Suely e o plágio
Caros leitores, algum de vocês pode achar que é uma coisa óbvia, mas acho importante falar: não dá para engolir a defesa que a reitora da USP, Suely Vilela, apresenta para as acusações de plágio que pairam sobre seu grupo de pesquisa, relatadas ontem em reportagem de Eduardo Geraque.
Ao que parece, a história em que a magnífica se envolveu é um daqueles casos clássicos em que um pesquisador júnior apronta uma molecagem, copiando trechos de outros trabalhos, e os cientistas seniores coautores do estudo acusado acabam sofrendo as consequências por tabela, depois que a travessura é descoberta. Pode ser verdade, mas seria uma injustiça tão grande condenar Suely?
Qualquer cientista sabe que, em um estudo com número muito grande de autores, poucos são aqueles que escreveram mesmo algo ou atuaram efetivamente na pesquisa que originou ou trabalho. Muitos nomes entram por razões bem paroquiais e pouco “autorais”, como empréstimo de material para experimentação, cessão de dados etc.
É comum até mesmo o etéreo “empréstimo de prestígio”, quando se trata de um cientista mais conhecido. Um nome de fama no meio acadêmico abre muitas portas --sobretudo portas de revistas científicas cujos artigos são revisados por outros cientistas. E um cientista, como qualquer outro ser humano, é um animal político. Em troca de emprestar seu nome, o figurão engorda seus números de produtividade de artigos sem ter muito trabalho. Alguns cientistas acham isso errado, outros acham que faz parte do jogo. Tanto faz.
O problema é que essas particularidades do sistema de publicações científicas nunca são debatidas quando o que está em evidência é o mérito de um trabalho, e não sua desgraça. Se o plágio do referido estudo nunca tivesse sido descoberto, provavelmente o artigo serviria apenas para entrar na conta do cientista sênior, engordar os valores de suas bolsas de estudo e somar pontos em avaliações acadêmicas.
Não é possível dizer de antemão, claro, que isso é o que aconteceu no caso da reitora da USP. Abrir uma sindicância para investigar tudo foi a decisão correta. Se foi assim, porém, dá para entender por que Suely Vilela se esforçou tanto para tentar abafar outra denúncia de plágio, aquela contra o diretor do Instituto de Física, Alejandro Szanto de Toledo, episódio com algumas semelhanças. Talvez a reitora tenha tido algum tipo de empatia ao saber do caso. Talvez ela tenha pensado que para nós, pobres leigos financiadores da universidade pública, seria difícil entender que às vezes é preciso sujar um pouco as mãos para conseguir publicar um artigo.
É. Seria mesmo.
Escrito por Rafael Garcia às 16h00
Vigarice florestal
A Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados (curiosamente, de maioria ruralista) se preparava para votar hoje o projeto de lei de autoria do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) que prevê mudanças no Código Florestal. A votação, por enquanto, foi adiada. Apelidada de "Floresta Zero" pelos ambientalistas, a peça legislativa prevê, entre outras coisas:
- Anistia total para quem tenha desmatado além do permitido entre 1996 e 2006;
- Redução da reserva legal na Amazônia de 80% para 50%;
- Possibilidade de reposição de até 30% da área desmatada com uma monocultura exótica, o dendê.
A chamada "bancada da motosserra" tem pressa. No dia 11 de dezembro expira o prazo dado pelo presidente Lula aos produtores rurais que desmataram ilegalmente (na Amazônia, virtualmente todos) para regularizarem suas propriedades antes de começarem a ser multados. Pelo Código Florestal, uma lei de 1965 alterada por Medida Provisória em 2001, os proprietários são obrigados a preservar do corte raso (é permitida a exploração de madeira) 80% da área de suas propriedades na Amazônia. O setor rural nunca cumpriu a lei, esperando que a MP fosse ser derrubada um dia.
Os parlamentares ruralistas armam a machadada no momento em que é articulado dentro do governo um acordo para ampliar o prazo da regularização sem jogar fora a reserva legal. O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) considera a parada "70% resolvida", mas aparentemente se esqueceu de combinar com os russos no Congresso e no Ministério da Agricultura.
