - No último dia 30, quando a rede de ONGs Climate Action Network desceu o pau no governo brasileiro por defender a reforma no Código Florestal que, no entendimento das ONGs, equivalerá a uma "bomba de carbono" pelo desmatamento que acarretará, uma fonte do governo me ligou para expor um raciocínio insofismável: o código, na verdade, ajudará o Brasil a *cumprir* sua meta de redução de emissões por desmatamento, em vez de impedir o cumprimento da meta, como dizem os ambientalistas.

Heim?

Muito simples, prosseguiu a fonte: a versão do relatório do código que deverá ser votada nesta terça no plenário do Senado prevê a recuperação de parte das áreas de preservação permanente (APPs) e reservas legais desmatadas, coisa que o código atualmente em vigor não faz (porque ninguém cumpre a lei, completo eu). Portanto, teremos milhões de hectares em restauração, o que equivaleria a potenciais bilhões de toneladas de CO2 sequestradas pelas árvores em crescimento e fixadas na biomassa. O governo estaria fazendo as contas.

Na hora enxerguei o erro conceitual e apontei à minha fonte o ato de desonestidade intelectual desse tipo de contabilidade. Afinal, as nossas metas de redução de emissões por desmatamento incidem sobre fluxo, sobre o estoque de florestas em pé, e não sobre passivo ambiental (o Brasil, registre-se, sempre foi absolutamente contra incluir regeneração de florestas no Redd, o mecanismo de redução de emissões por desmatamento negociado pela ONU).

A influência do Código Florestal sobre as nossas metas, portanto e infelizmente, se dá em mão única; mesmo que o texto previsse reflorestar 100% do Brasil, da avenida Paulista ao calçadão de Ipanema, essa regeneração não poderia contar para as nossas metas se de outro lado florestas continuassem desprotegidas e tombando.

É bom lembrar que o código atual tem previsões muito mais rigorosas de recuperação de passivo, que só não foram cumpridas porque os ruralistas resolveram mudar a lei no momento em que o então ministro Carlos Minc baixou um decreto determinando seu cumprimento.

Pois o governo foi adiante na sua contabilidade maluca. Botou de porta-voz da sandice o pobre secretário nacional de Mudança Climática, Eduardo Assad, um cientista brilhante e honesto que jamais cairia sozinho numa esparrela dessas. Na sexta-feira, Assad apareceu nas páginas do "Estado de S. Paulo" cravando em 8 bilhões de toneladas de CO2 o sequestro promovido pelo novo Código Florestal, longa vida a ele. Horas depois, aqui em Durban, o Brasil ganhava seu primeiro troféu Fóssil do Dia em vários anos. Merecido.

Mal comparando, é como dizer que o governo não tem como fiscalizar o tráfico de cocaína, portanto está legalizando a cocaína e dizendo que cocaína faz bem para a saúde porque os impostos que os traficantes *toparam* pagar após uma longa negociação com o governo (veja a inversão de valores aqui) serão em parte aplicados no SUS.

Escrito por Claudio Angelo às 20h09

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Transparência: o caso do Tylenol

Sempre abrimos espaço para críticas e visões diferentes, e no caso da nossa recente reportagem sobre os riscos do paracetamol (Tylenol) não é diferente. Confira abaixo.

-----------

Com relação ao estudo publicado no "British Journal of Clinical Pharmacology", edição de dezembro de 2011, sobre o risco do uso excessivo de paracetamol, divulgado neste jornal no dia 30/11/11, a Johnson & Johnson, fabricante de TYLENOL®, cujo principio ativo é o paracetamol, informa que centenas de estudos demonstram que esta substância é segura quando utilizada de acordo com as doses e freqüência indicadas na bula do medicamento.  

O uso do TYLENOL® é indicado para a redução da febre e alívio temporário de dores leves a moderadas. Conforme registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a dose máxima diária permitida é de 4 gramas para adultos e 75 miligramas por quilo em crianças. Em caso de consumo acima do indicado na bula, é importante que os pacientes procurem a orientação médica.  

A Johnson & Johnson do Brasil tem o compromisso de oferecer aos consumidores medicamentos seguros e eficazes e recomenda que todos os consumidores leiam a bula do produto para não excederam a dose de segurança. 