Tão grande é a confiança de Minc de que sua visão prevalecerá que não fez força para barrar o Floresta Zero na Câmara até agora. Na semana passada, enquanto manifestantes do Greenpeace esticavam correntes e tocavam sirenes na votação do projeto, que acabou adiada, assessores de Minc flanavam pela sala da comissão. Mal comparando, em seu tempo de ministra, Marina Silva evitou que a arapuca tucana do Senado passasse na Câmara.
Desastre ambiental à parte, a aprovação do Floresta Zero vai pegar mal para chuchu para Lula e suas ambições de expor sua candidata Dilma Rousseff no cenário internacional - e logo no campo que Dilma mais abomina, o meio ambiente, mas isso é outra história. Afinal, o governo já decidiu que a redução do desmatamento na Amazônia em 80% até 2020 será a maior e quiçá única bandeira que o país defenderá na conferência do clima de Copenhague, em dezembro. Lula escolheu Dilma para chefiar a delegação brasileira, transformando Copenhague numa espécie de prévia além-mar da eleição. E a überministra vai ter de rebolar para explicar aos gringos como é que o país diz no exterior que pretende reduzir o desmatamento quando aqui dentro deixa o correntão e a motosserra comerem soltos.
É bom ela ter uma explicação na ponta da língua, porque Marina, cuja imagem o governo tem se esforçado tanto para desconstruir nos últimos meses, estará na capital dinamarquesa pronta para denunciar a contradição.
Escrito por Claudio Angelo às 09h15
Governo adia, de novo, anúncio de meta de emissões
Por falta de consenso, o governo adiou para dia 14 (um sábado) o anúncio da meta brasileira de redução de emissões de gases-estufa. Twitteiros que estão na reunião do clima de Barcelona classificam a flopada de Dilma Rousseff como um "balde de água fria". Um anúncio brasileiro teria tido o poder de criar momento político na negociação em Barcelona, que começou a fazer água já hoje (veja post abaixo).
Mas aparentemente Nosso Guia e seus rapazes brilhantes do quartinho dos fundos, para usar uma expressão de Dr. Seuss (um escritor de histórias absurdas, portanto, referência adequada a esta situação) têm razões muito boas para manter as cartas brasileiras junto ao peito até Flopenhague, digo, Copenhague. O problema vai ser alguém pagar para ver e a meta ser um blefe.
Veja comunicado à imprensa que o Greenpeace acaba de soltar sobre o incidente em Brasília.
Brasília, 3 de novembro de 2009 - A decisão do governo brasileiro de adiar para o dia 14/11 o anúncio da posição e das metas de redução de emissões que o país levará para a Conferência do Clima, em Copenhague, é um passo para trás. O país, há menos de dois meses da reunião na Dinamarca, dá um sinal de falta de transparência diplomática, impedindo que os brasileiros e o resto do mundo tomem conhecimento de sua posição, e perde uma oportunidade importante de voltar a ser uma peça-chave nas negociações internacionais. Passa ainda uma sensação de bagunça e insegurança, como se só agora, em cima do laço, seus burocratas estivessem começando a planejar a resposta brasileira à crise climática.
Declarações do ministro Celso Amorim ao fim da reunião de hoje reforçam essas impressões. Amorim disse que o Brasil vai separar as questões nacionais das internacionais. É uma indicação de que o país pode chegar a Copenhague sem qualquer intenção de se comprometer com metas internacionais e apresentando metas nacionais que o governo não sabe como cumprir e, por isso mesmo, prefere não ver ninguém cobrando.
Escrito por Claudio Angelo às 15h59
Países africanos boicotam reunião da ONU sobre clima
Países do Grupo da África armaram um bloqueio coletivo das negociações sobre mudança climática em Barcelona hoje. Todas as reuniões sobre o Protocolo de Kyoto estão suspensas. O bicho está pegando.
Os africanos, com toda razão, dizem que não continuarão discutindo enquanto os países ricos (o chamado Anexo 1) não apresentarem metas de corte de emissões realmente ambiciosas, da ordem de 40% (estão em mais ou menos 16% hoje, com muita boa fé). Mais uma vez, o empata do jogo são os Estados Unidos, que se recusam a botar números na mesa, esperando o Congresso aprovar uma lei de mudanças climáticas que ninguém acha que sai antes da conferência de Copenhague.