Atenciosamente, 

Eli Marcelo Lakryc, Diretor Médico

Escrito por Reinaldo José Lopes às 16h14

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Entre chimpanzés e vírus

Em reportagem no último domingo, escrevemos sobre um assunto polêmico sem revelar opiniões pessoais. Refletimos sobre a disputa legislativa que vem ocorrendo no último país do mundo a usar chimpanzés como cobaias: os Estados Unidos. No texto, eu e Reinaldo José Lopes, meu amigo/coautor/editor, procuramos escrever sem coagir o leitor a tomar determinada posição sobre o assunto.

Reinaldo se manifestou depois, neste blog. Eu declaro posição agora, mas tomando o lado oposto: sou favorável ao uso de chimpanzés como cobaias, em alguns casos.

Acho que o uso de qualquer cobaia deve ter muitas restrições, sim, e deve sempre ser contrabalanceado com expectativas de benefícios para a sociedade. Também deve ser evitado quando há alternativas, e os animais usados devem ser tratados da melhor forma possível. Contudo, uma proibição total e inegociável de pesquisas médicas com chimpanzés não me parece uma boa decisão.

Sou contra touradas, rodeios e circos. Abomino o uso de animais para testes de cosméticos. Acho zoológicos uma coisa anacrônica e posso levantar uma série de questionamentos válidos contra o consumo de carne. Mas o debate sobre o uso de chimpanzés como cobaias envolve uma escolha muito mais difícil do que qualquer um desses assuntos.

Esses macacos são o único meio viável, por enquanto, de testar vacinas para algumas doenças que podem matar humanos. Por outro lado, chimpanzés têm diversas qualidades mentais semelhantes às dos próprios humanos, têm parentesco evolutivo próximo com nossa espécie e são extremamente vulneráveis a sofrimento físico e psicológico.

Isso nos coloca em um dilema ético que não têm resposta absolutamente certa ou errada. Ele requer que uma sociedade faça uma escolha arbitrária, de maneira consciente, e assuma suas consequências. Para ilustrar como essa decisão é difícil, uso duas questões como exemplo:

a) Devemos usar chimpanzés como cobaias se tivermos garantia de obter em troca a vacina eficaz contra uma infecção sem cura que mata 3 milhões de pessoas por ano?

b) Devemos usar chimpanzés como cobaias se tivermos 50% de chance de obter a vacina contra uma doença crônica, de cura difícil, que mata uma parcela dos infectados?

Quem acredita que vidas humanas devem ser sempre postas em primeiro plano responderá sim à questão a) sem titubear. Mas a questão à qual temos de responder como sociedade, na realidade, se parece mais com b).

Os chimpanzés não se prestam a testes de vacinas contra o HIV. Eles são muito úteis, sim, nas pesquisas de vacinas contra a hepatite C. É uma doença menos grave, mas que afeta 3% da população mundial e pode, em alguns casos, levar à morte por cirrose e complicações.

Ainda assim, estamos pisando em território incerto aqui. Não sabemos se o uso de macacos é um pré-requisito para desenvolver a vacina contra a hepatite C. Testá-la em humanos com segurança talvez seja difícil demais. Também não saberemos se somos capazes de criar tal vacina, com ou sem uso de chimpanzés, até que alguém o faça.

Existem muitos motivos para levar a crer que a proibição do uso dessa espécie como cobaia retardaria e reduziria as chances de os cientistas criarem a vacina. Não sabemos se seria uma redução significativa.

Em meio a tantas incertezas, porém, existe um cenário possível, no qual a proibição do uso de chimpanzés em pesquisas médicas teria um custo alto: um custo em vidas humanas, sobretudo em países pobres.

Por essa última razão, acredito que a permissão do uso de chimpanzés como cobaias seja a decisão correta, por enquanto, no caso das pesquisas com hepatite C. Talvez algumas outras doenças requeiram o mesmo, mas serão poucas. Ninguém se sentiria bem ao tratar um animal com tantas qualidades humanas como se fosse um camundongo.

Conheci vários chimpanzés enquanto estava colhendo informação para a reportagem que publicamos no domingo passado. Cada um deles tem uma personalidade diferente, um rosto próprio, individualidade, consciência, inteligência e empatia. Mas eu não colocaria a vida de nenhum deles diante do drama de um doente hepático na fila para o transplante de fígado. É uma decisão arbitrária, e não há como ser de outra maneira.

Talvez, no futuro, olhemos para trás e vejamos que todo esse drama foi desnecessário, caso se invente uma técnica viável para testar vacinas de hepatite sem usar macacos. Pode ser que não. Talvez terá sido preciso escolher entre vidas humanas e vidas de chimpanzés. Nós, como sociedade, temos de tomar uma decisão agora sem saber exatamente em qual dessas duas situações estamos.

Todos os países que usavam chimpanzés em pesquisa médica séria vetaram a prática de uma década para cá. Os Estados Unidos podem vir a ser os últimos a fazê-lo, mas estão promovendo um debate público com os cientistas que estudam a hepatite C. Tentar isolar os americanos agora como vilões da história enquanto nos beneficiamos das vacinas de hepatite A e B -- testadas em chimpanzés no passado -- é hipocrisia.

Escrito por Rafael Garcia às 00h43

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Saindo de cima do muro

Tá, eu sei, eu sei. As pessoas querem, com razão, jornalismo isento, objetividade, nada de doutrinação quando abrem o jornal.

Entendo e respeito isso, mas tem horas que não dá para ficar em cima do muro. Como no caso dos grandes primatas usados em pesquisas biomédicas, como contamos eu e o Rafael Garcia (muito mais o Rafa do que eu, na verdade) em reportagem da última edição da Ilustríssima, nesta Folha (confira aqui, só para assinantes).

Tem também vídeo no YouTube resumindo rapidamente o debate (com o bônus de vocês poderem ver a minha cara feia, e o Rafa, bem mais gato).

Depois de ver e tocar chimpanzés com problemas mentais sérios (é, eles também os têm) depois da convivência estreita demais com humanos, acho muito, muito difícil defender a prática, ainda mais com benefícios biomédicos cada vez menores ligados a ela.

#prontofalei

Escrito por Reinaldo José Lopes às 21h59

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Impacto social da ciência: como medir?

Quando os gestores de ciência e tecnologia querem ver o quanto uma pesquisa é relevante, o principal número a ser analisado é a quantidade de vezes que o estudo foi citado por outros cientistas em todo o mundo.

 

Esse indicador, de impacto de produção científica, é bastante eficiente para mostrar a repercussão de um trabalho. Em geral, pesquisas publicadas em inglês em revistas bem conceituadas, que são muito acessadas por outros cientistas, têm impacto mais alto. Além disso, trabalhos feitos em parceria internacional também têm seu impacto aumentado em cerca de três vezes.

 

Mas o alto impacto de uma pesquisa revela a importância social de uma pesquisa? “Não”, responde Valeria Thiel, consultora da Elsevier. “Mas não temos ideia de como mensurar o impacto social de um trabalho.”

 

Thiel é uma das integrantes de um Fórum de Rankings Nacionais, que participei na semana passada na Bratislava, Eslováquia.

 

Para construir suas respectivas listagens de universidades, cada país escolhe entre cinco e sete principais indicadores que medem o quanto uma instituição pode ser melhor que a outra. O principal deles costuma ser o indicador de impacto de produção científica.

 

Dentre os países participantes (cerca de vinte, de várias partes do mundo), apenas a Rússia leva em conta o que chamou de indicador de “serviços sociais”. Seria uma maneira de medir o quanto o que a universidade faz reflete na vida das pessoas. Países como a China passam longe desse indicador (leia entrevista com um dos coordenadores do ranking de Shangai).

 

“Isso pode ser medido em pesquisas na área de saúde. Alguns estudos melhoram a qualidade de vida das pessoas. Mas e nas outras áreas?”, pergunta-se Evgeny Kniazev, da Universidade Nacional de Pesquisa, que fica em Moscou.

 

IMPACTO LOCAL

Vale ressaltar que algumas pesquisas podem ter impacto social local. Isso é comum nos campi das universidades do interior de São Paulo, por exemplo, onde grupos de estudos trabalham com pesquisa e extensão nas redondezas.

 

Esses trabalhos dificilmente têm interesse mundial, por isso as universidades concentradas nesse tipo de pesquisa perdem pontos nos rankings mundiais. Mas isso não significa que não sejam centros de excelência.

 

“O problema é que os rankings não são perfeitos”, resume Tom Parker, do Instituto de Políticas de Ensino Superior dos EUA. Concordo. Mas se todos incluíssem, de alguma maneira, um indicador de impacto social, ou ao menos pensassem em como fazê-lo, talvez as universidades ficassem menos inclinadas a estudar o que dá impacto em detrimento de tentar resolver um problema que está logo embaixo do seu nariz.

Escrito por Sabine Righetti às 12h59

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Novas evidências para a existência do pé-grande: falso positivo?