A ver como a parada se desenrola.
Escrito por Claudio Angelo às 12h33
A Sombra e a Escuridão
"Trabalho de detetive" é um qualificativo usado até demais para definir pesquisas científicas, mas esta aqui merece. Uma equipe coordenada por dois biólogos da Universidade da Califórnia em Santa Cruz obteve novas e intrigantes pistas sobre os leões antropófagos de Tsavo, dupla de felinos que tocou o terror no Quênia em 1898 e inspirou o filme que deu nome a este post. Eles conseguiram estimar a proporção de carne de gente na dieta dos bichos durante seus últimos meses de vida.
Mais do que isso: o grupo de Justin Yeakel e Nathaniel Dominy conseguiu mostrar que o menu preferido pelos gatinhos foi mudando, provavelmente porque adotar humanos como prato principal foi uma medida de desespero. É que a região de Tsavo tinha passado por alterações ecológicas profundas no fim do século 19, com a redução da área de pastagens (onde viviam os herbívoros que os leões costumavam comer), epidemias que dizimaram o gado selvagem e doméstico e a chegada maciça de trabalhadores para a construção de uma ferrovia no local.
Pior ainda, a dupla de leões, conforme revela a análise de seus esqueletos, tinham dentes importantes quebrados, e um deles ainda sofria de um sério caso de "mordida errada". Aqui, sem trocadilho, vem o pulo-do-gato: o carbono e o nitrogênio da dieta são incorporados em ritmos diferentes no corpo. Os ossos guardam um registro da alimentação na escala de anos, enquanto o pelo é "feito" pela comida consumida em poucos meses.
Daí a possibilidade de perceber que, enquanto no começo da vida os bichos comiam herbívoros como antílopes, graças a seus ferimentos eles passaram a preferir bife de gente, a julgar pelas diferentes proporções de variantes de carbono e nitrogênio na dieta dos leões. A equipe arrisca até um número de pessoas devoradas: 35, bem menos do que a estimativa de 135 vítimas feita pelo matador dos leões, coronel J. H. Patterson.
O trabalho sairá na revista científica "PNAS".
Escrito por Reinaldo José Lopes às 16h22
Iommi, o roqueiro 'bioengenheirado'
Tony Iommi, um dos fundadores da banda heavy-metal Black Sabbath, já era o primeiro guitarrista biônico da história do rock. Agora, ao que parece, será também o primeiro músico "bioengenheirado".
Quando Iommi era metalúrgico, aos 17 anos, teve a ponta de alguns dedos decepados e resolveu o problema com uma solução caseira. Sozinho, derreteu garrafas de detergente e construiu suas próprias próteses de plástico para poder continuar tocando. A história se tornou uma lenda entre fãs que passaram a adolescência chacoalhando a cabeça ao som dos acordes de "Ironman", clássico da banda.
A solução funcionou por um tempo, antes de ser substituída por próteses profissionais. Nos últimos anos, porém, Iommi (que já completou 61 anos) tem sofrido de lesão por esforço repetitivo (a LER, problema osteomuscular que é a praga dos músicos).
Em entrevista hoje para a rádio BBC2, o músico revelou que está passando por um teste experimental que usa células-tronco para tentar regenerar a cobertura de cartilagem que ele perdeu no ossos de alguns dedos, consequência da LER. A história está contada no site do The Times, que ouviu alguns especialistas sobre o assunto. Iommi não revelou porém, quem é o grupo de pesquisa que está tocando a empreitada.
Seja pelo futuro da biotecnologia ou pelo passado do Rock, desejamos sorte.
Escrito por Rafael Garcia às 21h30
Devagar com a picanha
Tá, eu sei que vão me chamar de hipócrita de novo por tomar sopa de tubarão e restringir carne bovina, mas leiam este post de Paulo Barreto em seu excelente blog Amazônia Sustentável e digam se eu não tenho razão.
Barreto alerta para o fim do prazo, em janeiro, para que os fazendeiros do Pará apresentem o Cadastro Ambiental Rural, para provar aos frigoríficos que os bois que eles criam vêm de áreas ou que não estão sendo ilegalmente desmatadas ou que estão sendo regularizadas. Não sei se alguém ainda se lembra que as grandes cadeias de supermercados, como Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart, exigiram esse compromisso para poderem comprar carne da Amazônia, após uma ação do Ministério Público e do Greenpeace.
O pesquisador do Imazon constata:
"A principal atividade de adequação dos fazendeiros no curto prazo é o cadastramento ambiental. O número de imóveis cadastrados no CAR aumentou de cerca de 800 para 2.800 até a semana de 19 de outubro, segundo o portal da Sema. Entretanto, esse número é muito abaixo das cerca de 14 mil fazendas que existiriam no Estado (de um total de cerca de 100 mil imóveis rurais). Assim, ainda é incerto se a maioria dos fazendeiros vai mesmo se adequar. De qualquer forma, o MPF já divulgou que não ampliará o prazo para o cadastramento – ou seja, os fazendeiros têm até janeiro de 2010 para se cadastrarem. Para ver a evolução do cadastramento ambiental tente consultar o portal da Sema que disponibiliza o número de imóveis cadastrados no CAR e até mesmo o mapa do imóvel cadastrado (ver figura abaixo). Porém, nos últimos dias o portal muitas vezes tem estado indisponível."
Sem bifinho pra você, portanto.
Escrito por Claudio Angelo às 11h41
Já temos uma política de clima. Quase.
Após um ano e tralalá em tramitação, passou na Câmara, em votação simbólica, há menos de duas horas, a lei da Política Nacional de Mudança Climática. Quem viu o texto final diz que trata-se de uma lei mais, por assim dizer, "aspiracional", mas que propõe que verba do clima não possa ser contingenciada, ou seja, usada para gerar superávit primário, como a bufunfa da ciência e tecnologia (viu, Mantega?). Fora isso, zero menção a metas numéricas. Segundo João Talocchi, do Greenpeace, isso se deve a um acordo com o Executivo, que diz que é atribuição deste poder republicano estabelecer números para redução de gases-estufa.
Amanhã, quarta-feira, a Câmara vota a destinação de verba do petróleo para o combate à mudança climática. Vamos ver que bicho vai dar. Ambos os projetos vão em seguida ao Senado, depois à canetada do(a) presidente(a).
Escrito por Claudio Angelo às 21h06
Rumo a "Flopenhague"
Alister Doyle, correspondente ambiental da Reuters, decreta hoje que as negociações de clima das Nações Unidas em Copenhague, em dezembro, não devem chegar a um acordo global robusto, e que os negociadores internacionais, que até agora vinham bradando que "não existe plano B", já começam a admitir que talvez seja preciso convocar uma nova reunião para 2010. Ou seja, caminhamos para uma falha (em inglês, "flop") em Copenhague. Ou "Flopenhague", como uma ONG britânica estampou numa falsa capa do tabloide "The Sun" no mês passado.
"Eu diria que há 99% de certeza de que não chegaremos a um acordo ratificável em Copenhague", disse a Doyle Bill Hare, do Instituto de Pesquisa de Mudança Climática de Potsdam (Alemanha).
Hanne Bjurstroem, negociadora norueguesa que foi aplaudida na rodada de negociação em Bancoc ao anunciar a meta de 400% de reduções em 2020 em relação a 1990 de seu país, foi na mesma toada: "Não acredito que chegaremos a um acordo completo, ratificável e com valor de lei em Copenhague", declarou à Reuters.
No último sábado, na Folha, o embaixador argentino Raúl Estrada, "pai" do Protocolo de Kyoto, disse que seria melhor suspender Copenhague e reconvocar a reunião para meados do ano que vem, quando os EUA já terão aprovado no Congresso sua lei de mudança climática. Também na semana passada, até Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção do Clima, expressou ao jornal "Financial Times" sua desconfiança em relação a "selar o acordo" em Flop..., digo, Copenhague.
E pior aí vai. É cada vez mais grosso o coro dos que gritam que o rei está nu. E a culpa, mais uma vez, é da leniência do Congresso americano. O que dá motivo para rir por último ao pessoal do Pew Center on Global Climate Change, que desde 2007 vem dizendo que 2009 era uma data inviável para os EUA estarem prontos.