Uma das características mais importantes da ciência é seu poder de autocorreção, ou seja, aprender com os próprios erros.

Fora os erros científicos da esfera da ética na condução da pesquisa e sua publicação, bem expostos pela Sabine, sobre os quais temos muito o que aprender, existem erros mais básicos.

Ao testar uma hipótese, por exemplo sobre a existência de um fenômeno ou processo, podem ser cometidas duas classes de erros, os ditos Erro do Tipo I e do Tipo II. 

O Erro do Tipo I é o falso positivo, o vulgo "achar pelo em ovo". (É claro que se o ovo for de ornitorrinco não se configura erro...). Dar como certo algo que não existe é um dos erros mais comuns que os seres humanos vêm cometendo desde que começamos a nos perguntar sobre as coisas.

Isso deve ocorrer porque normalmente termos critérios muito vagos para confiar numa informação. Demorou muito historicamente para aprendermos que uma rede de evidências congruente é mais confíavel do que uma revelação mágica, uma tradição milenar ou a palavra de uma autoridade, e o processo de aprendizado ainda continua. Nessa categoria entram todas as mitologias, os Ovnis e todo tipo de ficção.
 
O Erro do Tipo II é o falso negativo, o famoso "se fosse uma cobra te picava". (É claro que, se fosse uma sucuri, iria preferir o estrangulamento mesmo). Negar a existência de algo real é um erro menos comum, dado o fato de que o ser humano é facilmente enganável. Essa negação geralmente tem motivações filosóficas subjacentes, como as pessoas que ainda acreditam que o planeta Terra é plano, que o homen nunca foi à Lua, que o aquecimento global não existe ou que o cigarro não faz mal também às pessoas ao redor do fumante.

Pelo fato de termos a tendência a acreditar em tudo de modo infundado, os cientistas em geral preferem "pecar" pelo excesso de ceticismo do que acreditar em tudo, principalmente em algo novo que mude o modo de vermos o mundo.

O ganhador do Prêmio Nobel em Química desse ano sofreu bullying ligado ao erro tipo II por parte dos colegas, entre eles o famoso Linus Pauling, que o acusaram de erro tipo I. No final ele estava certo, e o recebimento foi merecido, "tardou mas não falhou".

Já os ganhadores do Prêmio Nobel em Física foram laureados em menos tempo desde a "descoberta" da energia escura do que a dos quasicristais, e com comprovação bem menos contundente. Por isso, é normal que a enxurrada de ceticismo venha.

É importante perceber que o ceticismo é crucial para separar "o joio do trigo" e por consequência permitir o progresso no entendimento científico da realidade, já que críticas sempre levam a aprimoramentos e novas descobertas. Só se torna um problema quando é exagerado e fechado às evidências. E, dada a tendência universal de acreditar em qualquer coisa, é mais saudável sempre ter um nível de ceticismo mais elevado, até para não se deixar enganar.

A mais nova tentativa de virar o jogo de acusações Tipo I para Tipo II, ou seja de ser acusado de acreditar em algo que não existe para acusar os críticos de negarem a existência de algo real, vem da Rússia. E o assunto da vez é o pé-grande, também conhecido como yeti ou abominável homem das neves.

O administrador da região de Kemerovo, no sul da Sibéria, famosa por suas minas de carvão, afirmou que uma expedição encontrou "provas indiscutíveis" da existência da criatura misteriosa. A expedição, que teve como objetivo caçar pistas do pé-grande, teve participação de pesquisadores americanos, canadenses e de outros países. Eles foram convidados pelo administrador da região russa para compartilharem suas histórias e pesquisas em uma conferência sobre o tema.

Nas montanhas de Shoria, a expedição disse ter encontrado, além de pegadas do abominável homem das neves, um suposto local de repouso e várias marcas que ele deixa para delimitar seu território.

A região, esparsamente povoada, é o centro administrativo da bacia de carvão Kuznetsk, e várias vezes tentou promover o turismo com essa busca ao pé-grande. Como nesta propaganda de estação de esqui canadense que mostra o pé-grande pronto para esquiar.

 

 

Até aí tudo bem, mas eles querem ir além, esperam criar um centro de pesquisa especial para estudar o yeti na universidade regional e ainda criar um revista especializada nesses estudos.

Novamente vemos tentativas de legimitizar a existência científica de criaturas míticas, que a meu ver não perderiam o valor se tratadas como tal, criações humanas curiosas.