O consolo é que em 2010 a conferência do clima é no México - bem mais quente que a Dinamarca.
Escrito por Claudio Angelo às 17h32
CQD
Como queríamos demonstrar, cavalheiros. A Associated Press ouviu vários estatísticos e, surpresa, eles disseram que esse negócio de clima parando de esquentar ou até esfriando não se sustenta. Traduzo pra vocês os parágrafos relevantes:
"Num teste cego, a AP forneceu os dados de temperatura a quatro estatísticos independentes e pediu que eles procurassem tendências, sem dizer a eles o que os números representavam. Os especialistas não acharam verdadeiros declínios de temperatura ao longo do tempo. 'Se você olhar os dados e meio que tentar escolher uma microtendência dentro de uma tendência maior, essa técnica é particularmente suspeita', diz John Grego, professor de estatística da Universidade da Carolina do Sul. (...) O presidente Barack Obama abordou o assunto na última sexta, no MIT. Ele disse que alguns 'fazem afirmações cínicas que contradizem a evidência científica avassaladora em relação à mudança climática -- afirmações cujo único propósito é derrotar ou adiar a mudança que sabemos ser necessária.'"
Sem mais perguntas, Meritíssimo.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 20h41
Para o alto e avante

O alívio na redação foi unânime quando vimos a bela foto acima: meuDeusdocéu, não é um ônibus espacial sendo preparado para lançamento pela primeira vez desde quando? O Cambriano?
O bichinho em questão é o foguete Ares I-X, que vai ser testado pela primeira vez nesta terça, dia 27, a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. O objetivo é prepará-lo para carregar as naves Orion, do programa Constellation, que deve substituir os ônibus espaciais e, quem sabe, carregar a humanidade de volta à Lua.
Com dinheiro curto e outras preocupações aqui na Terra, o caminho vai ser tortuoso. Seja como for, vai aqui nosso Godspeed para o Ares.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 18h13
A importância de ser daltônico
Quem acompanha o Laboratório talvez se lembre de que a editoria de Ciência desta Folha foi invadida por um repórter daltônico, o glorioso Ricardo Mioto. Pois uma nova pesquisa acaba de mostrar como a seleção natural poderia favorecer o estilo Mioto de visão: no escuro, pode ser uma boa não enxergar algumas cores quando você está procurando comida.
O simpático resultado foi obtido com saguis da espécie Callithrix geoffroyi. Assim como a maioria das espécies de macacos do Novo Mundo, esses bichos possuem uma variação interessante de dicromatas (mais ou menos equivalentes aos nossos daltônicos) e tricromatas (com visão equivalente à dos humanos normais) na população. A distinção é de origem genética e não some via seleção natural, o que fez os pesquisadores imaginarem que alguma vantagem os daltônicos da população têm -- só não se sabe qual é. (A vantagem dos tricromatas é mais clara: enxergar a faixa vermelha do espectro luminoso, o que ajuda na hora de achar frutinhas na mata.)
Pra resolver o dilema, a equipe liderada por Nicholas Mundy, da Universidade de Cambridge, bolou o experimento em que saguis "daltônicos" e "normais" tinham de procurar comida em condições variadas, com diferentes intensidades de luz. Bingo: os saguis dicromatas se deram melhor que os demais quando a comida estava em locais mais escuros (condição que, imagino, imita bem o dossel espesso da mata).
Não dá para dizer com certeza que vantagem os macaquinhos daltônicos ganham para chegar a esse resultado, mas uma possibilidade é que eles conseguem prestar mais atenção em padrões visuais que não dependem de cores do que seus companheiros tricromatas. De qualquer maneira, o intrépido Mioto já pode se sentir vingado.
--------
Caine NG, Osorio D, & Mundy NI (2009). A foraging advantage for dichromatic marmosets (Callithrix geoffroyi) at low light intensity. Biology letters PMID: 19740895
Escrito por Reinaldo José Lopes às 19h24
Elementar, meu caro Mainardi
Esse argumento é uma linha já clássica dos chamados "céticos" do clima para negar o aquecimento global. Mainardi pode ser perdoado por embarcar nessa, er... fria, porque o assunto é mesmo complexo e pessoas sem contato com a ciência climática se confundem facilmente com um monte de dados e gráficos jogados impiedosamente sobre o público leigo e colunistas incautos exatamente com essa intenção - a de confundir. Portanto, aos esclarecimentos.
Nessa brincadeira, JÁ HOUVE períodos de oscilação para mais frio (o período 1987-1996 é um desses casos). No entanto, a presença crescente de gases-estufa na atmosfera faz com que, no longo prazo, essa variabilidade não seja suficiente para contrabalançar a tendência de alta. Ou seja, olhar a série de dados de 1998 para cá não informa absolutamente nada sobre tendências de longo prazo. E é de longo prazo que nós estamos falando aqui.
Finalmente, não dá nem para ter certeza de que os 11 anos pós-1998 correspondem mesmo a uma caída no aquecimento global. A desaceleração aparece nos dados do britânico Centro Hadley, mas não nos do Instituto Goddard, da Nasa. Segundo este último conjunto de dados, o aquecimento na última década foi de 0,19 grau Celsius -- justamente o esperado. Aqui é preciso reconhecer que há discordância entre os cientistas - o que não quer dizer que o aquecimento global não exista, veja bem, apenas que há dúvidas sinceras sobre os dados. Faz parte da ciência. Um grupo de climatologistas, os blogueiros do excelente Real Climate (www.realclimate.org), fizeram até uma aposta de que os próximos anos serão mais quentes e não mais frios.
Isso sem falar que 1998, ano de El Niño intenso, foi o mais quente desde que as medições com termômetros começaram, nos anos 1850. Quando se atinge um patamar tão elevado de temperatura, o desvio esperado tende a ser ladeira abaixo, e foi o que aconteceu.
Além disso, climatologistas não são jornalistas; eles tendem a olhar não apenas um indicador, mas um conjunto de evidências. Aqui, mais uma vez, a balança pende para o lado do aquecimento: nos últimos anos, vários recordes climatológicos foram quebrados, como a diminuição recorde do gelo marinho no Ártico em 2007 e o fato de que todos os anos deste século recém-começado foram mais quentes do que QUALQUER ano do século 20, com exceção de 1998.
Mainardi, portanto, faz muito bem em continuar andando de bicicleta.
PS: O repórter Reinaldo José Lopes anda de ônibus.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 19h56
Um crime delicado
Sabadão, ressaca jornalística pós-reunião do clima. É dia de ir embora de Bancoc, mas, antes, resolvo comer uma coisa que jurei comer há dois anos se voltasse à Tailândia. Não, não é nada do que vocês estão pensando. Trata-se de sopa de barbatana.
Embora barbatana de tubarão não seja exatamente a estrela da gastronomia tailandesa, o país tem uma influência chinesa forte. Em Bancoc há vários restaurantes especializados em pratos com barbatana de tubarão, voltados ao público chinês. Um deles, o Scala Shark Fins (com essa fachada nada sutil da foto acima), fica na Siam Square, coração de Bancoc, do lado do meu hotel. A curiosidade venceu a ética e eu entrei.
É embaraçoso, para um jornalista que cobre temas ambientais, cair de ohashi numa sopa de barbatana. Afinal, o apetite chinês por essa iguaria é um dos maiores responsáveis pelo declínio das populações de tubarão no mundo todo. É o mercado chinês de sopas de barbatana e barbatana grelhada que alimenta a prática do "finning", provavelmente o tipo mais desprezível de pesca comercial, que consiste em capturar o bicho, arrancar-lhe as barbatanas e jogar a carcaça ao mar, sem nem aproveitar a carne.
As espécies favoritas dos caçadores de barbatanas (e dos restaurantes chineses) são o tubarão-azul e o tubarão-martelo, animais pelágicos e notoriamente difíceis de proteger, tanto por seu hábito de migrar através dos oceanos (caso do azul) quanto por sua fama de comedores de gente (os martelos). Entre 1990 e 2003, segundo a organização Shark Alliance, a captura de tubarões-azuis cresceu 50%. Uma reportagem de Eduardo Geraque nesta Folha no ano passado dá conta de que 2 milhões de azuis são capturados por ano no Atlântico Sul. O quilo da barbatana no Brasil chega a R$ 100 no porto. Nos mercados de Taiwan e Hong Kong (o principal entreposto de barbatanas do mundo), um par de barbatanas chega a US$ 700. Nos restaurantes de Bancoc, uma tigela como esta abaixo de sopa de barbatana chega a US$ 30.