O importante é sempre tentarmos manter um balanço entre a mente aberta, que é o antídoto para o erro de Tipo II, e o senso crítico, defesa contra o erro do Tipo I.

(MARCO VARELLA)

Escrito por Equipe do Laboratório às 14h32

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Força estranha

'Big Bang', fotografia de P.S. Huttenberg


"Quando alguns de meus colegas se deparam com um resultado estranho, costumam pensar: está errado. É verdade que a maioria das coisas bizarras em ciência acaba mesmo se provando errada, mas não é uma boa coisa fechar os olhos e os ouvidos para elas completamente. Muitas coisas interessantes hoje, em algum momento, já pareceram ser estranhas."

Ouvi esta declaração ontem, partindo de Adam Riess, um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Física de 2011, quando conversava com o cientista por teleconferência junto de outros jornalistas.

Fiquei feliz por sua descoberta "estranha" _a energia escura, que impulsiona a expansão acelerada do universo_ ter sido premiada. Foi uma das poucas grandes reviravoltas científicas que ocorreram no tempo da minha geração, provavelmente a maior delas.

Muitas pessoas questionaram se não é um pouco cedo demais para premiar a descoberta de algo que ainda não se sabe o que é. A energia escura recebeu o apelido que tem justamente porque ainda não há teoria que a explique.

Na minha opinião, Riess, Brian Schmidt e Saul Perlmutter (que são astrônomos e não físicos teóricos) mais do que merecem o prêmio. Suas observações vêm se confirmando com o tempo a medida que mais dados são coletados sobre galáxias distantes, e é certo que vai sair da energia escura algo que será componente da próxima revolução da física. Por mais desconhecida que seja, essa força estranha representa 70% de tudo o que existe no cosmo.

Mas há quem prefira ser conservador. Meu amigo e colega Salvador Nogueira lembra que alguns físicos ainda temem que a energia escura possa se revelar "um artefato teórico irreal, criado apenas para explicar fenômenos pouco compreendidos".

Mesmo que isso aconteça, não será pouca coisa. Se a energia escura não existir, talvez seja preciso fazer correções na teoria da relatividade geral de Einstein, que permanece sólida há 96 anos. Isso, por si só, teria o potencial de colocar toda a física mundial de pernas para o ar. Ninguém quer ver isso, é claro.

O problema é que nenhuma das teorias candidatas a explicar o que é a energia escura tem feito muito progresso. A mais popular delas postula que essa força misteriosa seria uma entidade similar à que Einstein chamou de “constante cosmológica”. (Esta sim era um artefato imaginário, que o célebre cientista usou para evitar uma implicação natural de sua teoria: a de que o Universo está se expandindo.) Se a constante cosmológica existir de verdade, isso implica que até mesmo o vácuo _o “nada”_ possui uma energia própria, e estaria impulsionando a expansão do Universo. A ver.

Perguntei ao próprio Riess o que ele achava dessa teoria, e ele se declarou agnóstico. “Tento evitar ter uma teoria preferida”, disse. “Isso atrapalha o trabalho de fazer observações e relatar aquilo que você vê. Muitas pessoas acabam se casando com teorias, mas quando você é quem tem de coletar dados, o melhor é ter a cabeça completamente aberta.”

O astrônomo afirma que está agora trabalhando em técnicas para aprimorar as medidas sobre distâncias de supernovas, as explosões estelares que servem como "régua" para medir a distância entre galáxias. Isso pode ajudar teóricos a peneirar as melhores hipóteses vigentes para explicar a natureza da energia escura.

“Este é um problema rico e profundo que deve atrair os melhores físicos teoricos, astrofísicos e outros cientistas do mundo”, concluiu Riess. “Quem descobrir isso vai ganhar outro Nobel. Eu daria o meu próprio prêmio para quem conseguir.”

Escrito por Rafael Garcia às 22h55

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Reinaldo José Lopes Reinaldo José Lopes, 31, é editor do caderno "Ciência" da Folha. Formado em jornalismo pela USP, tem mestrado e cursa doutorado em língua e literatura inglesa.

Giuliana Miranda Giuliana Miranda, 23, é formada em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Rafael Garcia Rafael Garcia, 36, é colaborador da Folha em Washington (EUA).

Sabine Righetti Sabine Righetti, 30, é especialista em jornalismo científico pela Unicamp, mestre e doutoranda em política científica.

SITES RELACIONADOS

RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.