As duas espécies que mencionei acima são as mais visadas, mas neste negócio o proverbial "o que cair na rede é peixe" não poderia se aplicar com mais propriedade. Não há espécie de tubarão a salvo do "finning", até porque a prática não é regulamentada quase em lugar nenhum. As barbatanas dessa sopa que eu criminosamente degustei em Bancoc certamente eram de um bicho muito menor que um tubarão-azul (havia pratos de US$ 100 no cardápio, que eu suponho que viessem de tubarões maiores).
Mas, afinal, qualé a da sopa? Pelo menos vale a pena, gastronomicamente?
Lamento reportar que sim. A barbatana, em si, não tem muita graça - tem um gosto forte de peixe (não diga!) e consistência de fios de gelatina, que é o que ela é (cartilagem). Mas ela acaba ornando muito bem com o resto do prato, uma sopa escura e grossa com molho de soja, broto de feijão, coentro, cebolinha e carne de caranguejo. Confesso que engoli os primeiros bocados com bons goles de Singha, uma espécie de Skol tailandesa. Mas não sou um grande apreciador de frutos do mar. Fãs de pescado e de comida asiática devem amar a iguaria. E amam mesmo, para azar dos tubarões.
Como não é muito sábio remover grandes predadores de qualquer cadeia alimentar, ainda mais a oceânica, sob risco de desequilíbrios incalculáveis, a matança de tubarões precisa de regulações fortes. E o "finning" precisa ser banido, nem que para isso os chineses precisem pagar um bocado mais por sua sopa.
PS: Acabo de ler em agências de notícia que os EUA e a UE propuseram que oito espécies de tubarão, incluindo três de tubarão-martelo, sejam incluídas no Apêndice 2 da Cites, a convenção internacional sobre comércio de espécies ameaçadas. O Apêndice 2, onde está hoje o mogno, é a listagem mais rigorosa da Cites, e prevê uma série de medidas de controle sobre exportação.
Escrito por Claudio Angelo às 13h58
Procura-se: líder global
Presidente Lula,
O senhor é mesmo "o cara".
É o presidente mais popular da história deste país. Promoveu crescimento econômico com distribuição de renda, alçando 20 milhões de brasileiros à classe média. Achou petróleo. Fez o Brasil sair rapidinho da crise econômica, levou uma Copa do Mundo e acaba de tirar os Jogos Olímpicos da bela e estruturada Chicago bem na cara de Barack Obama. O que mais alguém pode querer no currículo? Bom, se me desculpa a ousadia, eu tenho uma pequena sugestão: salvar o planeta.
Os instrumentos para isso lhe foram dados ontem pelo ministro Carlos Minc e por sua equipe técnica. Eles elaboraram cenários de redução de emissões do Brasil que podem constituir, se forem executados, desvios significativos da nossa trajetória de gases de efeito estufa. Assumindo um crescimento econômico de 4% ao ano, podemos chegar a 2020 com até 40% de corte de emissões - o equivalente às nossas emissões de 1990. A bem da verdade, presidente, isso é pouco, já que em 1990 nós emitíamos mais de 1 bilhão de toneladas de CO2 por ano. Mas são números consistentes, produzidos com sofisticação. Teriam um efeito enorme sobre a negociação do novo tratado de proteção ao clima, a ser fechado em dezembro em Copenhague.
Minha sugestão é que o sr. pegue os cenários de Minc, amplie-os para diferentes taxas de crescimento (como pediu ontem a ministra Dilma) e para diferentes setores da economia e convoque uma grande entrevista coletiva para apresentá-los, ANTES da reunião de Copenhague. Por exemplo, em Barcelona no mês que vem, quando ocorre a última rodada de negociação pré-conferência do clima. Se quiser fazer mesmo um estardalhaço, apresente os números em Brasília o sr. mesmo e faça seus negociadores apresentarem-no simultaneamente na Espanha.
Eu sei que o pessoal do Itamaraty vai dizer que isso é uma burrice tática. Que estamos numa negociação, e numa negociação, como num jogo de pôquer, as pessoas seguram as cartas junto ao peito até o último minuto. Mas, com todo respeito, presidente, não está mais na hora de jogarmos pôquer. Ou bem o Brasil assume que o aquecimento global é um problema de negociação internacional como qualquer outro, ou bem assume que se trata de uma emergência planetária sem precedentes. Na segunda hipótese, é preciso agir politicamente.
E ação política, presidente, tem faltado nesta seara.
Eu acabo de chegar de Bancoc, onde passei uma semana acompanhando as negociações do acordo de Copenhague. E Bancoc, presidente, foi um desastre. Prevaleceu ali o interesse nacional mais tacanho, e em vez de avançar, a negociação retrocedeu, com os países ricos ameaçando implodirem o Protocolo de Kyoto e o pobres ameaçando abandonarem a mesa. Nem parecia que os diplomatas sentados ali pertenciam aos mesmos governos que na semana anterior, na ONU, prometeram ação e liderança para resolver o problema. A julgar pelos resultados de Bancoc, a capital da Dinamarca teria de mudar seu nome de Copenhague para Flopenhague. A Noruega bem que tentou salvar o dia apresentando sua meta de 40% de corte até 2020 em relação a 1990. Mas a Noruega, como o sr. sabe, tem 5 milhões de habitantes. Não é, assim, um Brasil. O Brasil, sim, é um Brasil.
E como o Brasil se portou em Bancoc? Lamento reportar que timidamente. Há que se reconhecer, por um lado, que o Itamaraty não obstrui mais o progresso das conversas, como fazia três, quatro anos atrás. Por isso, ouvi elogios à delegação brasileira de partes insuspeitas como Papua-Nova Guiné, até dia desses às turras com os nossos negociadores.
Por outro lado, presidente, o país parece abdicar a liderança que seu tamanho naturalmente lhe daria. Deixou para a África do Sul os louros da apresentação de uma proposta construtiva sobre as Namas (sigla que designa as ações dos países em desenvolvimento). E nem sequer foi a público denunciar a ameaça a Kyoto - deixou esse papel para a China, que já havia assumido a liderança do mundo em desenvolvimento em setembro na ONU, quando apresentou suas propostas (um tanto vagas) de redução de emissões.
Por isso a reunião de Barcelona é oportunidade ideal para o país botar uma proposta ousada na mesa. Fazendo isso, o Brasil poderia ajudar a curar a ferida política aberta em Bancoc e, ao mesmo tempo, fornecer o momento necessário ao processo de Copenhague.
Os números que o sr. tem na mão são um excelente ponto de partida. Eles levam em conta o que a ciência tem de mais recente em termos de contabilidade global de emissões, o chamado "budget" ou "cota" de carbono, que estima a quantidade de CO2 que o mundo ainda pode emitir de modo a ficar abaixo dos 2 graus Celsius de aquecimento (aliás, aqui está um exemplo excelente de como o Itamaraty pode fazer amigos e influenciar pessoas quando quer: de início, a chancelaria brasileira se opunha a essa meta, mas quando ela passou a fazer parte da instrução, seus competentes negociadores convenceram China e Índia a adotá-la) e distribui essa cota entre os países.
O Brasil pode e deve condicionar um aprofundamento de sua meta de corte ao maior aporte de recursos por parte das nações desenvolvidas (até para destravar o debate sobre financiamento, já que os países ricos resolveram esconder o dinheiro que disseram que dariam para combater o aquecimento global nos países pobres). Mas precisa apresentar os futuros possíveis e uma meta incondicional em primeiro lugar. É essa a sinalização política de que o processo precisa.
Por fim, presidente, sei que alguns de seus assessores lhe dirão que tudo isso são demandas de uma "mídia colonizada" ou alguma abobrinha conspitatória do tipo. Releve. Quando nada, por uma razão muito prática: Marina Silva, a quem se pode atribuir grande parte do protagonismo brasileiro na questão do clima, acha esse assunto importante. E ela, a uma altura dessas, já deve estar com passagem comprada e hotel reservado em Copenhague.
Escrito por Claudio Angelo às 06h59




